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HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA E ABUSOS SEXUAIS
[Enviado por leitora e publicado com sua autorização.]
* Heterossexualidade compulsória é o conjunto de doutrinas às quais nós mulheres somos submetidas desde crianças para que sejamos mulheres heterossexuais subservientes e reprodutoras. Ela está em toda parte: na ditadura da beleza, na insistência para que sejamos magras e frágeis, nas nossas roupas e sapatos que nos impedem os movimentos, na rivalidade feminina que constroem em nós desde pequenas, nos contos-de-fadas que nos contam e que nos ensinam que nosso maior objetivo na vida é encontrar um príncipe e isso é o suficiente para sermos "felizes para sempre", na publicidade, na igreja, etc, etc, etc.
A história é longa. A primeira lembrança vem quando começam minhas primeiras lembranças: eu tinha 4 anos e pedi pra mamis me colocar um macacão ao invés do vestidinho. Não queria "parecer aquelas menininhas de 3 aninhos", eu disse. Já sabia o que queria e o que não queria. Queria correr brincar, chutar as canelas dos meninos e cair de skate. Cresci, de certa forma, livre até ela me pegar: a velha, a má, a cruel heterossexualidade compulsória. E ela me perseguiu e me tentou derrubar, me passando todo tipo de rasteira. E eu levantei e tentei de novo. Algumas vezes. A luta foi longa, complicada, mas eu nunca desisti. Aos 9, 10, 11, 12 anos, moletom, camiseta larga, boné. "Festinha Americana": os meninos de um lado e as meninas do outro, aguardando serem chamadas pra dançar. Eu não queria dançar com os meninos e nem esperar por nada, portanto me sentava com eles e chamava as amigas pra dançar. Mais tarde, na adolescência, eu ficava com a vassoura. Eu era livre. E feliz. Minha mãe não. Minha mãe, muito "mulher", desejando uma princesinha no lugar dos bonés e do rap, chorava. E se alguém lembrá-la de que eu fui essa criança ela vai negar. Ela mora aí, na negação, talvez ela nunca saia desta fase. Está em negação a meu respeito há 30 anos. Um dia, com 15 anos, ainda (de certa forma) livre, de tênis, calças de skatista e cabelinhos curtos pintados de vermelho, eu fiquei muito amiga do filho do pastor. Ele era engraçado e andava com um garoto estiloso que parecia ser gay e eu também queria andar com ele. Saíamos os três juntos e era muito divertido! Era só isso que eu queria: ser um dos garotos. Mas... Heis que ela chega, com força, mostra sua verdadeira face pela primeira vez. Ele começou a me convencer de que eu já era "uma mulher" e que eu devia "me vestir e me portar como tal". "Chega de ser moleca, você já é uma mulher, não pode ficar usando essas roupas e andando com os meninos". Ele, cria saudável do patriarcado, viu em mim o brinquedo perfeito pra ser moldado: a mini-subversiva que ainda era escrava da igreja. Minha mãe o adorava: o filho do pastor queria a filha dela e, veja só, transformá-la finalmente em "uma mulher". Quando fui contar pra ela, indignada, que o garoto queria que eu mudasse quem eu era, minha mãe pobre vítima desta cruel e poderosa dominatrix, não escondeu o brilho nos olhos ao dizer que ele estava certo. E eu sempre segui os conselhos da minha mãe. "Eles devem ter razão." E me rendi. Mudaram, então, meu cabelo e meu guarda-roupas todo. Meus tênis foram trocados por saltos altos, meus brinquedos por maquiagens e minha virgindade por dor e culpa. Ele conseguiu o que queria: a Barbie cor-de-rosa, submissa, estuprada e culpada, porque Deus nunca perdoaria minha violação. Doía. Ele me doía fisicamente. Cada "toque" dele era doloroso. A mão agressiva na minha vagina virgem. Ele enfiava a mão dentro da minha calça, na presença de qualquer pessoa, em qualquer lugar, quando bem entendesse, com muita força. Eu tentava tirar mas ele era muito maior e muito mais forte que eu. Eu desistia. Esperava ele querer parar de me machucar. Eu sentia muita dor, mesmo depois que ele parava. Depois ia à igreja, pedia perdão pra Deus e chorava. Ele não se incomodava, no outro dia ele fazia de novo. Quando eu finalmente me libertei desse inferno físico e psicológico (ele me controlava, proibia, enganava, mentia, traía...) de dois anos e oito meses, veio a faculdade. Aí eu era feia, desleixada, "dorme sujo", porque eu não alisava o cabelo e preferia ir pra aula de chinelo e bermuda ao invés de salto e vestido. As pessoas riam de mim, me isolavam, escovavam meu cabelo, me maquiavam, cortavam minhas roupas. E odiavam minha personalidade subversiva. E lá fui eu de novo, sendo arrastada e devorada por esta maldita obrigatoriedade heterossexual. E é claro que os próximos namorados continuaram o trabalho do primeiro. Eu aceitava qualquer violência, afinal, eu era "uma mulher". Depois de ter me descoberto lésbica (e ter passado 10 anos amando uma garota) e me assumir em casa, as coisas ficaram mais complicadas e pesadas. Minha mãe não aceitou (e talvez nunca aceite) e eu fiquei desesperada pela aprovação dela. Me joguei. Olhei pra heterossexualidade e falei "vem me pegar!". Me maquiei, usei sombra rosa, cílios postiços e transei com vários caras. Me transformei no que ela queria. "Toma sua desgraçada! Era isso que você queria? Minha escravidão completa, estética e sexual? Toma, pega! Me apaixonar, viver conto-de-fadas? Vamos nessa, então!" Mas eu tenho uma notícia pra te dar, heterossexualidade compulsória: eu não morri! Eu tô viva! E enquanto houver em mim o brilho da garotinha do macacão você nunca vai me ter. E agora chega. Agora deu. Eu usei sua própria força contra você, como num golpe de judô. Te cansei, te esgotei. E me empoderei, e me resgatei, e me lembrei de mim mesma e que saudades de mim! Que vontade de me abraçar, me amar, me dizer o quanto eu sou bem-vinda de volta e o quanto eu fico linda sendo eu mesma! Eu sei que perdi muito tempo, mas pelo menos foi numa guerra que eu venci, pelo menos eu derrotei uma inimiga. E desta vez ela nunca mais sai de baixo dos meus pés.
[Enviado por P.A. em 28/07/16]
MEMÓRIAS DA HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA.
[Enviado por leitora e publicado com sua autorização.]
Era janeiro de 2011, eu tinha 26 anos e estava de férias. Decidi ir a um show de rock da minha cidade. Com pouca grana, só queria passar o tempo. A noite estava quente. Bonita.
MEMÓRIAS DA HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA.
[Enviado por leitora e publicado com sua autorização.]
Era janeiro de 2011, eu tinha 26 anos e estava de férias. Decidi ir a um show de rock da minha cidade. Com pouca grana, só queria passar o tempo. A noite estava quente. Bonita.
Chegando lá, logo
encontrei um cara que eu encontrava nos rolês anarquistas que eu
frequentava. Foi bom ver um rosto familiar, sentamos numa mesa e
ficamos conversando sorbe rolês anarquistas: coletivos, ocupas,
reciclas, bandas, toda aquela coisa anarquista de sempre. A conversa
ficou boa, ficamos ali umas boas horas. Eu gostava muito de homens,
eles eram meus bróder. Então ele começou a me olhar mais
demoradamente e eu vi que ele tinha outros planos. Pensei
imediatamente... nele. Ele tinha passado a noite inteira conversando
comigo, eu deveria ter notado que estava "empatando a foda"
dele. Agora quase todos tinham ido embora e os casais tinham se
formado. Ele tinha perdido o tempo dele comigo. Ele queria me beijar,
decidi que era o correto a se fazer.
O beijo dele era ruim. Era como beijar um liquidificador. E as mãos dele eram muito brutas, me espremiam, beliscavam e machucavam. Eu ia tirando as mãos dele, tentando mostrar como eu gostava de ser tocada, mas não tinha muito jeito. O cara era simplesmente ruim naquilo. Então tentei prolongar a conversa, mas ele não queria mais conversa agora que estávamos ficando. Fiquei beijando o cara enquanto pensava em várias coisas. Eu me relacionava sexualmente com homens desde os 20 anos, isto é, na idade adulta, quando nos consideramos aptas a tomar todo tipo de decisão impactante sobre nossas vidas, porque agora somos seres humanos completos. E durante esses 6 anos com macho, eu não tinha entendido a relação entre violência e sensualidade. O código de sedução heterossexual, para mim, era insano, me provocava um certo pavor, e eu tinha que beber para entrar nele. Os homens pareciam tão estereotipados quando tinham que fazer sexo... Eu imaginava as coisas tão diferentes quando eu era adolescente: imaginava que tudo ia ser suave, tranquilo, lento, mas era tudo rápido, bruto, e até meio descoordenado.
Enfim, a hora passou.
Não tinha mais ônibus para minha casa, e o cara morava logo ali.
Decidi ir dormir na casa dele, sabendo que ele queria me comer. Bom,
eu tinha estragado a noite dele. Tinha empatado a foda dele. Me
pareceu ajustado dar pra ele. Afinal ele era legal e tínhamos várias
coisas em comum. Eu me sentia estranha, incompleta e inadequada: o
cara é tão legal, nós nos damos tão bem, por que ainda não tenho
tesão nele? Isso era uma espécie de padrão na minha vida. E pra
piorar, o cara era anarquista e conhecia várias pessoas em comum. Se
eu não desse pra ele, eu seria menos anarquista, menos
livre. Ele tinha muito mais tempo de casa no anarquismo do que
eu; o que ele ficasse sabendo de mim era importante.
Fomos transar; eu
consegui que ele usasse camisinha, mesmo ele não curtindo. Ele
montou em mim e começou a fazer o que homens fazem. Só que, dessa
vez, eu estava sóbria, pela primeira vez em seis anos. Sóbria.
Então eu fiquei olhando a cara dele. Os sons que ele fazia. O suor
dele pingando na minha cara era bem nojento. Ele não estava nem aí
pra mim. Comecei a me sentir muito estranha, muito mal; sabe quando
você dorme no busão e acorda num lugar muito estranho? Eu me senti
assim, acordando em um lugar muito estranho, mas o lugar estranho era
meu corpo e eu queria sair dali. Ele estava me estuprando. Mas
espera, eu tinha ido a várias rodas anarquistas de conversas sobre
consentimento. Eu não tinha dito não; ele não tinha usado força
contra mim. Eu não estava excitada, a borracha da camisinha me
machucava, e a situação começou a ficar caótica. Eu acho que vou
gritar. Acho que vou chorar. Acho que vou morrer. Mas o cara acaba,
rola pro lado e dorme, enquanto eu me visto. Na manhã seguinte,
saio.
***
Nesse dia muitas
dúvidas surgiram na minha cabeça, e eu passei mais uns bons meses
sem transar com ninguém. Comecei a sentir que minha sexualidade era
defeituosa, errada, que eu tinha que me entender comigo mesma antes
de me relacionar novamente com alguém. Eu estava revivendo dramas e
dúvidas que eu achava que tinham ficado no passado. Eu nunca tinha
conseguido, pra ser bem sincera, dissociar a imagem dos homens da
imagem dos agressores. Em alguma escala, meu desejo sempre parecia
ser supérfluo, descartável, desimportante. Eu tinha me acostumado
com a ideia de que o tesão teria que acontecer durante a
foda, mas que no início eu sempre teria que ser convencida a dar. O
que era útil, porque, como eu não tinha lubrificação, eu estava
sempre "apertadinha" - porém, a falta de lubrificação
fazia com que eu tivesse reações alérgicas violentas ao látex,
com direito a excessiva descamação da vagina, sangramentos e
coceiras insuportáveis.
Pensei em como aquilo
era estranho. Homens gostavam de uma vagina não-excitada. E gostavam
daquelas expressões faciais e sons que eu ouvia na pornografia, e
achava nojento. Fiquei pensando se sexo e estupro eram parecidos
apenas pra mim. E se eu não tinha prazer naquilo, por que continuava
fazendo.
Eu queria que o cara
ligasse no dia seguinte, porque a sensação era a de que ele tinha
levado algo meu. Como quem liga e fala "ei, você esqueceu sua
camisa, vamos marcar pra eu te devolver". Só que ele não tinha
nada de meu, nada de material. Me indignava a perspectiva e que
aquilo não significasse nada para ele, mas a verdade é que não
significava nada para mim também. E o fato de que tinha doído, e de
que eu tinha me colocado naquela situação tão vulnerável e
entregue, me fazia sentir ódio de mim mesma. Claro que, como boa
anarquista, eu só conseguia me culpar, me sentir uma burguesinha de
merda que não conseguia lidar com uma noite de sexo casual. Eu não
queria namorar o cara. Nem queria ficar com ele novamente, porque
tinha sido horrível. Mas de alguma maneira, eu achava que, se ele me
ligasse, aquela foda podia ser menos traumática.
Ele nunca ligou.
[Enviado por C.L. em 26/07/2016]
[Enviado por C.L. em 26/07/2016]


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