Não há adjetivo capaz de dizer essa sensação. <3
Aos 38 anos me compreendi lésbica. Desde a primeira manifestação do meu desejo por mulheres, aos 13/14 anos, até a plena compreensão de minha lesbianidade, um fosso enorme de violências, correções, adequações, condicionamentos, rejeições e agressões patriarcais me distanciaram do que eu sou - uma lésbica. Esse blog conta minhas histórias pra que outras mulheres possam se reconhecer nelas e saber que não estão sozinhas e nem loucas e que é importante a gente conversar sobre isso.
sexta-feira, 29 de julho de 2016
SOY [quase] UNA BUTCH
Quanto mais eu me [re]aproprio do meu corpo, dos meus afetos, da minha vida, quanto mais me assenhorio de mim, menos as prisões me parecem confortáveis ou adoráveis, menos eu caibo nelas e menos elas me cabem, mais vigorosamente eu rejeito as feminilidades.
Não há adjetivo capaz de dizer essa sensação. <3
Não há adjetivo capaz de dizer essa sensação. <3
PASSADO, PRESENTE E QUEM SOU EU?
É um sentimento muito estranho ter vivido tanto tempo sob a heterossexualidade compulsória e romper com ela somente depois de 25 anos. Existe um passado que me confunde, porque não se parece comigo, mas eu sei que é o meu); um presente inconsistente, porque todas as minhas referências foram rompidas; e um futuro completamente aberto - justamente porque meu passado e presente não se costuram, a pessoa que eu fui parece ter muito pouca conexão com quem eu sou agora.
As vezes me causa um horror tão grande pensar no passado que eu gostaria de ser outra pessoa verdadeiramente. Ter outro corpo, outras memórias, ter outro nome. Aí eu penso que, em certa medida, outra pessoa eu já sou. Mas não tenho muitas referências dessa pessoa que me tornei.
É um processo de dissociação muito louco. E eu tô tentando ser muito cuidadosa comigo pra não me culpar e me maltratar mais do que eu já faço, do que eu aprendi a vida toda a fazer - porque independente de quem eu fui e de quem me tornei, a misoginia introjetada em mim é uma memória da qual eu nunca me esqueço.
(Reflexões matutinas de uma lésbica em andamento)
As vezes me causa um horror tão grande pensar no passado que eu gostaria de ser outra pessoa verdadeiramente. Ter outro corpo, outras memórias, ter outro nome. Aí eu penso que, em certa medida, outra pessoa eu já sou. Mas não tenho muitas referências dessa pessoa que me tornei.
É um processo de dissociação muito louco. E eu tô tentando ser muito cuidadosa comigo pra não me culpar e me maltratar mais do que eu já faço, do que eu aprendi a vida toda a fazer - porque independente de quem eu fui e de quem me tornei, a misoginia introjetada em mim é uma memória da qual eu nunca me esqueço.
(Reflexões matutinas de uma lésbica em andamento)
ENFRENTANDO OS MEDOS
Às vezes eu sinto que pra ser livre eu não posso ter uma buceta, seios, as curvas de mulher que tenho, eu estranho meu corpo. Não é uma sensação nova, eu já a conheço. Mas há momentos em que ela têm surgido com muita força agora. A diferença é que em vez de retroceder e me esconder nas feminilidades de gestos, trejeitos, aparência e comportamentos em que me jogaram e me induziram a crer que era onde meu corpo cabia, eu a enfrento.
Ser livre é uma longa jornada.
Ser livre é uma longa jornada.
terça-feira, 26 de julho de 2016
ORPHAN BLACK E UMA REFLEXÃO PESSOAL SOBRE ESTEREÓTIPOS DE GÊNERO E A HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA
Esses dias estava assistindo Orphan Black (uma série do Netflix), na 4ª temporada, uma cena em que Sarah Manning, a personagem principal, muito na merda, cheia de problemas, bronca da vida e chateada, vai prum bar descolado encher o pote de álcool pra desanuviar.
A cena mostra ela se embebedando, dum jeito muito sensual, conforme aquelas representações que a arte do patriarcado sempre faz das mulheres como doidonas em situações vulneráveis sendo sexies. Ela começa, então, a flertar com um cara e com uma mina que tão numa mesa ao lado, tudo numa estética muito sensual - a música, a dança, os enquadramentos, tudo fetichizando a situação - até que eles se aproximam uns dos outros, trocam meia dúzia de palavras e e vão pra pista dançar e se pegar, tudo, é claro, envolvido na estética sensual, construído pra alimentar o fetiche da doidona sexy libertária.
Da pista de dança os três vão pro banheiro do bar, lá se trancam e, enquanto Sarah se pega com a mina, o cara coloca a cocaína em cima do balcão, pra depois, eles começarem a se pegar os três e a cheirarem a coca - o fetiche da doideira e da liberdade sexual como sinônimo de erotismo segue dando a tônica da cena. E, então, os três estão na pegação e a sequência termina com uma cena do homem se preparando pra foder a Sarah.
Imediatamente essa sequência despertou um troço em mim, uma excitação, daqueles "clics" que a gente sente na mente e no corpo quando vemos algo que nos afeta. Mas foi muito, muito, rápido, eu senti a excitação e logo racionalizei: esse é o tipo de cenário no qual meu erotismo foi direcionado/orientado a ser despertado durante toda minha vida heterossexual. Eu não somente me excitava com cenas como essa e com essa estética em filmes e tals, como é exatamente o tipo de situação em que eu certamente poderia me colocar pra me sentir sexy e poderosa. A antiga sensação, alimentada por anos de socialização, e por uma memória ainda recente (há muito pouco tempo eu me compreendi e aceitei lésbica) "apitou" em mim. Eu fui por muito tempo a "louca" sexy do rolê, dançando doidona, "poderosa" seduzindo ozome; eu era a "sem preconceitos", a "mente aberta" e "libertária" que fazia de tudo e que usava todo meu "poder" e "liberdade", bebendo todas, usando drogas, transando caras, minas, enfim, quem eu quisesse, onde eu quisesse, pra me sentir poderosa, pra impressionar os homens, porque eu era sim uma mulher livre e poderosa - ideia muito bem introjetada em mim também pela reafirmação dos próprios homens com quem me envolvia e por várias teorias e ideais sobre a "liberdade sexual" das mulheres (pra isso que essas teorias servem). Bem, foi essa a memória corporal que a cena imediatamente reacendeu em mim, porque eu posso dizer que fantasiei situações como essa e já vivi algumas bem parecidas também. E que me sentia mesmo sempre muito "poderosa" ao corresponder ao estereótipo que eu sabia que agradava aos homens e que fazia com que eles me destinassem algum afeto ou desejo - migalhas fundamentais pra alguém com a autoestima destruída como a minha, ou como de praticamente todas as mulheres
.
Mas, vamos analisar com mais apuro essa situação que a sequência de Orphan Black feticihiza: uma mulher sozinha num bar, bêbada e drogada, dançando louca e "seduzindo" homens - mais precisamente, no caso da cena, um casal - sendo retratada como sexy através de toda uma estética cinematográfica feita pra erotizar a personagem e a cena. Bem, essa é a fantasia heterossexual que nos vendem, que nos ensinam, que nos introjetam a partir de diversas estratégias de socialização, de filmes, de literaturas, de propagandas e todo tipo de mensagens, a fantasia de que mulheres heterossexuais são importantes e poderosas. E, como toda fantasia, ela é coberta de adereços e alegorias pra escamotear a verdade, a única coisa que não foi mostrada, sequer cogitada (e nunca é, em representações artísticas como essa), na cena: uma mulher bêbada e drogada sozinha num bar "seduzindo" homens NÃO tem poder algum. Nem sobre ele, nem sobre si, nem sobre ninguém, nem sobre nada. Uma mulher bêbada e drogada sozinha num bar cheio de homens está COMPLETAMENTE VULNERÁVEL e, diferentemente do que a estética, a literatura, a música, o cinema e a arte patriarcal nos faz crer, estar vulnerável não é nem sexy e nem poderoso, mas é PERIGOSO PARA AS MULHERES (da mesma forma que é perigoso alimentar o fetiche sobre essa situação). Estar vulnerável é estar em perigo, é perder a autonomia, é colocar em risco a integridade, a própria vida, é estar reduzida não somente a esse estereótipo, mas a toda submissão, subjugo e violência dos homens (a quem mais interessaria fetichizar e erotizar a vulnerabilidade de mulheres e a ressignificá-la como erótica, como "liberdade" ou como 'liberdade sexual"?).
Foi uma questão de segundos mesmo até eu racionalizar e entender/lembrar que o que eu gostava, ou acreditava gostar - e que minha memória corporal quase me fez crer gostar de novo - não era de homens, não era das relações heterossexuais, mas do falso poder que a sociedade patriarcal nos faz crer (através desse e de diversos outros estereótipos) que a gente possui sendo uma mulher heterossexual e cumprindo nosso papel heterossexual: estar subjugada a um ou a vários homens e crer que existe algum poder nisso.
A heterossexualidade não tem nada a ver com amor, com desejo, com afeto, a heterossexualidade é uma farsa romântica que esconde um regime político-ideológico vigoroso que convence e condiciona mulheres a acreditarem que podem amar quem as submete, que ensina mulheres a idealizar, romantizar e erotizar a própria submissão e os rituais dessa submissão.
Foi um duplo processo me compreender lésbica, reconhecer e nomear o desejo que sempre senti por mulheres, e compreender o que é a heterossexualidade compulsória e como ela agiu sobre mim.
Por isso eu digo a vocês, mulheres: o patriarcado é poderoso. Ele age sobre nossos corpos, nossas mentes, sobre o que há de mais profundo e íntimo em nós: nossos afetos, desejos e as formas como os significamos, como damos sentidos a eles. Portanto, fiquem atentas aos seus próprios sentimentos, às suas memórias, aos seus processos interiores, ao seu copo, como ele reage, como se comporta diante de lembranças e situações. Escarafunchem-nos em reflexões e encontrem dentro de vocês as respostas sobre as dúvidas que têm à respeito da própria sexualidade. Não abafem as perguntas por medo das respostas que podem encontrar. Não percam tempo. Amar mulheres é lindo, é precioso. Por favor, não percam tempo!
<3
OBS. - Só pra constar: esse texto me deixou na iminência de uma crise de ansiedade. Ele não nasceu facilmente, eu pari, assim como estou parindo a mim mesma. Às vezes é tenso e dolorido, mas dar à luz e nascer também é potente e maravilhoso.
SOBRE ADOLESCÊNCIA, REMINISCÊNCIAS, PROCESSOS MNEMÔNICOS E HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA
Eu sempre fui uma adolescente bastante insubmissa ao gênero, não era "vaidosa", não usava maquiagem, nem bijuterias, não pintava as unhas, adorava os cabelos curtos, roupas largas e um visual meio largadão, às vezes meio agressivo. Desde nova gostava de brincar na rua, de fazer as coisas que os meninos faziam, e sempre ficava admirada da liberdade e do poder que eles tinham. Perdi as contas de quantas vezes fui condenada por isso. De quantas tentativas de correção, de quantas vezes me senti rejeitada, senti que não iria ser amada. Perdi as contas de quantas vezes fui chamada de feia, de quantas vezes ouvi minha própria mãe (é claro que eu não culpo ela) me dizer que queria me trocar pela filha da fulana, que parece uma "bonequinha" e que não sabia o que tinha acontecido comigo, que não sabia como eu era filha dela.
E eu me perguntei muitas vezes - mas muitas mesmo - se eu era "sapatão". Eu também perdi a conta de quantas vezes eu me fiz essa pergunta internamente.
Mas se ser insubmissa ao gênero me punia e me assustava tanto, imagina ser sapatão? É claro que eu não era, eu não queria ser. E buscava naquelas revistinhas adolescentes sobre variedades e comportamento (Capricho, Querida e afins), a resposta que eu queria: "Olhar com desejo e curiosidade o corpo de outra menina não significa necessariamente ser lésbica, é só uma fase, é só curiosidade, você ainda não tem idade pra se decidir"; e nas páginas seguintes todo o aprendizado para a doutrinação da idolatria aos homens, ao falo, à heterossexualidade - as revistas cumpriram seu trabalho: colocaram em suspenso qualquer certeza que eu pudesse ter sobre minha lesbianidade e me ofereceram em troca outra verdade: de que se a lesbianidade é uma dúvida, a certeza precisa estar na heterossexualidade. As revistas, a TV, os anúncios publicitários, a minha educação social e familiar. Assim, eu fui tendo certeza que a "curiosidade" pelas mulheres,por seus corpos e suas existências era parte de uma "fase", era apenas uma confusão adolescente e que ser adulta e madura era justamente me livrar, romper, resolver essa confusão e "me decidir".
"Decidir". Era justamente essa a palavra usada em qualquer debate adolescente sobre a questão, "você é só uma adolescente, não precisa "se decidir" agora". Só não falavam pra gente que, num mundo patriarcal, todo pautado na heterossexualidade, "decidir" - usado nesses debates como sinônimo de crescimento e amadurecimento, já que a condição de "indecisão" era uma condição ligada à adolescência, significava ser heterossexual - pois virar uma mulher adulta significava exatamente se converter a uma mulher heterossexual. E isso podia ser visto nas páginas seguintes das revistinhas (e da vida): depois sobre a matéria das dúvidas sobre a sexualidade, seguiam-se as matérias sobre maquiagens, os testes pra saber se o meninO da escola gostava de você, as dicas pra agradar os rapazes, as páginas e mais páginas destinadas a idolatria de celebridades masculinas.
Ainda durante esse período, algumas outras meninas povoaram meu imaginário, a Selma, que era "zoada" de sapatão por toda escola, a Flávia, menina enorme de alta e forte, muito pouco feminilizada, que ganhava dos meninos no volei, a Sabrina, garota maluquinha e briguenta... um monte delas, e eu me fascinava, queria estar com elas - "mas isso passa, isso é inveja, admiração, curiosidade, você não precisa decidir agora, você é muito nova, isso passa" , me diziam as vozes ecoantes, de revistinhas, de programas de TV, de adultos "sábios", de conversas com meninas da minha idade.
Bem, a Ana Paula passou, a Selma passou, Flávia, Sabrina, Sandra, Cristiane, todas passaram. Eu cresci. E todas minhas amigas (e revistas, e programas de TV e tudo e todos em todos os lugares) me diziam que o legal era ficar com homem, que maravilhoso era ser desejada por um homem, que a coisa mais grandiosa que pode acontecer na vida de uma mulher era ser mulher de um homem. E eu não queria ficar pra trás. Eu não queria não ser desejada. Eu não queria não ser uma boa mulher pra minha família e pra sociedade. Pronto, eu já estava convencida por mim mesma que a "fase" da dúvida tinha passado, que eu cresci e amadureci, que eu era adulta, e que, portanto, eu só podia ser uma mulher heterossexual - a "confusão" da adolescência tinha ficado pra trás. E eu continuava tentando ser aceita e amada.
Eu poderia começar a elencar a série de merdas que começaram a descer ladeira a baixo a partir daí. A começar pela destruição completa da minha autoestima com a sensação de obrigatoriedade em adequar minha aparência, gestos e comportamentos a um ideal de feminilidade, até todos os relacionamentos abusivos, transtornos alimentares, abuso de álcool e uso de drogas e um número infindável de práticas comportamentais e sexuais de risco.
Mas não é o foco agora, nesse momento, nesse texto (eu ainda vou falar com mais detalhes sobre isso). Na verdade, esse texto é só pra contar pra vocês sobre uma coisa linda que me aconteceu, agora, há pouco tempo, ano passado.
(Mentira, não é só pra isso, é também pra dividir minha vivência com vocês e ajudar a vocês a pensarem nas suas. <3 )
Nos últimos 2 anos eu comecei a tomar contato com o debate sobre heterossexualidade compulsória (por motivos diversos e imbricados, sobre os quais, aos poucos, eu também vou narrando), e ele se derramou sobre mim. Eu até tentava evitá-lo ("nem toda heterossexualidade é compulsória", "nem todas as mulheres" e tals). Eu tentava evitá-lo, mas ele parecia uma porra duma sirene, apitando em todo lugar que eu estava, que eu pensava, que eu lia. Então, essa questão começou a me invadir, e eu comecei a questionar levemente como seria se, supostamente, eu estivesse vivendo em heterossexualidade compulsória. Comecei a levar as questões que se colocavam com esse debate - assim, muito hipoteticamente, a título de teorização, eu dizia - para minha própria vida.
Como num processo quase "natural" (entre aspas pra indicar que tô falando de um desdobramento inevitável do debate sobre a heterossexualidade, porque eu não acredito em "natureza humana"), eu comecei, inclusive, a me lembrar dessas coisas que contei aí pra vocês (poizé, eu não lembrava delas, quer dizer, lembrava em partes, lembrava da Ana Paula, lembrava que tinha sentido uma "curiosidade" por ela, mas não lembrava desta forma, com esses significados tão profundos). Esse processo de lembranças mais profundas é muito recente, pois somente quando, por ocasião das reflexões sobre heterossexualidade, eu comecei a pinçar algumas dessas histórias/memórias do meu "baú" cheio de tantas e tantas memórias e histórias da infância e me debruçar mais atentamente sobre algumas delas de forma mais demorada, elas começaram a deixar de ser apenas mais uma dentre tantas memórias de infância e foram pedindo pra serem observadas com mais cuidado por mim. E, então, eu comecei a cuidar delas, a cuidar das minhas memórias, e, cada vez mais, elas foram pulando do baú em direção a mim, pedindo pra serem observadas, pra serem cuidadas, pra serem novamente revistas pela ótica das coisas feministas que eu andava estudando. Assim, então, que eu falo pra vocês que só há pouco tempo eu comecei a me lembrar de muitas, mas muitas coisas mesmo, detalhes que eu tinha - convenientemente? - me esquecido completamente sobre a minha infância e adolescência. E eu estava casada. Num relacionamento heterossexual. E essas coisas começaram a me perturbar e machucar muito, porque, novamente, me surgiu com força a pergunta da juventude: "Será que eu sou sapatão?". E desta vez a reposta não se oferecia em revistas de comportamentos e outros veículos de propaganda de idolatria sobre o macho, mas ela estava dentro de mim, na memória daquela jovem que fez essa pergunta pela primeira vez.
Eu tive medo. Muito medo. Ataques de pânico, depressão, crise de ansiedade. É muito difícil se fazer essa pergunta aos 38 anos, depois de ter carregado a vida inteira a certeza introjetada da heterossexualidade (porque apesar de ainda ter ficado com algumas mulheres na idade adulta, eu, no máximo, me permitia ser reconhecida circunstancialmente por uma "bissexualidade curiosa", porque eu tinha certeza que lésbica não era, mas sim uma mulher heterossexual "livre de preconceitos" - também vou contar mais sobre isso). Eu estava vivendo um terror psicológico de medo e confusão, porque eu não conseguia fazer a pergunta parar de gritar dentro de mim.
E, então, um dia, depois de uma série de crises de pânico e ansiedade, eu tive um sonho. Um sonho muito lúcido.
Sonhei que eu era carcereira de uma prisão, uma prisão gigante. Eu estava nessa prisão quando, de repente, alguém (que eu não me lembro se era conhecido ou não) chegou pra mim e me disse que a Ana Paula (lembram dela, da minha infância?) estava presa nessa cadeia, numa cela que ficava numa ala no pavilhão extremo oposto onde eu estava. Meu coração saltou. E eu tinha um molho imenso de chaves nas mãos. E, então, eu comecei a atravessar a prisão em direção ao outro lado, e ela era enorme: atravessei pátios, corredores, alas, até que avistei a uma cela, não sei como, eu tive certeza na hora que era aquela. Fui me aproximando e tinha uma mulher de costas lá dentro. Eu abri cuidadosamente a cela com uma das chaves - a chave certa dentre as tantas, eu não tive dúvidas - e me aproximei da mulher, que se virou pra mim. Eu olhei nos olhos dela, abracei e sussurrei no ouvido dela: "Ana Paula, eu nunca me esqueci de você. Eu te amo". E acordei. (Esse sonho aconteceu e eu choro quando eu lembro dele).
É muito difícil eu lembrar dos meus sonhos. Nessa manhã eu acordei e lembrava vivamente dele, com todos os detalhes. Eu acordei muito feliz e tranquila, com uma sensação de enlevo imensa, fiz um café, cantarolava e me alegrava com o cheiro do café e da manhã, coisas simples que há muito tempo as crises de ansiedade e pânico me impediam de perceber e desfrutar.
É claro que eu ainda demorei um pouco pra entender que aquela mulher na cela não era a Ana Paula, ela era EU - carcereira e prisioneira da minha própria sexualidade - Mas nesse dia, eu tive a certeza sobre a resposta a minha pergunta, uma certeza que veio do fundo do meu coração.
Eu ainda demorei um tempo também até terminar o casamento, até elaborar sobre o seu fim, até decidir terminar definitivamente e vir de volta pro Rio; eu ainda sofri com algumas crises (como ainda sofro hoje), mas a certeza que eu tinha permaneceu comigo durante todo esse processo. Como permanece até agora. E é uma certeza que não se abala, porque ela não vem de nenhum discurso ou explicação de fora, ela vem de dentro de mim, da atenção, do cuidado e honestidade com que eu decidi olhar pra dentro de mim, pra [re]construir minha existência liberta e meu amor-próprio, pra nunca mais ter medo ou vergonha de quem eu sou.
Mulheres, mais uma vez eu vou falar pra vocês: o patriarcado é poderoso. Ele age sobre nossos corpos, nossas mentes, sobre o que há de mais profundo e íntimo em nós: nossos afetos, desejos e as formas como os significamos, como damos sentidos a eles. Portanto, fiquem atentas aos seus próprios sentimentos, às suas memórias, aos seus processos interiores, ao seu copo, como ele reage, como se comporta diante de lembranças e situações. Escarafunchem-nos em reflexões e encontrem dentro de vocês as respostas sobre as dúvidas que têm à respeito da própria sexualidade. Não abafem as perguntas por medo das respostas que podem encontrar. Não percam tempo. Amar mulheres é lindo, é precioso. Por favor, não percam tempo! <3
[Estou com o coração incendiado por esse texto]
VAMOS CONTAR A NOSSA HISTÓRIA
Nunca amei homens. Estive submetida a relacionamentos abusivos e violentos por toda a minha vida e fui compulsoriamente socializada pra acreditar que submissão, objetificação, hipersexualização, paternalização, infantilização, dependência emocional, silenciamento, incompreensão, angústia e sofrimento eram amor.
E fui mantida violentamente nessa crença pra que pudesse ser apartada radicalmente da óbvia [e talvez aterrorizante para uma pequena menina] constatação que devo ter tido através da experiência afetiva mais fundamental da minha existência: aos 12 anos, meu primeiro amor e a primeira vez que erotizei um corpo, ela era uma menina - e que algumas outras depois dela se seguiram.
É ao mesmo tempo doloroso e feliz compreender que tive meus afetos, minha existência, minha vida, sequestradas por homens, e por tanto tempo; é doloroso carregar esse lapso de existência em mim e só agora poder me reencontrar com a menina que fui aos 12 anos. Mas estou feliz - há mulheres que nunca irão conseguir, e eu lamento imensamente por elas.
Vivi a violência da heterossexualidade compulsória por 25 anos, mas acabou. Sou livre. <3
E vou contar a minha história, a história das mulheres lésbicas, a história que roubaram de mim e a história que, milenarmente, os homens tentam violentamente aniquilar. Vou contar a história da minha socialização, do meu apagamento, da heterossexualidade compulsória, dos estupros corretivos, das violências de adequação e correção, do medo, da rejeição e de toda violência lesbofóbica que o patriarcado impôs sobre mim pra me matar, pra matar o que sou.
Meu silêncio chegou ao fim. E a minha vida tá começando agora.
E fui mantida violentamente nessa crença pra que pudesse ser apartada radicalmente da óbvia [e talvez aterrorizante para uma pequena menina] constatação que devo ter tido através da experiência afetiva mais fundamental da minha existência: aos 12 anos, meu primeiro amor e a primeira vez que erotizei um corpo, ela era uma menina - e que algumas outras depois dela se seguiram.
É ao mesmo tempo doloroso e feliz compreender que tive meus afetos, minha existência, minha vida, sequestradas por homens, e por tanto tempo; é doloroso carregar esse lapso de existência em mim e só agora poder me reencontrar com a menina que fui aos 12 anos. Mas estou feliz - há mulheres que nunca irão conseguir, e eu lamento imensamente por elas.
Vivi a violência da heterossexualidade compulsória por 25 anos, mas acabou. Sou livre. <3
E vou contar a minha história, a história das mulheres lésbicas, a história que roubaram de mim e a história que, milenarmente, os homens tentam violentamente aniquilar. Vou contar a história da minha socialização, do meu apagamento, da heterossexualidade compulsória, dos estupros corretivos, das violências de adequação e correção, do medo, da rejeição e de toda violência lesbofóbica que o patriarcado impôs sobre mim pra me matar, pra matar o que sou.
Meu silêncio chegou ao fim. E a minha vida tá começando agora.
SOBRE HETEROSSEXUALIDADE E CONFORMAÇÃO DOS AFETOS DAS MULHERES
Não é biológico o que impede mulheres de amarem e desejarem outras mulheres, é social.
O que faz mulheres não serem capazes sentirem desejo por outras mulheres? O que faz com que, mesmo algumas mulheres das mais feministas, que afirmam ter compreendido a heterossexualidade compulsória, a violência dos homens e a desigualdade e a opressão dos relacionamentos heterossexuais e que afirmam com veemência amar e admirar imensamente outras mulheres e desprezar os homens sejam capazes de, na realidade, desprezar afetivamente e eroticamente aquelas que dizem amar e admirar e amar e admirar afetiva e eroticamente aqueles que dizem desprezar? O que faz com que mulheres que dizem amar e admirar suas semelhantes não consigam sequer considerar se apaixonar por elas e desejá-las?
Pra mim isso tem uma explicação: ainda é a repulsa, o desprezo ou o nojo pelo sexo feminino que forja, orienta e conduz a instituição e a manifestação dos afetos e do desejo dessas mulheres. E a explicação pra isso é só uma: isso se chama misoginia e lesbofobia.
Misoginia e lesbofobia vigorosamente internalizadas na estruturação dos afetos das mulheres.
Um dos pilares mais fundamentais da heterossexualidade compulsória é a socialização das mulheres pro falocentrismo e pra misoginia e pra lesbofobia. A socialização pro falocentrismo e pra misoginia e pra lesbofobia são complementares, operam de maneira interligada e conformam os afetos e a sexualidade das mulheres de forma limitadora e violenta: no mesmo processo em que são socializadas pra adorar falos e sujeitos falocentrados - apresentados, já desde a figura paterna e até mesmo a divina - para as mulheres como fortes, vigorosos, superiores, necessários, erotizáveis, desejáveis, as mulheres são socializadas pra odiarem e desprezarem o sexo feminino, primeiramente o próprio e, como imbricamento inevitável, o de todas as outras fêmeas humanas. Essa relação complementar entre a socialização para a misoginia e para o falocentrismo leva mulheres a internalizarem, na construção de suas sujeitas, o processo violento de heterossexualização de seus afetos e personalidades: a autocompreensão naturalizada de nós mesmas como aquilo que o nosso sexo - instituído e nos apresentado como falta, como a fraqueza, como ausência - é; ou seja, o sexo feminino não é outra coisa senão aquilo mesmo que nós somos, o que nos constitui como mulheres - a falta, a ausência - e do que apenas o sexo masculino pode nos redimir. Portanto, na construção heterossexual patriarcal, não há outra forma de mulheres obterem a positividade e a completude atribuída ao sexo masculino senão através do reconhecimento do sexo masculino sobre nós e sobre nossa condição. Assim, o desejo e a erotização do sexo masculino é, em primeira instância, a busca pelo reconhecimento de nossa humanidade. Assim, o desejo e a erotização do sexo masculino pelo sexo feminino se constrói a partir dessa falta que nos é imposta como nossa condição natural e do que representa a erotização do masculino pra gente: a completude humana que nos é negada.
(Não é o que nos confirmam todos os discursos de amor romântico heterossexual sobre mulheres procurando príncipes, tampas de panelas, metades de laranjas e tals?)
Dessa forma, a partir dessa socialização, a lesbofobia se torna também uma concretização inevitável, pois ela é introjetada a partir da socialização misógina que nos ensina a odiar e desprezar nosso sexo e tudo que diz respeito a ele, nos tornando, então, incapazes de conceber o sexo feminino como erotizável, porque tudo que aprendemos sobre ele é que ele é inferior, nojento, desprezível, repulsivo, indesejável - a não seja tornado objeto do desejo do sujeito masculino que é quando o sexo feminino encontraria, então, a sua plena realização e o sentido primeiro de sua existência. Ou seja: a erotização do sexo feminino, além de desprezível e indesejada, deve ser também negativada, visto que o sexo masculino - através de sua completude e supremacia - é o único capaz de redimir as mulheres de sua condição de falta - é isso que introjetamos quando recebemos a socialização pro falocentrismo e pra misoginia.
É fato que a heterossexualidade compulsória se manifesta por uma variedade imensa de fenômenos, rituais e comportamentos impostos às mulheres (a rivalidade feminina e os próprios rituais de feminilização de mulheres são parte da manutenção do regime heterossexual), e que romper com essas situações é importante no processo de ruptura com a heterossexualidade compulsória. No entanto, eu continuo acreditando que romper com a heterossexualidade compulsória no seu sentido mais profundo é, fundamentalmente, ser capaz de ressignificar seus afetos de tal forma a superar essa misoginia e essa lesbofobia introjetada nas mulheres e por nós naturalizada sob a forma de "orientação sexual" e sermos capazes de - verdadeiramente e não apenas em discurso - amar e admirar mulheres, o nosso corpo, o nosso sexo, as nossas existências maravilhosas a tal ponto que seja natural e irresistível se apaixonar e desejar sexualmente mulheres, ou seja, erotizá-las.
Vou expor aqui uma ponderação sobre minha vivência pessoal que desembocou na reflexão acima: sabe o que, por anos, e mesmo quando eu já era feminista, me impediu de amar mulheres e desejá-las plenamente? Não foi outra coisa senão falocentrismo, misoginia e lesbofobia internalizadas. Quando eu identifiquei - num esforço deliberado, esmiuçante, perturbador e muitas vezes doloroso (e eu escolhi não parar e nem "deixar pra lá" quando doía) de reflexões, autorreflexões e autocríticas profundos - o falocentrismo, a misoginia e a lesbofobia que me atravessavam fortemente na minha constituição de sujeita, eu pude buscar os caminhos e as compreensões necessárias pra me perceber capaz de amar, admirar e celebrar a mim mesma e a meu sexo, de forma plena e sem a necessidade do reconhecimento masculino, e isso me levou, inevitavelmente, a compreender a minha capacidade de amar, admirar, celebrar e desejar o sexo feminino, as mulheres, nossos corpos, o nosso sexo, a nossa anatomia, a nossa intimidade, a nossa companhia. Não existe nada mais feminista, mais revolucionário, mais transformador e mais delicioso do que dividir a intimidade com outra mulher. É muito revolucionário. <3
O que faz mulheres não serem capazes sentirem desejo por outras mulheres? O que faz com que, mesmo algumas mulheres das mais feministas, que afirmam ter compreendido a heterossexualidade compulsória, a violência dos homens e a desigualdade e a opressão dos relacionamentos heterossexuais e que afirmam com veemência amar e admirar imensamente outras mulheres e desprezar os homens sejam capazes de, na realidade, desprezar afetivamente e eroticamente aquelas que dizem amar e admirar e amar e admirar afetiva e eroticamente aqueles que dizem desprezar? O que faz com que mulheres que dizem amar e admirar suas semelhantes não consigam sequer considerar se apaixonar por elas e desejá-las?
Pra mim isso tem uma explicação: ainda é a repulsa, o desprezo ou o nojo pelo sexo feminino que forja, orienta e conduz a instituição e a manifestação dos afetos e do desejo dessas mulheres. E a explicação pra isso é só uma: isso se chama misoginia e lesbofobia.
Misoginia e lesbofobia vigorosamente internalizadas na estruturação dos afetos das mulheres.
Um dos pilares mais fundamentais da heterossexualidade compulsória é a socialização das mulheres pro falocentrismo e pra misoginia e pra lesbofobia. A socialização pro falocentrismo e pra misoginia e pra lesbofobia são complementares, operam de maneira interligada e conformam os afetos e a sexualidade das mulheres de forma limitadora e violenta: no mesmo processo em que são socializadas pra adorar falos e sujeitos falocentrados - apresentados, já desde a figura paterna e até mesmo a divina - para as mulheres como fortes, vigorosos, superiores, necessários, erotizáveis, desejáveis, as mulheres são socializadas pra odiarem e desprezarem o sexo feminino, primeiramente o próprio e, como imbricamento inevitável, o de todas as outras fêmeas humanas. Essa relação complementar entre a socialização para a misoginia e para o falocentrismo leva mulheres a internalizarem, na construção de suas sujeitas, o processo violento de heterossexualização de seus afetos e personalidades: a autocompreensão naturalizada de nós mesmas como aquilo que o nosso sexo - instituído e nos apresentado como falta, como a fraqueza, como ausência - é; ou seja, o sexo feminino não é outra coisa senão aquilo mesmo que nós somos, o que nos constitui como mulheres - a falta, a ausência - e do que apenas o sexo masculino pode nos redimir. Portanto, na construção heterossexual patriarcal, não há outra forma de mulheres obterem a positividade e a completude atribuída ao sexo masculino senão através do reconhecimento do sexo masculino sobre nós e sobre nossa condição. Assim, o desejo e a erotização do sexo masculino é, em primeira instância, a busca pelo reconhecimento de nossa humanidade. Assim, o desejo e a erotização do sexo masculino pelo sexo feminino se constrói a partir dessa falta que nos é imposta como nossa condição natural e do que representa a erotização do masculino pra gente: a completude humana que nos é negada.
(Não é o que nos confirmam todos os discursos de amor romântico heterossexual sobre mulheres procurando príncipes, tampas de panelas, metades de laranjas e tals?)
Dessa forma, a partir dessa socialização, a lesbofobia se torna também uma concretização inevitável, pois ela é introjetada a partir da socialização misógina que nos ensina a odiar e desprezar nosso sexo e tudo que diz respeito a ele, nos tornando, então, incapazes de conceber o sexo feminino como erotizável, porque tudo que aprendemos sobre ele é que ele é inferior, nojento, desprezível, repulsivo, indesejável - a não seja tornado objeto do desejo do sujeito masculino que é quando o sexo feminino encontraria, então, a sua plena realização e o sentido primeiro de sua existência. Ou seja: a erotização do sexo feminino, além de desprezível e indesejada, deve ser também negativada, visto que o sexo masculino - através de sua completude e supremacia - é o único capaz de redimir as mulheres de sua condição de falta - é isso que introjetamos quando recebemos a socialização pro falocentrismo e pra misoginia.
É fato que a heterossexualidade compulsória se manifesta por uma variedade imensa de fenômenos, rituais e comportamentos impostos às mulheres (a rivalidade feminina e os próprios rituais de feminilização de mulheres são parte da manutenção do regime heterossexual), e que romper com essas situações é importante no processo de ruptura com a heterossexualidade compulsória. No entanto, eu continuo acreditando que romper com a heterossexualidade compulsória no seu sentido mais profundo é, fundamentalmente, ser capaz de ressignificar seus afetos de tal forma a superar essa misoginia e essa lesbofobia introjetada nas mulheres e por nós naturalizada sob a forma de "orientação sexual" e sermos capazes de - verdadeiramente e não apenas em discurso - amar e admirar mulheres, o nosso corpo, o nosso sexo, as nossas existências maravilhosas a tal ponto que seja natural e irresistível se apaixonar e desejar sexualmente mulheres, ou seja, erotizá-las.
Vou expor aqui uma ponderação sobre minha vivência pessoal que desembocou na reflexão acima: sabe o que, por anos, e mesmo quando eu já era feminista, me impediu de amar mulheres e desejá-las plenamente? Não foi outra coisa senão falocentrismo, misoginia e lesbofobia internalizadas. Quando eu identifiquei - num esforço deliberado, esmiuçante, perturbador e muitas vezes doloroso (e eu escolhi não parar e nem "deixar pra lá" quando doía) de reflexões, autorreflexões e autocríticas profundos - o falocentrismo, a misoginia e a lesbofobia que me atravessavam fortemente na minha constituição de sujeita, eu pude buscar os caminhos e as compreensões necessárias pra me perceber capaz de amar, admirar e celebrar a mim mesma e a meu sexo, de forma plena e sem a necessidade do reconhecimento masculino, e isso me levou, inevitavelmente, a compreender a minha capacidade de amar, admirar, celebrar e desejar o sexo feminino, as mulheres, nossos corpos, o nosso sexo, a nossa anatomia, a nossa intimidade, a nossa companhia. Não existe nada mais feminista, mais revolucionário, mais transformador e mais delicioso do que dividir a intimidade com outra mulher. É muito revolucionário. <3
MEMÓRIAS DE ABUSOS INFANTIS E HETEROSSEXUALIDADE
Eu passei a vida toda achando que era normal sentir vontade de morrer, de se matar, viver com uma angústia dolorosa e um sentimento enorme de inadequação, incompreensão, constrangimento e desconforto dentro da gente desque a gente se entende por gente, mas não é né?
Antes eu achava que era porque eu era adolescente (e em todo lugar se diz que adolescentes são estranhos e incompreensíveis rebeldes e revoltados mesmos - isso é uma balela, feita pra silenciar abusos e violências cometidas pelos homens da família), depois eu achei que era assim mesmo porque era assim mesmo (porque a vida de adulto é uma merda mesmo, com trabalho, cansaço e contas pra pagar); mas agora eu entendo todos esses sentimentos e todo o processo de boicote e autodestruição que empreendi contra mim mesma, contra meu corpo, contra minha vida - que tem a ver com transtornos alimentares, consumo de drogas, abuso de álcool, estar em situações de risco e sexo arriscado, em relacionamentos abusivos, não conseguir concluir quase nenhum de meus projetos, ter uma vida profissional de merda e mais um monte de coisas - não são normais, são frutos de uma autoestima, de um emocional e uma sexualidade destruídas por um abuso sexual infantil que eu fui obrigada a silenciar e me fazer crer que tinha superado. São frutos de uma autoestima, um emocional e uma sexualidade destruídas de diversas formas e impelida à heterossexualidade [compulsória] pra conseguir aceitação e o afeto das pessoas porque quando eu ainda era uma criança me fizeram entender que se eu quisesse ser amada eu precisava ser sexualizada e ter o meu corpo disponível aos homens. Eu ainda era uma criança e eu fui ensinada a isso e, então, eu me sexualizava o tempo inteiro e oferecia meu sexo aos homens, exatamente como fui ensinada quando ainda era uma criança. E ninguém nunca me disse que isso não era verdade, que isso não era certo, que isso era abuso, mais abuso, abuso seguido de abuso. Ao contrário, eu sempre tive esses estímulos todos reforçados e sempre fiz muito sucesso. E isso é o que me doía mais, porque eu nunca gostei de homens, do sexo deles.
Ainda não é fácil pra mim. Mas pela primeira vez na minha vida desde muito tempo eu não me sinto impelida a servir sexualmente a homens e nem sinto vontade de estar o tempo todo bêbada ou drogada. Há tempos não me coloco em situações de risco e cada vez mais venho me relacionando com meu corpo e com a minha saúde com carinho e cuidado. Também estou me reconciliando com a minha sexualidade.
Hoje eu entendo que podia estar morta. Que, na verdade, era pra eu estar morta. Hoje eu entendo o que é ser uma sobrevivente.
Eu sou uma sobrevivente de abusos sexuais infantis. Eu vivo e esta é minha maior resistência contra o patriarcado. Eu ainda estou viva e pretendo permanecer.
Entender tudo isso é um recomeço. Minha vida tá começando agora, porque agora eu compreendo o sentido mais profundo de amor-próprio na vida de uma mulher sobrevivente.
Eu recomeço.
O TEATRO DA HETEROSSEXUALIDADE
O mundo heterossexual é um teatro, uma farsa gigante. Todos desempenhando um papel. Às mulheres cabe o da feminilidade heterossexual, é um teatro de gestos e trejeitos forçados, e de sentimentos impostos pela violência da submissão. As mulheres desempenham o papel pra serem aceitas e amadas, me reconheço nelas e sinto uma compaixão imensa. Aod homens cabe o do macho, bem ridículo quando a gente começa a entender que a construção do sujeito masculino é, na verdade, fundada na homoafetividade da broderagem masculina. Eles representam o papel pra dominar, subjugar e explorar, não abrem mão disso. O mundo hetero é muito bizarro. É muito curioso observar.
NOTINHA SENTIMENTAL
Vejo mulheres apaixonadinhas pelas outras em vários lugares que estou, vejo que elas não se dão conta disso, porque nunca lhes foi ensinado que se apaixonar por mulheres é normal, porque lhes foi imposto que a paixão só pode acontecer com um homem. Aí elas aprendem a chamar o sentimento de amizade. E aprendem que paixão e amor é, na verdade, aquela opressão, posse e subserviência que elas sentem pelos homens.
O AMOR HETEROSSEXUAL É UM ERRO
É um erro muito grande chamar um relacionamento romântico entre um homem e uma mulher de amor, o nome certo é PODER. É um erro e um perigo, porque repetida tantas vezes, e principalmente pela voz daquele que domina o poder, sobretudo o poder dos discursos e das narrativas sobre a verdade, acaba-se convencendo que sim, que é amor o é aquilo que se chama de amor, no caso, o poder. Mas amor deve ser outra coisa, amor tem que ser outra coisa, a coisa que mulheres heterossexuais talvez nem tenham experimentado ainda, um sentimento que, provavelmente, nós ainda precisamos aprender a construir (e estou me incluindo porque é muito recente ainda a minha ruptura com a heterossexualidade a que fui submetida durante toda minha vida, mesmo). O que sei é que nenhuma relação fundada na desigualdade pode produzir amor. Poder e romanização da submissão são os nomes dos sentimentos produzidos por relações fundadas na desigualdade. Não tem outro nome. Não romantizem nossa submissão reafirmando que o que nós sentimos por aqueles que nos oprimem (sim, TODO homem te oprime, inclusive seu namorado/marido) é amor, porque não pode ser. O amor tem que ser outra coisa.
NOTINHA SENTIMENTAL
Frequentemente me bate uma tristeza e uma vontade incontrolável de chorar, assim meio do nada, vendo TV, almoçando, tomando um banho...
Aí comecei a observar que isso sempre acontece em dias que eu estou muito envolta em pensamentos sobre os abusos sexuais que sofri na infância ou sobre todo tempo da minha vida que perdi em relacionamentos heterossexuais.
São marcas que vão me acompanhar pra sempre. E as vezes eu não sei o que fazer com elas, porque eu não queria carregá-las.
Aí comecei a observar que isso sempre acontece em dias que eu estou muito envolta em pensamentos sobre os abusos sexuais que sofri na infância ou sobre todo tempo da minha vida que perdi em relacionamentos heterossexuais.
São marcas que vão me acompanhar pra sempre. E as vezes eu não sei o que fazer com elas, porque eu não queria carregá-las.
SOCIALIZAÇÃO FEMININA E HETEROSSEXUALIDADE SÃO UM MESMO PROCESSO
Sabe uma coisa que eu gosto, que eu sempre gostei? De ser sozinha. De morar sozinha, de sair sozinha, de dormir sozinha, de ser vista sozinha, de ser reconhecida como uma mulher sozinha. Eu não sei precisar quando eu comecei a gostar disso, quando eu comecei a sentir um prazer solitário e autoestimoso em ser sozinha e ser reconhecida como uma mulher sozinha, mas me lembro que desde uns 12 anos eu já dizia que não queria casar, que queria morar sozinha, e lembro que quando saí da casa dos pais pra dividir casa com outras pessoas eu adorava ir pra shows e bares sozinha. Sabe todos os momentos em que tive muito medo de estar só? Em que pensar em ser sozinha me causava temor em vez de prazer e alegria? Todas as vezes em que estive em relacionamentos românticos com homens. Em que eles reforçavam a destruição da minha autoestima, manipulavam minhas emoções e sentimentos com os signos patriarcais que já estão marcados na minha constituição, e contra os quais eu luto constantemente, lra me fazer sentir medo e temor daquilo que sou, da mulher que sou, quando me convenciam que pra ser algo próximo um ser humano eu devia me sentir enlevada, apaixonada, por ser uma mulher heterossexual, pela condição heterossexual de ser mulher de um homem.
Agora eu estou aqui refletindo sobre o quanto gostar de estar sozinha era uma forma de rejeitar a heterossexualidade e o quanto estar em relacionamentos com homens era uma forma violenta de reprimir isso. Ou seja, era uma forma de reprimir o que sou, reprimir minha própria lesbianidade. Compreendo cada vez mais o que me levava a estar nesses relacionamentos
A introjeção dos papéis sexuais e dos códigos da socialização são tão fortes que a gente mesmo se reprime, ae boicota, se violenta pra caber neles. Homens sabem exatamente como manipular isso. Todo ome sabe, todo ome faz, e na maioria das vezes a gente nem percebe. Os piores momentos da minha vida, de retrocesso, de estagnação, emocional, financeira, profissional, tudo, sempre foram os que estive em relacionamentos com homens, os maiores avanço e conquistas, emocionais e materiais, sempre de deram quando eu estava sozinha, quando eu me sentia firme em minha autonomia. Relacionamentos heteros são extremamente destrutivos, aniquilantes.
Autorreflexão feminista cura mais que qualquer discurso psicoanalitico patriarcal
Agora eu estou aqui refletindo sobre o quanto gostar de estar sozinha era uma forma de rejeitar a heterossexualidade e o quanto estar em relacionamentos com homens era uma forma violenta de reprimir isso. Ou seja, era uma forma de reprimir o que sou, reprimir minha própria lesbianidade. Compreendo cada vez mais o que me levava a estar nesses relacionamentos
A introjeção dos papéis sexuais e dos códigos da socialização são tão fortes que a gente mesmo se reprime, ae boicota, se violenta pra caber neles. Homens sabem exatamente como manipular isso. Todo ome sabe, todo ome faz, e na maioria das vezes a gente nem percebe. Os piores momentos da minha vida, de retrocesso, de estagnação, emocional, financeira, profissional, tudo, sempre foram os que estive em relacionamentos com homens, os maiores avanço e conquistas, emocionais e materiais, sempre de deram quando eu estava sozinha, quando eu me sentia firme em minha autonomia. Relacionamentos heteros são extremamente destrutivos, aniquilantes.
Autorreflexão feminista cura mais que qualquer discurso psicoanalitico patriarcal
O PATRIARCADO É UM SISTEMA EPISTEMOLÓGICO QUE NOS INDUZ A SEUS PRÓPRIOS SIGNIFICADOS
Heterossexualidade compulsória é você passar a vida inteira sem saber sequer significar e nomear o seu desejo pelo corpo feminino e significá-lo confusamente a partir de referenciais misóginos e lesbofóbicos que o patriarcado te oferece e que você internaliza:
Inveja
Curiosidade
Admiração
A vida inteira meu desejo irresistível por olhar e sentir os corpos das mulheres recebeu de mim esses nomes porque eu sequer cogitava a possibilidade de que desejo pudesse ser o que eu sentia. Isso é a socialização misógina e lesbofóbica que introjetam na gente, isso é a heterossexualidade compulsória.
Fico feliz e orgulhosa que tenha acabado pra mim. Mas quantas de nós irão morrer sem saber nomear e reconhecer seus próprios sentimentos? Eu levei 25 anos. VINTE E CINCO MALDITOS ANOS. Quantas não irão nunca conseguir?
Heterossexualidade compulsória não é um conceito em livros de feministas estrangeiras, é uma realidade perversa e violenta pra milhões de mulheres heterossexuais.
Inveja
Curiosidade
Admiração
A vida inteira meu desejo irresistível por olhar e sentir os corpos das mulheres recebeu de mim esses nomes porque eu sequer cogitava a possibilidade de que desejo pudesse ser o que eu sentia. Isso é a socialização misógina e lesbofóbica que introjetam na gente, isso é a heterossexualidade compulsória.
Fico feliz e orgulhosa que tenha acabado pra mim. Mas quantas de nós irão morrer sem saber nomear e reconhecer seus próprios sentimentos? Eu levei 25 anos. VINTE E CINCO MALDITOS ANOS. Quantas não irão nunca conseguir?
Heterossexualidade compulsória não é um conceito em livros de feministas estrangeiras, é uma realidade perversa e violenta pra milhões de mulheres heterossexuais.
EU, ANA PAULA, E SAFO, E PANDORA.
Hoje eu acordei com uma angústia danada, daquelas que permanecem o dia inteiro doendo e apertando o peito, como uma crise de ansiedade anunciada, que a gente vai contendo pra não explodir dentro da gente - que a gente vai segurando pra poder viver a vida, fazer as coisas, seguir em frente.
Acordei com lembranças (é possível que eu tenha sonhado e não lembre) de um episódio da minha adolescência, quando, lá por volta dos meus 16 anos, saí pruma baladinha com umas amigas da mesma idade. Morávamos todas no mesmo bairro, no subúrbio do Rio, num daqueles bairros pequenos, em todo mundo conhece todo mundo. Lá encontramos uns rapazes, amigos da gente, e que também estavam com seus amigos. Um dos amigos dos amigos se interessou por mim, eu não senti nenhum interesse por ele, mas diante do apelo das amigas (ele é bonito, ele faz faculdade, ele trabalha, tem dinheiro, tem carro - e todos esses símbolos de poder que somos ensinadas a valorizar em homens) e do gesto costumeiro de invalidar minha própria vontade e me obrigar a sair com homens que se interessavam por mim, mais uma vez eu não consegui dizer não, e, constrangida, desconfortável, com um sentimento que eu ainda não sabia nomear, eu fiquei com o cara. Eu simplesmente não consegui dizer não ao homem - e esse é um sentimento que só as mulheres conhecem.
Ficamos e ele sugeriu a todos que terminássemos a noite na casa dele - os pais dele estavam viajando, a casa era grande, tinha espaço e bebidas. Mais uma vez, fui convencida, eu não queria ir (no fundo, eu sabia o que isso significava), mas fui convencida, por ele e por todos, inclusive pelas minhas amigas, que estavam empolgadíssimas ficando com outros rapazes do grupo. Mais uma vez, não consegui dizer não, dizer "Não, eu não quero".
Ele morava numa casa enorme, num lugar bem ermo no bairro, ao fim de uma rua sem saída e deserta, uma casa isolada em cima de uma pedra. Meu estômago revirava, sentia um aperto no peito (como esse, com que acordei agora), uma sensação ruim, que eu mesmo não entendia e não era capaz de dar significado - afinal, eu devia estar feliz e empolgada, estava saindo com um dos caras mais bonitos, mais bem sucedidos e mais cobiçados pelas meninas do bairro, e ele me quis (não é assim que a gente, a vida toda, é ensinada?) Mas eu não estava, me sentia estranha, constrangida e desanimada.
Na casa dele, todos bebemos e conversamos, ouvimos música e, aos poucos, as outras pessoas começavam a ir embora. Minhas amigas todas tinham conseguido um par, e também foram saindo. Eu tentei ir embora com uma delas, mas, mais uma vez, não consegui obedecer minha vontade: diante da insistência da amiga (Como eu poderia ser louca de não querer ficar com aquele cara?) e do próprio cara ("Calma, fica comigo, eu não vou fazer nada que você não queira."- repetidas vezes), eu fiquei, mesmo constrangida, sem vontade, com o estômago retorcendo e com aquela angústia no peito. Eu tentava não pensar, não entender o que era aquilo que acontecia comigo: Por que eu não ia querer ficar com um cara bonito, bacana, educado, bem sucedido e com dinheiro? Por que eu não queria? Por quê? Todas as minas da minha idade queriam, por que eu não ia querer? Mas eu simplesmente atropelava meus sentimentos, sufocava eles, esses mesmos que eu não conseguia nomear, e não conseguia dizer não, e sempre cedia às investidas dos caras.

Todo mundo foi embora e eu fiquei. Deitamos numa rede na varanda, conversando e bebendo, e o cara foi ficando mais à vontade, é claro. Nessa hora, além do constrangimento e do desconforto, do estômago revirado, da angústia, eu também senti MEDO. Eu estava sozinha na casa de um homem que mal conhecia e ele já estava em cima de mim, tentando tirar minha roupa.
Com muito jeito, de maneira delicada e educada, pra não aborrecê-lo e nem desagradá-lo (como somos bem ensinadas a agir com homens, sobretudo quando se diz respeito a contrariar a vontade deles), eu consegui dizer a ele que queria ir pra casa. É claro que ele não me acatou, dizia pra eu ficar calma, insistia que não ia fazer nada que eu não quisesse, e que a gente ia ficar ali só conversando e namorando um pouco, me dizia como eu era linda, maravilhosa e como eu tinha o pode de excitá-lo e como ele estava feliz em estar ali comigo - estratégia comum aos homens, que sabem muito bem manipular os signos que o patriarcado desenha para nós, mulheres, pra nos coagir a ceder a vontade deles como se essa fosse, na verdade, a nossa própria vontade, ou como se nós tivéssemos sobre eles algum poder que deve ser celebrado e valorizado.
Por fim, constrangida, com angústia e medo, depois de insistir muitas vezes, mas ainda sem perder a doçura e a gentileza, por conta do temor de desagradá-lo, eu consegui convencê-lo a me levar em casa. Muito a contragosto, já completamente mudado, de cara fechada e resmungando, ele me deixou na porta de casa.
Dessa vez eu havia escapado. Senti um alívio imenso. Mas a angústia e o constrangimento permaneceram no peito, do mesmo jeito que eu tô sentindo agora, como uma grande explosão querendo fugir de uma caixa fechada, que eu trancava com força e não permitia que saísse, que eu ainda não permito que exploda.
Dessa vez eu havia escapado.
Mas me lembrei, também, das outras várias vezes em que vivi situações como essa, das dezenas de outras vezes que eu não consegui, que eu, simplesmente, por uma força que eu não sabia explicar, eu não consegui dizer não. Que lá, na hora "H", numa outra casa, num motel, ou dentro de um carro, com um outro cara, em outras várias ocasiões, eu não consegui, eu simplesmente não consegui dizer não. E apertei com força a tampa da caixa do meu peito, tranquei bem trancada a angústia, o desconforto, o constrangimento e o medo, e cedi, sem nenhuma vontade, ao sexo com os caras.
Hoje eu sei que fui estuprada. Que diversas vezes na minha vida fui estuprada. E hoje eu sei nomear esse sentimento, que eu trancava dentro, bem forte, e sobre o qual eu não queria pensar, porque eu queria ser como as outras, eu só queria ser aceita e feliz como as outras meninas, queria ser legal e normal, queria ser amada como elas. Ou como eu achava que elas eram.
Hoje eu sei nomear esse sentimento, mas, por muito tempo, não me permitiram saber do que ele se tratava. Eu sei nomear esse sentimento e a sua causa: chama-se HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA.
Eu abri a caixa. Deixei explodir meus medos. Estou juntando cada sentimento e aprendendo o nome deles. E quando eu abri meu peito, e nomei meus sentimentos, eu aprendi a nomear também quem eu sou. <3
SOCIALIZAÇÃO E DEPRESSÃO FEMININA
Vejo o sofrimento das mulheres, suas dores, suas tormentas emocionais e identifico, sem muitas dificuldades, as causas e fundamentos: heterossexualidade compulsória, maternidade compulsória, abusos masculinos, desumanização e objetificação, limitação forçada de suas capacidades e potencialidades e muito silenciamento, anos e anos de silenciamento e frustração.
NENHUMA terapia/psicologia/análise é capaz de sarar isso.
Isso NÃO é um problema individual, é um problema social, cultural, coletivo. Nenhuma psicologia fundada no indivíduo, fundada na vontade individual como valor supremo, vai sarar isso.
Psicologia/psicanálise se trata apenas de discurso andro/falocentrado para a domesticação das mulheres, para que aceitemos com mais resignação os abusos, as dores e os sofrimentos que nos são impostos pelos homens, para que introjetemos que o sofrimento que sentimos e a superação deles é responsabilidade individual nossa e ignoremos e aceitemos a naturalização da violência social que sofremos ao nascer e por toda nossa vida para sermos transformadas em "mulheres".
NENHUMA TEORIA PSICOLÓGICA VAI TE DIZER ISSO. NENHUMA PSICANÁLISE VAI TE LEVAR A COMPREENDER ISSO.
É a autorreflexão, a conexão entre mulheres e a autoaceitação que irão nos curar e aliviar nossas dores. Precisamos conversar sobre nós, sobre nossos desejos, sobre nossas sexualidades, sobre o que está entalado em nossas gargantas e corações.
NENHUMA terapia/psicologia/análise é capaz de sarar isso.
Isso NÃO é um problema individual, é um problema social, cultural, coletivo. Nenhuma psicologia fundada no indivíduo, fundada na vontade individual como valor supremo, vai sarar isso.
Psicologia/psicanálise se trata apenas de discurso andro/falocentrado para a domesticação das mulheres, para que aceitemos com mais resignação os abusos, as dores e os sofrimentos que nos são impostos pelos homens, para que introjetemos que o sofrimento que sentimos e a superação deles é responsabilidade individual nossa e ignoremos e aceitemos a naturalização da violência social que sofremos ao nascer e por toda nossa vida para sermos transformadas em "mulheres".
NENHUMA TEORIA PSICOLÓGICA VAI TE DIZER ISSO. NENHUMA PSICANÁLISE VAI TE LEVAR A COMPREENDER ISSO.
É a autorreflexão, a conexão entre mulheres e a autoaceitação que irão nos curar e aliviar nossas dores. Precisamos conversar sobre nós, sobre nossos desejos, sobre nossas sexualidades, sobre o que está entalado em nossas gargantas e corações.
COMO O ÁLCOOL SERVE À SOCIALIZAÇÃO DE MENINAS PARA A HETEROSSEXUALIDADE
[Se cuidem e cuidem umas das outras, meninas! O patriarcado não bobeia, e o cuidado e o autocuidado também são feminismo! ♥]
Me lembro que com 14/15 anos já consumia bebida alcoólicas, já tomava porres em festinhas e reuniões de amigos nas casas das pessoas.
Sempre fiz muito sucesso com os homens, que me diziam que eu era diferente das outras meninas, que era mais madura, mais inteligente e que por isso eles me admiravam tanto.
Eles sempre bebiam comigo, me ofereciam álcool e faziam questão de dizer o quão sexy e especial eu era e o quanto eu ficava ainda mais sexy e especial quando bebia. Não raro, ouvia "Você bebe como um homem!", e ficava extremamente envaidecida com isso - Nossa, eu realmente era diferente! Até merecia ser comparada com um deles! E meus sentimentos se enchiam de ímpeto e motivação pra agradá-los, pra continuar me esforçando pra agradá-los, pra ouvir mais vezes que eu merecia a admiração e o reconhecimento deles!
Eu me sentia muito especial mesmo. E quanto mais eles me faziam sentir especial, mas eu me esforçava pra ser especial pra eles.
Eu me sentia especial porque uma das primeiras coisas que eu aprendi na vida (pela TV, pelo discurso dos homens, pela reprodução desse discurso por outras mulheres, na escola, na literatura, no cinema) é que o maior poder de uma mulher está em despertar o desejo de um homem. Então, quanto mais eles me apontavam - com elogios e com seu pseudo reconhecimento - os comportamentos e condutas que eu precisava ter pra ser tão especial pra eles, mais eu me esforçava pra me adequar e reproduzir esses comportamentos e condutas, e, então, quanto mais [pseudo]aprovação deles eu recebia, mais poderosa eu me sentia, e quanto mais poderosa eu me sentia, mais eu reproduzia os comportamentos que os homens me ensinavam. Um ciclo de abusos, de mentiras, de engano, de manipulação, de vulnerabilização de meninas para transformá-las em presas dóceis, em subservientes, em objetos, em MULHERES, e fazê-las crer que nisso reside seu grande poder, que o grande poder de uma mulher está em se deixar objetificar com docilidade e passividade - isso é a socialização feminina.
[Esse ciclo ainda se reproduziu, com muitas outras condutas e comportamentos, sobretudo práticas sexuais, por muito tempo, até que eu conhecesse o feminismo e entendesse como os homens e a sociedade patriarcal nos transformam em objetos, nos transformam em mulheres, através da socialização feminina. Mas acabou. No entanto, as marcas que ele deixou em mim jamais serão apagadas, são marcas de violência, do sequestro e da violação da minha infância, do sequestro e da violação da minha personalidade, da minha psiquê, da minha sexualidade.]
Aos 14 anos eu já bebia todo álcool que o patriarcado me oferecia. Perdi as contas de quantas vezes fiquei bêbada, dormi, apaguei ou, simplesmente, estive com estado de consciência totalmente alterado.
Não saberia dizer quantas vezes posso ter sido estuprada. Eu tinha acabado de largar os brinquedos, há um ano atrás, eu tinha acabado de largar os brinquedos.
E, então, isso é a história da nossa socialização, do sequestro de nossas sexualidades, da cultura do estupro e da pedofilia sendo narrada pela perspectiva das vítimas, e não dos abusadores. E isso incomoda, mas nós não vamos parar. Nós rompemos o silêncio e não vamos parar.
VIOLÊNCIA, SOCIALIZAÇÃO E HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA II
"Eles [homens] não amam mulheres, amam a feminilidade." (I. Manente, jovem feminista classista)
Homens não amam mulheres, porque, simplesmente, não nos consideram seres humanas, não são capazes de nos amar enquanto tal. Eles amam a fantasia erótica, frágil e delicada que é o fetiche da feminilidade que existe na cabeça deles, e transferem essa fantasia prum corpo que lhes atrai fisicamente.
Homens não amam mulheres, teu namorado não te ama, teu marido não te ama, teu casinho não te ama. Duvida? Experimente romper com os fetiches de feminilização que alimentam a idealização dele sobre o que você é enquanto mulher, enquanto objeto da idealização dele, experimente tornar-se humana, mostrar-se humana pra seu companheiro, e veja se seu relacionamento permanecerá.
Homens NÃO amam mulheres.
Nas sociedades patriarcais, apenas mulheres podem realmente amar mulheres, porque nós sim, ao romper os ditames escravizantes da socialização feminina, apenas nós, nesse movimento, somos capazes de reconhecer a humanidade em outras mulheres e amá-las como seres humanas.
Ame mulheres. Seja amada por mulheres.
"Dizer que um homem é heterossexual implica somente que ele mantém relações sexuais exclusivamente com o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens hétero reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram; respeitam; adoram e veneram; honram; quem eles imitam, idolatram e com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam: estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens. Em suas relações com mulheres, o que é visto como respeito é gentileza, generosidade ou paternalismo; o que é visto como honra é a colocação da mulher em uma redoma. Das mulheres eles querem devoção, servitude e sexo. A cultura heterossexual masculina é homoafetiva; ela cultiva o amor pelos homens." (Marilyn Frye)
Homens não amam mulheres, porque, simplesmente, não nos consideram seres humanas, não são capazes de nos amar enquanto tal. Eles amam a fantasia erótica, frágil e delicada que é o fetiche da feminilidade que existe na cabeça deles, e transferem essa fantasia prum corpo que lhes atrai fisicamente.
Homens não amam mulheres, teu namorado não te ama, teu marido não te ama, teu casinho não te ama. Duvida? Experimente romper com os fetiches de feminilização que alimentam a idealização dele sobre o que você é enquanto mulher, enquanto objeto da idealização dele, experimente tornar-se humana, mostrar-se humana pra seu companheiro, e veja se seu relacionamento permanecerá.
Homens NÃO amam mulheres.
Nas sociedades patriarcais, apenas mulheres podem realmente amar mulheres, porque nós sim, ao romper os ditames escravizantes da socialização feminina, apenas nós, nesse movimento, somos capazes de reconhecer a humanidade em outras mulheres e amá-las como seres humanas.
Ame mulheres. Seja amada por mulheres.
"Dizer que um homem é heterossexual implica somente que ele mantém relações sexuais exclusivamente com o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens hétero reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram; respeitam; adoram e veneram; honram; quem eles imitam, idolatram e com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam: estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens. Em suas relações com mulheres, o que é visto como respeito é gentileza, generosidade ou paternalismo; o que é visto como honra é a colocação da mulher em uma redoma. Das mulheres eles querem devoção, servitude e sexo. A cultura heterossexual masculina é homoafetiva; ela cultiva o amor pelos homens." (Marilyn Frye)
LESBIANIDADE E HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA
A heterossexualidade compulsória adoece de tal forma as mulheres que, numa cultura em que homens nos exterminam massivamente há milênios, nós ainda nos relacionamos afetivamente com eles e não cogitamos sequer amarmos umas as outras. Nos dedicamos em afeto a nossos algozes, a nossos dominadores, a nossos exploradores, a nossos assassinos e temos horror, desprezo, ou damos pouca ou nenhuma atenção ao amor por nossas semelhantes.
Doido, não?
Doido, não?
VIOLÊNCIA, SOCIALIZAÇÃO E HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA
Os abusos sexuais que sofri de não lembro qual idade até os 11/12 anos, arruinaram minha personalidade, meu emocional, minha autoestima e minha sexualidade, moldando-as de forma perversa. Por crer qur a culpa foi minha, porque toda sociedade e minha família me fizeram acreditar, eu, criança, queria saber o que fiz de errado pro meu próprio tio me abusar. Eu era suja, imoral, eu destruí minha família, eu sou digna de ódio dos homens. E a minha vida toda eu acreditei que precisava me submeter a eles pra ser aceita, reconhecida. E eu não tenho a conta de quantas vezes fui violentada, humilhada, agredida, estive em situação de risco, tudo pra agradar homem, pra ser aceita por eles. Relacionamentos abusivos, compulsão alimentar, anorexia, bulimia, autoestima destruída, insegurança, deixei de estudar, de investir em mim, fui impelida a me boicotar, fui anulada, submetida, vivi boa parte da minha juventude submetida a homens em relacionamentos abusivos.
Isso nunca foi amor. Isso é revitimização. Isso é cultura do estupro e heterossexualidade compulsória. Isso é a violência que nos vendem como heterossexualidade.
Não é amor, é submissão.
Texto escrito em 22/04/2016.
Isso nunca foi amor. Isso é revitimização. Isso é cultura do estupro e heterossexualidade compulsória. Isso é a violência que nos vendem como heterossexualidade.
Não é amor, é submissão.
É a primeira vez que falo publicamente sobre isso. São marcas doloridas ainda.
Texto escrito em 22/04/2016.
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