Aos 38 anos me compreendi lésbica. Desde a primeira manifestação do meu desejo por mulheres, aos 13/14 anos, até a plena compreensão de minha lesbianidade, um fosso enorme de violências, correções, adequações, condicionamentos, rejeições e agressões patriarcais me distanciaram do que eu sou - uma lésbica. Esse blog conta minhas histórias pra que outras mulheres possam se reconhecer nelas e saber que não estão sozinhas e nem loucas e que é importante a gente conversar sobre isso.
terça-feira, 26 de julho de 2016
MEMÓRIAS DE ABUSOS INFANTIS E HETEROSSEXUALIDADE
Eu passei a vida toda achando que era normal sentir vontade de morrer, de se matar, viver com uma angústia dolorosa e um sentimento enorme de inadequação, incompreensão, constrangimento e desconforto dentro da gente desque a gente se entende por gente, mas não é né?
Antes eu achava que era porque eu era adolescente (e em todo lugar se diz que adolescentes são estranhos e incompreensíveis rebeldes e revoltados mesmos - isso é uma balela, feita pra silenciar abusos e violências cometidas pelos homens da família), depois eu achei que era assim mesmo porque era assim mesmo (porque a vida de adulto é uma merda mesmo, com trabalho, cansaço e contas pra pagar); mas agora eu entendo todos esses sentimentos e todo o processo de boicote e autodestruição que empreendi contra mim mesma, contra meu corpo, contra minha vida - que tem a ver com transtornos alimentares, consumo de drogas, abuso de álcool, estar em situações de risco e sexo arriscado, em relacionamentos abusivos, não conseguir concluir quase nenhum de meus projetos, ter uma vida profissional de merda e mais um monte de coisas - não são normais, são frutos de uma autoestima, de um emocional e uma sexualidade destruídas por um abuso sexual infantil que eu fui obrigada a silenciar e me fazer crer que tinha superado. São frutos de uma autoestima, um emocional e uma sexualidade destruídas de diversas formas e impelida à heterossexualidade [compulsória] pra conseguir aceitação e o afeto das pessoas porque quando eu ainda era uma criança me fizeram entender que se eu quisesse ser amada eu precisava ser sexualizada e ter o meu corpo disponível aos homens. Eu ainda era uma criança e eu fui ensinada a isso e, então, eu me sexualizava o tempo inteiro e oferecia meu sexo aos homens, exatamente como fui ensinada quando ainda era uma criança. E ninguém nunca me disse que isso não era verdade, que isso não era certo, que isso era abuso, mais abuso, abuso seguido de abuso. Ao contrário, eu sempre tive esses estímulos todos reforçados e sempre fiz muito sucesso. E isso é o que me doía mais, porque eu nunca gostei de homens, do sexo deles.
Ainda não é fácil pra mim. Mas pela primeira vez na minha vida desde muito tempo eu não me sinto impelida a servir sexualmente a homens e nem sinto vontade de estar o tempo todo bêbada ou drogada. Há tempos não me coloco em situações de risco e cada vez mais venho me relacionando com meu corpo e com a minha saúde com carinho e cuidado. Também estou me reconciliando com a minha sexualidade.
Hoje eu entendo que podia estar morta. Que, na verdade, era pra eu estar morta. Hoje eu entendo o que é ser uma sobrevivente.
Eu sou uma sobrevivente de abusos sexuais infantis. Eu vivo e esta é minha maior resistência contra o patriarcado. Eu ainda estou viva e pretendo permanecer.
Entender tudo isso é um recomeço. Minha vida tá começando agora, porque agora eu compreendo o sentido mais profundo de amor-próprio na vida de uma mulher sobrevivente.
Eu recomeço.
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