É um sentimento muito estranho ter vivido tanto tempo sob a heterossexualidade compulsória e romper com ela somente depois de 25 anos. Existe um passado que me confunde, porque não se parece comigo, mas eu sei que é o meu); um presente inconsistente, porque todas as minhas referências foram rompidas; e um futuro completamente aberto - justamente porque meu passado e presente não se costuram, a pessoa que eu fui parece ter muito pouca conexão com quem eu sou agora.
As vezes me causa um horror tão grande pensar no passado que eu gostaria de ser outra pessoa verdadeiramente. Ter outro corpo, outras memórias, ter outro nome. Aí eu penso que, em certa medida, outra pessoa eu já sou. Mas não tenho muitas referências dessa pessoa que me tornei.
É um processo de dissociação muito louco. E eu tô tentando ser muito cuidadosa comigo pra não me culpar e me maltratar mais do que eu já faço, do que eu aprendi a vida toda a fazer - porque independente de quem eu fui e de quem me tornei, a misoginia introjetada em mim é uma memória da qual eu nunca me esqueço.
(Reflexões matutinas de uma lésbica em andamento)
Aos 38 anos me compreendi lésbica. Desde a primeira manifestação do meu desejo por mulheres, aos 13/14 anos, até a plena compreensão de minha lesbianidade, um fosso enorme de violências, correções, adequações, condicionamentos, rejeições e agressões patriarcais me distanciaram do que eu sou - uma lésbica. Esse blog conta minhas histórias pra que outras mulheres possam se reconhecer nelas e saber que não estão sozinhas e nem loucas e que é importante a gente conversar sobre isso.
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