Eu sempre fui uma adolescente bastante insubmissa ao gênero, não era "vaidosa", não usava maquiagem, nem bijuterias, não pintava as unhas, adorava os cabelos curtos, roupas largas e um visual meio largadão, às vezes meio agressivo. Desde nova gostava de brincar na rua, de fazer as coisas que os meninos faziam, e sempre ficava admirada da liberdade e do poder que eles tinham. Perdi as contas de quantas vezes fui condenada por isso. De quantas tentativas de correção, de quantas vezes me senti rejeitada, senti que não iria ser amada. Perdi as contas de quantas vezes fui chamada de feia, de quantas vezes ouvi minha própria mãe (é claro que eu não culpo ela) me dizer que queria me trocar pela filha da fulana, que parece uma "bonequinha" e que não sabia o que tinha acontecido comigo, que não sabia como eu era filha dela.
E eu me perguntei muitas vezes - mas muitas mesmo - se eu era "sapatão". Eu também perdi a conta de quantas vezes eu me fiz essa pergunta internamente.
Mas se ser insubmissa ao gênero me punia e me assustava tanto, imagina ser sapatão? É claro que eu não era, eu não queria ser. E buscava naquelas revistinhas adolescentes sobre variedades e comportamento (Capricho, Querida e afins), a resposta que eu queria: "Olhar com desejo e curiosidade o corpo de outra menina não significa necessariamente ser lésbica, é só uma fase, é só curiosidade, você ainda não tem idade pra se decidir"; e nas páginas seguintes todo o aprendizado para a doutrinação da idolatria aos homens, ao falo, à heterossexualidade - as revistas cumpriram seu trabalho: colocaram em suspenso qualquer certeza que eu pudesse ter sobre minha lesbianidade e me ofereceram em troca outra verdade: de que se a lesbianidade é uma dúvida, a certeza precisa estar na heterossexualidade. As revistas, a TV, os anúncios publicitários, a minha educação social e familiar. Assim, eu fui tendo certeza que a "curiosidade" pelas mulheres,por seus corpos e suas existências era parte de uma "fase", era apenas uma confusão adolescente e que ser adulta e madura era justamente me livrar, romper, resolver essa confusão e "me decidir".
"Decidir". Era justamente essa a palavra usada em qualquer debate adolescente sobre a questão, "você é só uma adolescente, não precisa "se decidir" agora". Só não falavam pra gente que, num mundo patriarcal, todo pautado na heterossexualidade, "decidir" - usado nesses debates como sinônimo de crescimento e amadurecimento, já que a condição de "indecisão" era uma condição ligada à adolescência, significava ser heterossexual - pois virar uma mulher adulta significava exatamente se converter a uma mulher heterossexual. E isso podia ser visto nas páginas seguintes das revistinhas (e da vida): depois sobre a matéria das dúvidas sobre a sexualidade, seguiam-se as matérias sobre maquiagens, os testes pra saber se o meninO da escola gostava de você, as dicas pra agradar os rapazes, as páginas e mais páginas destinadas a idolatria de celebridades masculinas.
Ainda durante esse período, algumas outras meninas povoaram meu imaginário, a Selma, que era "zoada" de sapatão por toda escola, a Flávia, menina enorme de alta e forte, muito pouco feminilizada, que ganhava dos meninos no volei, a Sabrina, garota maluquinha e briguenta... um monte delas, e eu me fascinava, queria estar com elas - "mas isso passa, isso é inveja, admiração, curiosidade, você não precisa decidir agora, você é muito nova, isso passa" , me diziam as vozes ecoantes, de revistinhas, de programas de TV, de adultos "sábios", de conversas com meninas da minha idade.
Bem, a Ana Paula passou, a Selma passou, Flávia, Sabrina, Sandra, Cristiane, todas passaram. Eu cresci. E todas minhas amigas (e revistas, e programas de TV e tudo e todos em todos os lugares) me diziam que o legal era ficar com homem, que maravilhoso era ser desejada por um homem, que a coisa mais grandiosa que pode acontecer na vida de uma mulher era ser mulher de um homem. E eu não queria ficar pra trás. Eu não queria não ser desejada. Eu não queria não ser uma boa mulher pra minha família e pra sociedade. Pronto, eu já estava convencida por mim mesma que a "fase" da dúvida tinha passado, que eu cresci e amadureci, que eu era adulta, e que, portanto, eu só podia ser uma mulher heterossexual - a "confusão" da adolescência tinha ficado pra trás. E eu continuava tentando ser aceita e amada.
Eu poderia começar a elencar a série de merdas que começaram a descer ladeira a baixo a partir daí. A começar pela destruição completa da minha autoestima com a sensação de obrigatoriedade em adequar minha aparência, gestos e comportamentos a um ideal de feminilidade, até todos os relacionamentos abusivos, transtornos alimentares, abuso de álcool e uso de drogas e um número infindável de práticas comportamentais e sexuais de risco.
Mas não é o foco agora, nesse momento, nesse texto (eu ainda vou falar com mais detalhes sobre isso). Na verdade, esse texto é só pra contar pra vocês sobre uma coisa linda que me aconteceu, agora, há pouco tempo, ano passado.
(Mentira, não é só pra isso, é também pra dividir minha vivência com vocês e ajudar a vocês a pensarem nas suas. <3 )
Nos últimos 2 anos eu comecei a tomar contato com o debate sobre heterossexualidade compulsória (por motivos diversos e imbricados, sobre os quais, aos poucos, eu também vou narrando), e ele se derramou sobre mim. Eu até tentava evitá-lo ("nem toda heterossexualidade é compulsória", "nem todas as mulheres" e tals). Eu tentava evitá-lo, mas ele parecia uma porra duma sirene, apitando em todo lugar que eu estava, que eu pensava, que eu lia. Então, essa questão começou a me invadir, e eu comecei a questionar levemente como seria se, supostamente, eu estivesse vivendo em heterossexualidade compulsória. Comecei a levar as questões que se colocavam com esse debate - assim, muito hipoteticamente, a título de teorização, eu dizia - para minha própria vida.
Como num processo quase "natural" (entre aspas pra indicar que tô falando de um desdobramento inevitável do debate sobre a heterossexualidade, porque eu não acredito em "natureza humana"), eu comecei, inclusive, a me lembrar dessas coisas que contei aí pra vocês (poizé, eu não lembrava delas, quer dizer, lembrava em partes, lembrava da Ana Paula, lembrava que tinha sentido uma "curiosidade" por ela, mas não lembrava desta forma, com esses significados tão profundos). Esse processo de lembranças mais profundas é muito recente, pois somente quando, por ocasião das reflexões sobre heterossexualidade, eu comecei a pinçar algumas dessas histórias/memórias do meu "baú" cheio de tantas e tantas memórias e histórias da infância e me debruçar mais atentamente sobre algumas delas de forma mais demorada, elas começaram a deixar de ser apenas mais uma dentre tantas memórias de infância e foram pedindo pra serem observadas com mais cuidado por mim. E, então, eu comecei a cuidar delas, a cuidar das minhas memórias, e, cada vez mais, elas foram pulando do baú em direção a mim, pedindo pra serem observadas, pra serem cuidadas, pra serem novamente revistas pela ótica das coisas feministas que eu andava estudando. Assim, então, que eu falo pra vocês que só há pouco tempo eu comecei a me lembrar de muitas, mas muitas coisas mesmo, detalhes que eu tinha - convenientemente? - me esquecido completamente sobre a minha infância e adolescência. E eu estava casada. Num relacionamento heterossexual. E essas coisas começaram a me perturbar e machucar muito, porque, novamente, me surgiu com força a pergunta da juventude: "Será que eu sou sapatão?". E desta vez a reposta não se oferecia em revistas de comportamentos e outros veículos de propaganda de idolatria sobre o macho, mas ela estava dentro de mim, na memória daquela jovem que fez essa pergunta pela primeira vez.
Eu tive medo. Muito medo. Ataques de pânico, depressão, crise de ansiedade. É muito difícil se fazer essa pergunta aos 38 anos, depois de ter carregado a vida inteira a certeza introjetada da heterossexualidade (porque apesar de ainda ter ficado com algumas mulheres na idade adulta, eu, no máximo, me permitia ser reconhecida circunstancialmente por uma "bissexualidade curiosa", porque eu tinha certeza que lésbica não era, mas sim uma mulher heterossexual "livre de preconceitos" - também vou contar mais sobre isso). Eu estava vivendo um terror psicológico de medo e confusão, porque eu não conseguia fazer a pergunta parar de gritar dentro de mim.
E, então, um dia, depois de uma série de crises de pânico e ansiedade, eu tive um sonho. Um sonho muito lúcido.
Sonhei que eu era carcereira de uma prisão, uma prisão gigante. Eu estava nessa prisão quando, de repente, alguém (que eu não me lembro se era conhecido ou não) chegou pra mim e me disse que a Ana Paula (lembram dela, da minha infância?) estava presa nessa cadeia, numa cela que ficava numa ala no pavilhão extremo oposto onde eu estava. Meu coração saltou. E eu tinha um molho imenso de chaves nas mãos. E, então, eu comecei a atravessar a prisão em direção ao outro lado, e ela era enorme: atravessei pátios, corredores, alas, até que avistei a uma cela, não sei como, eu tive certeza na hora que era aquela. Fui me aproximando e tinha uma mulher de costas lá dentro. Eu abri cuidadosamente a cela com uma das chaves - a chave certa dentre as tantas, eu não tive dúvidas - e me aproximei da mulher, que se virou pra mim. Eu olhei nos olhos dela, abracei e sussurrei no ouvido dela: "Ana Paula, eu nunca me esqueci de você. Eu te amo". E acordei. (Esse sonho aconteceu e eu choro quando eu lembro dele).
É muito difícil eu lembrar dos meus sonhos. Nessa manhã eu acordei e lembrava vivamente dele, com todos os detalhes. Eu acordei muito feliz e tranquila, com uma sensação de enlevo imensa, fiz um café, cantarolava e me alegrava com o cheiro do café e da manhã, coisas simples que há muito tempo as crises de ansiedade e pânico me impediam de perceber e desfrutar.
É claro que eu ainda demorei um pouco pra entender que aquela mulher na cela não era a Ana Paula, ela era EU - carcereira e prisioneira da minha própria sexualidade - Mas nesse dia, eu tive a certeza sobre a resposta a minha pergunta, uma certeza que veio do fundo do meu coração.
Eu ainda demorei um tempo também até terminar o casamento, até elaborar sobre o seu fim, até decidir terminar definitivamente e vir de volta pro Rio; eu ainda sofri com algumas crises (como ainda sofro hoje), mas a certeza que eu tinha permaneceu comigo durante todo esse processo. Como permanece até agora. E é uma certeza que não se abala, porque ela não vem de nenhum discurso ou explicação de fora, ela vem de dentro de mim, da atenção, do cuidado e honestidade com que eu decidi olhar pra dentro de mim, pra [re]construir minha existência liberta e meu amor-próprio, pra nunca mais ter medo ou vergonha de quem eu sou.
Mulheres, mais uma vez eu vou falar pra vocês: o patriarcado é poderoso. Ele age sobre nossos corpos, nossas mentes, sobre o que há de mais profundo e íntimo em nós: nossos afetos, desejos e as formas como os significamos, como damos sentidos a eles. Portanto, fiquem atentas aos seus próprios sentimentos, às suas memórias, aos seus processos interiores, ao seu copo, como ele reage, como se comporta diante de lembranças e situações. Escarafunchem-nos em reflexões e encontrem dentro de vocês as respostas sobre as dúvidas que têm à respeito da própria sexualidade. Não abafem as perguntas por medo das respostas que podem encontrar. Não percam tempo. Amar mulheres é lindo, é precioso. Por favor, não percam tempo! <3
[Estou com o coração incendiado por esse texto]

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