terça-feira, 26 de julho de 2016

ORPHAN BLACK E UMA REFLEXÃO PESSOAL SOBRE ESTEREÓTIPOS DE GÊNERO E A HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA



Esses dias estava assistindo Orphan Black (uma série do Netflix), na 4ª temporada, uma cena em que Sarah Manning, a personagem principal, muito na merda, cheia de problemas, bronca da vida e chateada, vai prum bar descolado encher o pote de álcool pra desanuviar.

A cena mostra ela se embebedando, dum jeito muito sensual, conforme aquelas representações que a arte do patriarcado sempre faz das mulheres como doidonas em situações vulneráveis sendo sexies. Ela começa, então, a flertar com um cara e com uma mina que tão numa mesa ao lado, tudo numa estética muito sensual - a música, a dança, os enquadramentos, tudo fetichizando a situação - até que eles se aproximam uns dos outros, trocam meia dúzia de palavras e e vão pra pista dançar e se pegar, tudo, é claro, envolvido na estética sensual, construído pra alimentar o fetiche da doidona sexy libertária.

Da pista de dança os três vão pro banheiro do bar, lá se trancam e, enquanto Sarah se pega com a mina, o cara coloca a cocaína em cima do balcão, pra depois, eles começarem a se pegar os três e a cheirarem a coca - o fetiche da doideira e da liberdade sexual como sinônimo de erotismo segue dando a tônica da cena. E, então, os três estão na pegação e a sequência termina com uma cena do homem se preparando pra foder a Sarah.

Imediatamente essa sequência despertou um troço em mim, uma excitação, daqueles "clics" que a gente sente na mente e no corpo quando vemos algo que nos afeta. Mas foi muito, muito, rápido, eu senti a excitação e logo racionalizei: esse é o tipo de cenário no qual meu erotismo foi direcionado/orientado a ser despertado durante toda minha vida heterossexual. Eu não somente me excitava com cenas como essa e com essa estética em filmes e tals, como é exatamente o tipo de situação em que eu certamente poderia me colocar pra me sentir sexy e poderosa. A antiga sensação, alimentada por anos de socialização, e por uma memória ainda recente (há muito pouco tempo eu me compreendi e aceitei lésbica) "apitou" em mim. Eu fui por muito tempo a "louca" sexy do rolê, dançando doidona, "poderosa" seduzindo ozome; eu era a "sem preconceitos", a "mente aberta" e "libertária" que fazia de tudo e que usava todo meu "poder" e "liberdade", bebendo todas, usando drogas, transando caras, minas, enfim, quem eu quisesse, onde eu quisesse, pra me sentir poderosa, pra impressionar os homens, porque eu era sim uma mulher livre e poderosa - ideia muito bem introjetada em mim também pela reafirmação dos próprios homens com quem me envolvia e por várias teorias e ideais sobre a "liberdade sexual" das mulheres (pra isso que essas teorias servem). Bem, foi essa a memória corporal que a cena imediatamente reacendeu em mim, porque eu posso dizer que fantasiei situações como essa e já vivi algumas bem parecidas também. E que me sentia mesmo sempre muito "poderosa" ao corresponder ao estereótipo que eu sabia que agradava aos homens e que fazia com que eles me destinassem algum afeto ou desejo - migalhas fundamentais pra alguém com a autoestima destruída como a minha, ou como de praticamente todas as mulheres
.
Mas, vamos analisar com mais apuro essa situação que a sequência de Orphan Black feticihiza: uma mulher sozinha num bar, bêbada e drogada, dançando louca e "seduzindo" homens - mais precisamente, no caso da cena, um casal - sendo retratada como sexy através de toda uma estética cinematográfica feita pra erotizar a personagem e a cena. Bem, essa é a fantasia heterossexual que nos vendem, que nos ensinam, que nos introjetam a partir de diversas estratégias de socialização, de filmes, de literaturas, de propagandas e todo tipo de mensagens, a fantasia de que mulheres heterossexuais são importantes e poderosas. E, como toda fantasia, ela é coberta de adereços e alegorias pra escamotear a verdade, a única coisa que não foi mostrada, sequer cogitada (e nunca é, em representações artísticas como essa), na cena: uma mulher bêbada e drogada sozinha num bar "seduzindo" homens NÃO tem poder algum. Nem sobre ele, nem sobre si, nem sobre ninguém, nem sobre nada. Uma mulher bêbada e drogada sozinha num bar cheio de homens está COMPLETAMENTE VULNERÁVEL e, diferentemente do que a estética, a literatura, a música, o cinema e a arte patriarcal nos faz crer, estar vulnerável não é nem sexy e nem poderoso, mas é PERIGOSO PARA AS MULHERES (da mesma forma que é perigoso alimentar o fetiche sobre essa situação). Estar vulnerável é estar em perigo, é perder a autonomia, é colocar em risco a integridade, a própria vida, é estar reduzida não somente a esse estereótipo, mas a toda submissão, subjugo e violência dos homens (a quem mais interessaria fetichizar e erotizar a vulnerabilidade de mulheres e a ressignificá-la como erótica, como "liberdade" ou como 'liberdade sexual"?).

Foi uma questão de segundos mesmo até eu racionalizar e entender/lembrar que o que eu gostava, ou acreditava gostar - e que minha memória corporal quase me fez crer gostar de novo - não era de homens, não era das relações heterossexuais, mas do falso poder que a sociedade patriarcal nos faz crer (através desse e de diversos outros estereótipos) que a gente possui sendo uma mulher heterossexual e cumprindo nosso papel heterossexual: estar subjugada a um ou a vários homens e crer que existe algum poder nisso.

A heterossexualidade não tem nada a ver com amor, com desejo, com afeto, a heterossexualidade é uma farsa romântica que esconde um regime político-ideológico vigoroso que convence e condiciona mulheres a acreditarem que podem amar quem as submete, que ensina mulheres a idealizar, romantizar e erotizar a própria submissão e os rituais dessa submissão.

Foi um duplo processo me compreender lésbica, reconhecer e nomear o desejo que sempre senti por mulheres, e compreender o que é a heterossexualidade compulsória e como ela agiu sobre mim.

Por isso eu digo a vocês, mulheres: o patriarcado é poderoso. Ele age sobre nossos corpos, nossas mentes, sobre o que há de mais profundo e íntimo em nós: nossos afetos, desejos e as formas como os significamos, como damos sentidos a eles. Portanto, fiquem atentas aos seus próprios sentimentos, às suas memórias, aos seus processos interiores, ao seu copo, como ele reage, como se comporta diante de lembranças e situações. Escarafunchem-nos em reflexões e encontrem dentro de vocês as respostas sobre as dúvidas que têm à respeito da própria sexualidade. Não abafem as perguntas por medo das respostas que podem encontrar. Não percam tempo. Amar mulheres é lindo, é precioso. Por favor, não percam tempo!

<3

OBS. - Só pra constar: esse texto me deixou na iminência de uma crise de ansiedade. Ele não nasceu facilmente, eu pari, assim como estou parindo a mim mesma. Às vezes é tenso e dolorido, mas dar à luz e nascer também é potente e maravilhoso.




6 comentários:

  1. Quando vi a cena, fiquei um pouco chocada. Tava esperando dar merda, a Sarah ser esfaqueada, estuprada, o cara encher ela de porrada... inclusive depois que ela foi pra casa do carinha loiro lá. Passei toda essa parte na expectativa do Felix chegar lá e arrastar ela pra casa...

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    1. Depois que fiz a reflexão, que desfetichizei a cena e reconheci o perigo, fiquei angustiada também. :(

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  2. Conheci teu blog hoje. Ainda não vi esse episódio da série, mas me senti super representada nas tuas palavras. Tive uma juventude bem nesse cenário, e ainda hoje acordo de algum pesadelo relacionado à minha heterossexualidade compulsória. Tô muito feliz de ter encontrado seu blog, traz uma paz no coração ver alguém que passou pelas mesmas vivências. Super obrigada mesmo, continue postando suas reflexões maravilhosas!

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    1. Fico feliz que mulheres se reconheçam nas minhas experiências e isso as ajude de alguma forma, das mesma maneira que me reconhecer nas experiências de outras mulheres me ajudou também! Se vc se sentir a vontade pra escrever sobre isso, tem um espaço no blog pra narrativas de leitoras, eu ficaria honrada em publicar. Veja na aba a seção "Histórias de outras de nós" e sinta-se a vontade caso queira me escrever. Obrigada pelo feedback.

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