Não é biológico o que impede mulheres de amarem e desejarem outras mulheres, é social.
O que faz mulheres não serem capazes sentirem desejo por outras mulheres? O que faz com que, mesmo algumas mulheres das mais feministas, que afirmam ter compreendido a heterossexualidade compulsória, a violência dos homens e a desigualdade e a opressão dos relacionamentos heterossexuais e que afirmam com veemência amar e admirar imensamente outras mulheres e desprezar os homens sejam capazes de, na realidade, desprezar afetivamente e eroticamente aquelas que dizem amar e admirar e amar e admirar afetiva e eroticamente aqueles que dizem desprezar? O que faz com que mulheres que dizem amar e admirar suas semelhantes não consigam sequer considerar se apaixonar por elas e desejá-las?
Pra mim isso tem uma explicação: ainda é a repulsa, o desprezo ou o nojo pelo sexo feminino que forja, orienta e conduz a instituição e a manifestação dos afetos e do desejo dessas mulheres. E a explicação pra isso é só uma: isso se chama misoginia e lesbofobia.
Misoginia e lesbofobia vigorosamente internalizadas na estruturação dos afetos das mulheres.
Um dos pilares mais fundamentais da heterossexualidade compulsória é a socialização das mulheres pro falocentrismo e pra misoginia e pra lesbofobia. A socialização pro falocentrismo e pra misoginia e pra lesbofobia são complementares, operam de maneira interligada e conformam os afetos e a sexualidade das mulheres de forma limitadora e violenta: no mesmo processo em que são socializadas pra adorar falos e sujeitos falocentrados - apresentados, já desde a figura paterna e até mesmo a divina - para as mulheres como fortes, vigorosos, superiores, necessários, erotizáveis, desejáveis, as mulheres são socializadas pra odiarem e desprezarem o sexo feminino, primeiramente o próprio e, como imbricamento inevitável, o de todas as outras fêmeas humanas. Essa relação complementar entre a socialização para a misoginia e para o falocentrismo leva mulheres a internalizarem, na construção de suas sujeitas, o processo violento de heterossexualização de seus afetos e personalidades: a autocompreensão naturalizada de nós mesmas como aquilo que o nosso sexo - instituído e nos apresentado como falta, como a fraqueza, como ausência - é; ou seja, o sexo feminino não é outra coisa senão aquilo mesmo que nós somos, o que nos constitui como mulheres - a falta, a ausência - e do que apenas o sexo masculino pode nos redimir. Portanto, na construção heterossexual patriarcal, não há outra forma de mulheres obterem a positividade e a completude atribuída ao sexo masculino senão através do reconhecimento do sexo masculino sobre nós e sobre nossa condição. Assim, o desejo e a erotização do sexo masculino é, em primeira instância, a busca pelo reconhecimento de nossa humanidade. Assim, o desejo e a erotização do sexo masculino pelo sexo feminino se constrói a partir dessa falta que nos é imposta como nossa condição natural e do que representa a erotização do masculino pra gente: a completude humana que nos é negada.
(Não é o que nos confirmam todos os discursos de amor romântico heterossexual sobre mulheres procurando príncipes, tampas de panelas, metades de laranjas e tals?)
Dessa forma, a partir dessa socialização, a lesbofobia se torna também uma concretização inevitável, pois ela é introjetada a partir da socialização misógina que nos ensina a odiar e desprezar nosso sexo e tudo que diz respeito a ele, nos tornando, então, incapazes de conceber o sexo feminino como erotizável, porque tudo que aprendemos sobre ele é que ele é inferior, nojento, desprezível, repulsivo, indesejável - a não seja tornado objeto do desejo do sujeito masculino que é quando o sexo feminino encontraria, então, a sua plena realização e o sentido primeiro de sua existência. Ou seja: a erotização do sexo feminino, além de desprezível e indesejada, deve ser também negativada, visto que o sexo masculino - através de sua completude e supremacia - é o único capaz de redimir as mulheres de sua condição de falta - é isso que introjetamos quando recebemos a socialização pro falocentrismo e pra misoginia.
É fato que a heterossexualidade compulsória se manifesta por uma variedade imensa de fenômenos, rituais e comportamentos impostos às mulheres (a rivalidade feminina e os próprios rituais de feminilização de mulheres são parte da manutenção do regime heterossexual), e que romper com essas situações é importante no processo de ruptura com a heterossexualidade compulsória. No entanto, eu continuo acreditando que romper com a heterossexualidade compulsória no seu sentido mais profundo é, fundamentalmente, ser capaz de ressignificar seus afetos de tal forma a superar essa misoginia e essa lesbofobia introjetada nas mulheres e por nós naturalizada sob a forma de "orientação sexual" e sermos capazes de - verdadeiramente e não apenas em discurso - amar e admirar mulheres, o nosso corpo, o nosso sexo, as nossas existências maravilhosas a tal ponto que seja natural e irresistível se apaixonar e desejar sexualmente mulheres, ou seja, erotizá-las.
Vou expor aqui uma ponderação sobre minha vivência pessoal que desembocou na reflexão acima: sabe o que, por anos, e mesmo quando eu já era feminista, me impediu de amar mulheres e desejá-las plenamente? Não foi outra coisa senão falocentrismo, misoginia e lesbofobia internalizadas. Quando eu identifiquei - num esforço deliberado, esmiuçante, perturbador e muitas vezes doloroso (e eu escolhi não parar e nem "deixar pra lá" quando doía) de reflexões, autorreflexões e autocríticas profundos - o falocentrismo, a misoginia e a lesbofobia que me atravessavam fortemente na minha constituição de sujeita, eu pude buscar os caminhos e as compreensões necessárias pra me perceber capaz de amar, admirar e celebrar a mim mesma e a meu sexo, de forma plena e sem a necessidade do reconhecimento masculino, e isso me levou, inevitavelmente, a compreender a minha capacidade de amar, admirar, celebrar e desejar o sexo feminino, as mulheres, nossos corpos, o nosso sexo, a nossa anatomia, a nossa intimidade, a nossa companhia. Não existe nada mais feminista, mais revolucionário, mais transformador e mais delicioso do que dividir a intimidade com outra mulher. É muito revolucionário.
O que faz mulheres não serem capazes sentirem desejo por outras mulheres? O que faz com que, mesmo algumas mulheres das mais feministas, que afirmam ter compreendido a heterossexualidade compulsória, a violência dos homens e a desigualdade e a opressão dos relacionamentos heterossexuais e que afirmam com veemência amar e admirar imensamente outras mulheres e desprezar os homens sejam capazes de, na realidade, desprezar afetivamente e eroticamente aquelas que dizem amar e admirar e amar e admirar afetiva e eroticamente aqueles que dizem desprezar? O que faz com que mulheres que dizem amar e admirar suas semelhantes não consigam sequer considerar se apaixonar por elas e desejá-las?
Pra mim isso tem uma explicação: ainda é a repulsa, o desprezo ou o nojo pelo sexo feminino que forja, orienta e conduz a instituição e a manifestação dos afetos e do desejo dessas mulheres. E a explicação pra isso é só uma: isso se chama misoginia e lesbofobia.
Misoginia e lesbofobia vigorosamente internalizadas na estruturação dos afetos das mulheres.
Um dos pilares mais fundamentais da heterossexualidade compulsória é a socialização das mulheres pro falocentrismo e pra misoginia e pra lesbofobia. A socialização pro falocentrismo e pra misoginia e pra lesbofobia são complementares, operam de maneira interligada e conformam os afetos e a sexualidade das mulheres de forma limitadora e violenta: no mesmo processo em que são socializadas pra adorar falos e sujeitos falocentrados - apresentados, já desde a figura paterna e até mesmo a divina - para as mulheres como fortes, vigorosos, superiores, necessários, erotizáveis, desejáveis, as mulheres são socializadas pra odiarem e desprezarem o sexo feminino, primeiramente o próprio e, como imbricamento inevitável, o de todas as outras fêmeas humanas. Essa relação complementar entre a socialização para a misoginia e para o falocentrismo leva mulheres a internalizarem, na construção de suas sujeitas, o processo violento de heterossexualização de seus afetos e personalidades: a autocompreensão naturalizada de nós mesmas como aquilo que o nosso sexo - instituído e nos apresentado como falta, como a fraqueza, como ausência - é; ou seja, o sexo feminino não é outra coisa senão aquilo mesmo que nós somos, o que nos constitui como mulheres - a falta, a ausência - e do que apenas o sexo masculino pode nos redimir. Portanto, na construção heterossexual patriarcal, não há outra forma de mulheres obterem a positividade e a completude atribuída ao sexo masculino senão através do reconhecimento do sexo masculino sobre nós e sobre nossa condição. Assim, o desejo e a erotização do sexo masculino é, em primeira instância, a busca pelo reconhecimento de nossa humanidade. Assim, o desejo e a erotização do sexo masculino pelo sexo feminino se constrói a partir dessa falta que nos é imposta como nossa condição natural e do que representa a erotização do masculino pra gente: a completude humana que nos é negada.
(Não é o que nos confirmam todos os discursos de amor romântico heterossexual sobre mulheres procurando príncipes, tampas de panelas, metades de laranjas e tals?)
Dessa forma, a partir dessa socialização, a lesbofobia se torna também uma concretização inevitável, pois ela é introjetada a partir da socialização misógina que nos ensina a odiar e desprezar nosso sexo e tudo que diz respeito a ele, nos tornando, então, incapazes de conceber o sexo feminino como erotizável, porque tudo que aprendemos sobre ele é que ele é inferior, nojento, desprezível, repulsivo, indesejável - a não seja tornado objeto do desejo do sujeito masculino que é quando o sexo feminino encontraria, então, a sua plena realização e o sentido primeiro de sua existência. Ou seja: a erotização do sexo feminino, além de desprezível e indesejada, deve ser também negativada, visto que o sexo masculino - através de sua completude e supremacia - é o único capaz de redimir as mulheres de sua condição de falta - é isso que introjetamos quando recebemos a socialização pro falocentrismo e pra misoginia.
É fato que a heterossexualidade compulsória se manifesta por uma variedade imensa de fenômenos, rituais e comportamentos impostos às mulheres (a rivalidade feminina e os próprios rituais de feminilização de mulheres são parte da manutenção do regime heterossexual), e que romper com essas situações é importante no processo de ruptura com a heterossexualidade compulsória. No entanto, eu continuo acreditando que romper com a heterossexualidade compulsória no seu sentido mais profundo é, fundamentalmente, ser capaz de ressignificar seus afetos de tal forma a superar essa misoginia e essa lesbofobia introjetada nas mulheres e por nós naturalizada sob a forma de "orientação sexual" e sermos capazes de - verdadeiramente e não apenas em discurso - amar e admirar mulheres, o nosso corpo, o nosso sexo, as nossas existências maravilhosas a tal ponto que seja natural e irresistível se apaixonar e desejar sexualmente mulheres, ou seja, erotizá-las.
Vou expor aqui uma ponderação sobre minha vivência pessoal que desembocou na reflexão acima: sabe o que, por anos, e mesmo quando eu já era feminista, me impediu de amar mulheres e desejá-las plenamente? Não foi outra coisa senão falocentrismo, misoginia e lesbofobia internalizadas. Quando eu identifiquei - num esforço deliberado, esmiuçante, perturbador e muitas vezes doloroso (e eu escolhi não parar e nem "deixar pra lá" quando doía) de reflexões, autorreflexões e autocríticas profundos - o falocentrismo, a misoginia e a lesbofobia que me atravessavam fortemente na minha constituição de sujeita, eu pude buscar os caminhos e as compreensões necessárias pra me perceber capaz de amar, admirar e celebrar a mim mesma e a meu sexo, de forma plena e sem a necessidade do reconhecimento masculino, e isso me levou, inevitavelmente, a compreender a minha capacidade de amar, admirar, celebrar e desejar o sexo feminino, as mulheres, nossos corpos, o nosso sexo, a nossa anatomia, a nossa intimidade, a nossa companhia. Não existe nada mais feminista, mais revolucionário, mais transformador e mais delicioso do que dividir a intimidade com outra mulher. É muito revolucionário.

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