Nunca amei homens. Estive submetida a relacionamentos abusivos e violentos por toda a minha vida e fui compulsoriamente socializada pra acreditar que submissão, objetificação, hipersexualização, paternalização, infantilização, dependência emocional, silenciamento, incompreensão, angústia e sofrimento eram amor.
E fui mantida violentamente nessa crença pra que pudesse ser apartada radicalmente da óbvia [e talvez aterrorizante para uma pequena menina] constatação que devo ter tido através da experiência afetiva mais fundamental da minha existência: aos 12 anos, meu primeiro amor e a primeira vez que erotizei um corpo, ela era uma menina - e que algumas outras depois dela se seguiram.
É ao mesmo tempo doloroso e feliz compreender que tive meus afetos, minha existência, minha vida, sequestradas por homens, e por tanto tempo; é doloroso carregar esse lapso de existência em mim e só agora poder me reencontrar com a menina que fui aos 12 anos. Mas estou feliz - há mulheres que nunca irão conseguir, e eu lamento imensamente por elas.
Vivi a violência da heterossexualidade compulsória por 25 anos, mas acabou. Sou livre. <3
E vou contar a minha história, a história das mulheres lésbicas, a história que roubaram de mim e a história que, milenarmente, os homens tentam violentamente aniquilar. Vou contar a história da minha socialização, do meu apagamento, da heterossexualidade compulsória, dos estupros corretivos, das violências de adequação e correção, do medo, da rejeição e de toda violência lesbofóbica que o patriarcado impôs sobre mim pra me matar, pra matar o que sou.
Meu silêncio chegou ao fim. E a minha vida tá começando agora.
Aos 38 anos me compreendi lésbica. Desde a primeira manifestação do meu desejo por mulheres, aos 13/14 anos, até a plena compreensão de minha lesbianidade, um fosso enorme de violências, correções, adequações, condicionamentos, rejeições e agressões patriarcais me distanciaram do que eu sou - uma lésbica. Esse blog conta minhas histórias pra que outras mulheres possam se reconhecer nelas e saber que não estão sozinhas e nem loucas e que é importante a gente conversar sobre isso.
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