segunda-feira, 7 de novembro de 2016

PROSTITUIÇÃO É ESTUPRO

Se você não consegue enxergar o quão desumanizante a prostituição é, que ela é algo tão violento e violante a tal ponto que sua existência devia ser inconcebível e não naturalizada pelo discurso de que prostituição pode ser empoderadora e libertadora; se você não consegue enxergar isso e acha que pode haver algo empoderador ou livre/libertador na prostituição, se você defende que a prostituição poder ser empoderadora ou libertadora das mulheres, você ainda não entendeu que mulheres são humanas, que mulheres são SERES HUMANAS. Você ainda não realizou isso na sua cabeça, na sua cognição, no seu pensamento e na sua linguagem, você acha que mulher é coisa, é objeto, é um troço que existe pra servir a homens, bastando que eles comprem seu consentimento - quando consentimento não pode ser comprado e quando isso acontece o nome disso é ESTUPRO.

E isso é ainda mais desesperador quando você é uma mulher.

As relações entre homens e mulheres nunca serão "normais", porque são fundadas na desigualdade. A prostituição serve de manutenção à hierarquia criada por homens e que estabelece a supremacia do sexo masculino sobre o feminino.


Mulheres são frequentemente apontadas como "interesseiras" ou "aproveitadoras" quando ao reproduzir seu papel social de inferior, dependente, subjugada, em alguns aspectos dessas relações desiguais elas aparentemente tiram delas algum "proveito".

Mas a verdade é que nenhum proveito ou benefício há, para mulher, em relações fundadas na desigualdade. E, portanto, não há nelas nenhuma liberdade ou empoderamento. A prostituição/estupro é o fundamento dessas relações de siguais entre homens e mulheres, e o fundamento da prostituição/estupro reside no fato de que, historicamente, a dominação do sexo masculino sobre o feminino se deu, originalmente, quando os homens expropriaram das mulheres os seus meios de sobrevivência - inclusive seu corpo, seu sexo, sexualidade e capacidades reprodutivas - subjugando o sexo feminino e convertendo fêmeas humanas em mulheres ao convencê-las que, por serem inferiores aos homens, deviam a eles temor e subserviência, pois que, expropriadas de meios de subsistir, encarceradas no espaço doméstico e reduzidas a incubadeiras dos herdeiros do macho, sua subjetividade, autoimagem, autocompreensão sobre si e sobre o que é ser mulher, é forjada na sua própria servidão, inferiorização e dependência em relação ao sexo masculino. 

Junto com o sequestro de seus meios de subsistência, toda humanidade da mulher também é sequestrada pelo sexo masculino, agente e sujeito do processo de limitação, redução e exploração da fêmea humana.


Nesse processo de expropriação, de desumanização, de empobrecimento, o corpo e o sexo feminino são convertidos, pelo homem, em moeda. Isso acontece para que, subjugadas, desumanizadas, empobrecidas, as mulheres temam constantemente o medo do estupro e cedam ao casamento, ao contrato social e promessa que os homens fazem de nos protegerem da violência deles mesmo e de nos prover da pobreza que eles mesmos nos causam. Às mulheres que se recusam ao casamento (lésbicas, rebeldes, insubordinadas), a proteção dos homens é vetada: como mulheres passíveis de terem seus corpos acessados por todos os homens (já que abriram mão de ser propriedade de um único) resta a aceitação do estupro mediante a um simbólico pagamento, ou seja: a aceitação da conversão de seus corpos e sexo à mercantilização negociável entre todos os homens. Isso serve, ao mesmo tempo, como instrumento de controle social das mulheres prostituídas, visto que sua subsistência continua subordinada aos homens, que negam-lhe trabalho, terras e acesso à produção ao mesmo tempo que - não interessando-lhes a morte delas - convertem seu corpo em mercadoria, condicionando a subsistência delas a submissão ao estupro mediante pagamento. O pagamento, que não as deixa morrer de fome, existe para que permaneçam vivas e sirvam de exemplo, em toda sua miséria, servidão sexual e vitimização, a todas as mulheres, para que todas as mulheres não se rebelem contra o casamento, contra converter-se em propriedade de um único homem, pra mostrar a elas que a alternativa a isso é ainda muito pior. 

Esse é o fundamento da prostituição: expropriada e destituída por homens de qualquer forma de sobreviver, recusando o casamento como forma de receber proteção e proveção masculina contra a violência e a miséria que eles mesmos causam as mulheres, seu corpo é convertido por homens em mercadoria para que ela continue no subjugo masculino e ainda sirva de exemplo a outras mulheres.

E como não podia deixar de ser, todo esse processo de origem das relações de prostituição precisa ser apagado, o verdadeiro sentido da prostituição vai sendo apagado pela História escrita pelos homens, pela Arte e pela Literatura produzida pelos homens, pela Filosofia, Sociologia e por Teorias produzidas por homens... durante toda história das sociedades patriarcais, os homens, em suas práticas e discursos, emprenham-se para dar outros significados pra prostituição, para que seu significado mais fundamental e mais verdadeiro seja esquecido, seja apagado. Mas esse significado ressurge, vez ou outra, na história, pelos discursos de mulheres, pelas memórias das mulheres, pelas falas e vivências das mulheres, esse significado ressurge porque é real, porque ele é fruto da violência e da dominância masculina, que os próprios homens não conseguem esconder. Por isso, mesmo com todos discursos falseados sobre a prostituição pra esconder seu verdadeiro caráter, seu sentido mais fundamental, os homens não conseguem esconder seu verdadeiro significado, porque ele reside e nasce e renasce na própria violência masculina, real e iminente em toda sociedade patriarcal: prostituição é a DEGRADAÇÃO das mulheres pelos homens. 

Não se enganem: esse é o verdadeiro sentido da prostituição. Num sistema patriarcal em que mulheres são forjadas como gênero a partir da expropriação de seus meios de subsistência e que, portanto, não são sujeitas de si, se suas histórias, narrativas e direitos, a prostituição é muito menos sobre o "direito" de mulheres venderem seus corpos e muito mais sobre o direito dos homens de comprá-los. E os homens farão de tudo para que não enxerguemos isso, para que a gente não dê conta disso, inclusive tentar nos convencer que o direito que eles estabeleceram sobre nossos corpos seria, na verdade, uma liberdade pra nós.





terça-feira, 25 de outubro de 2016

HETEROSSEXUALIDADE É ESTUPRO

Quando eu tinha por volta de 11/12 anos comecei a ficar com meninos, geralmente mais velhos, de 15/16 anos, porque ouvi desde sempre que meninas amadurecem mais rápido e que ficar com meninos mais velhos era o que havia de mais legal. Quando ficava com eles, me lembro da tortura que era ter que ficar tirando as mãos deles de partes do meu corpo que eu não queria que fossem tocadas, mas me lembro que não adiantava, eles insistiam, quanto mais eu tirava, quanto mais eu dizia ou mostrava que não queria, mais eles insistiam, na maioria das vezes, até de forma gentil ou desajeitada, eles insistiam, eu dizia e mostrava meu não, mas não adiantava, eles continuavam, até que eu me resignava e desistia, porque já tinha ouvido várias vezes também que "meninos são assim mesmo" e que essas coisas acontecem porque eles nos desejam, porque estão apaixonados, porque nos amam, e porque nós e nosso corpo é irresistível. E eu queria ser desejada e amada. Então eu me resignava porque, enfim, aquilo era ser desejada e amada.

Por volta dos 17 anos tive a minha primeira relação sexual com penetração, com um homem 8 ou 9 anos mais velho. Estava namorando e estava apaixonada, decidi que era a hora. No meio do processo me arrependi, e disse que não, que não queria. Não adiantou, ele continuou forçando, prendeu meu corpo com força no dele pra eu não sair, me fez carinhos, me dizia pra eu relaxar, que era assim mesmo e que depois ficava bom, me dizia que me amava, colocava meu amor à prova, me dizia umas gentilezas e uns elogios e palavras bonitas e forçava, ignorava meu não e forçava. Até que eu me resignei. Lembrei, novamente, que os homens eram assim mesmo e que aquilo era ser desejada e amada. E que menina de 17 anos não quer se desejada e amada, não é mesmo? Voltei pra casa machucada, triste, confusa, me sentindo amada e desejada.

Aos 20 e poucos anos estava namorando um cara 15 anos mais velho. Eu entrando na faculdade, jovem e deslumbrada, ele um cara "inteligente", com uma boa profissão, estabilizado financeira e profissionalmente, um cara bem sucedido, um "bom partido", como diriam nossas mães. E eu apaixonada. Ele morava sozinho e, frequentemente, eu passava os fins de semana em sua casa. Num desses fins de semana eu fiquei gripada, com dores no corpo, mal estar, febre... e fui acordada em plena madrugada com ele nu, em cima de mim, forçando sexo. Eu disse que não queria, que tava me sentindo mal e tinha febre, ele continuou forçando, forçando, forçando, e com palavras doces me dizia o quanto me amava e o quanto me achava linda e maravilhosa e me desejava, e mais ainda quando eu estava daquele jeito, tão frágil e delicada. Eu não queria, mas, mais uma vez, me lembrei que os homens são assim mesmo, e que isso era o jeito deles de amar e desejar, e eu queria ser amada e desejada, eu não queria correr o risco de perdê-lo por ele não me achar boa o suficiente, amável o suficiente, desejável o suficiente, então me resignei e ele terminou o que queria. E eu me senti machucada, triste, confusa, amada e desejada.


Essas são apenas 3 histórias. Eu tenho outras. Eu tenho muitas outras.

Eu demorei quase 30 anos pra entender que isso era estupro.

Eu demorei quase 30 anos pra entender que a heterossexualidade é estupro.


Obra da artista plástica pernambucana Dani Acioli

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

LÉSBICAS: APRENDAM A VER A SI MESMAS

[Esse NÃO é um texto meu, é uma escritura muito linda e vigorosa da artista plástica lésbica J. Lo Borges, que considero importante estar aqui]

A primeira coisa que lésbicas têm que aprender é a ver: ver a si mesma e as outras; reconhecer suas iguais e todos os perigos da própria existência: a primeira coisa que lésbicas têm que aprender é a ver.

Somos invisíveis porque o patriarcado insiste em ver através de nós; porque repugnamos ao nos amar enquanto todo o mundo nos odeia. Se ser mulher é aceitar ódio com discurso de amor, ser lésbica é amar e ser amada enquanto o patriarcado estabelece todo um arsenal de mecanismos punitivos.

Desemprego, estupro corretivo, violência lesbofóbica, marginalização, falta de assistência médica, loucura, solidão, baixa estima.

Ser lésbica é dor pura, antes de se aprender a ver. Visão estabelecida, surgem tantos sorrisos quanto são possíveis. Sorriso e paranóia. As ruas não são seguras. Olhamos para todos os lados antes de cada passo para antecipar os ataques que estão por vir. Ou usamos o escudo da invisibilidade na ciranda normatizada e aceitamos as ameaças do assédio violador a cada passo dado.

Há a ilusão de aceite ao se abraçar a feminilidade. Mas ela garante a solidão da lésbica invisível e os perigos da assimilação heterossexual: o abandono da cultura e da ética separatista; a reprodução da misoginia masculinista e dos padrões de relacionamentos heterossexuais; a a auto tortura em rituais de “beleza” que plastificam e reduzem a existência da mulher à sua estética e à atenção masculina. Isto, também temos que aprender a ver e a sentir.

Espaços separatistas lesbofeministas criam a seguridade e a possibilidade de se escrever nossos próprios paradigmas de relacionamentos. Nós não precisamos do amor romântico e do ciúme doentio que controla e cerceia. Nossas relações são outras e nosso fundamento base é amizade e respeito. Alterar estas relações a partir do sequestro lésbico pela norma heterossexual é oferecer a todas as mulheres presas no estolcomo da heterossexualidade compulsória a possibilidade de ter a mesma relação abusiva que a masculinista, sem desfrutar dos privilégios sociais estabelecidos no contrato heterossexual.

A assimilação lésbica pela heterocultura faz parte do plano de aniquilação patriarcal da rebeldia lesbiana que é inconciliável com os paradigmas patriarcais. Por isso parece tão necessário nos manter vendadas e entusiastas da cultura e da atenção masculina.

Círculos de amizades masculinas, imitação da postura sexualmente agressiva por busca de aceitação e auto afirmação, consumo de música, literatura e arte masculina, socialização em ambientes mistos, aceite da violência masculinista como algo natural e não intencional, aceite da dicotomia butch/femme e reprodução de papéis sexuais em formato da noção inventada de gênero, diminuição da identificação pessoal com a categoria lésbica, aumento de empatia à classe dos homens, transição de gênero com o uso de hormônios masculinos e a reprodução de violências heterossexuais, incluindo o sexo violador, transição de gênero incluindo cirurgia de mutilação corporal, busca de relacionamentos heterossexuais com mulheres heterossexuais; aceite de relações heterossexuais com homens que se dizem mulheres, incluindo o estupro que o PIV constitui, o isolamento, a gravidez, os surtos de violência, a completa absorção do ideário colonizador do homem heterossexual reacionário, que a coloca em papel de sexo feminino com um papel de embrulho de masculinidade.

O abandono de si mesma para caber nos rótulos dos próprios agressores; o abandono de si mesma para sentar à mesa e apertar a mão dos colonizadores; o abandono de si mesma para acreditar estar ao topo enquanto se é esmagada pelos que realmente estão.

A primeira coisa que as lésbicas têm que aprender é a ver.

E ver o invisível nem sempre é uma missão possível. Pintemos todas nossos corpos e nossas comunidades em néon e façamos um futuro existente e resistente para nós e nossas iguais.

Que seja impossível não ver.



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A OPRESSÃO PATRIARCAL É SOBRE OS CORPOS DO SEXO FEMININO

Sobre a materialidade incisiva da violência patriarcal sobre os corpos das mulheres. E sobre corpos materiais de mulheres como resistência à ela.

É incrível como eu preciso desse corpo que resiste à objetificação masculina pra ser quem eu sou. Esse corpo que tem pelos, o corpo com gestos que não se infantilizam, a voz grave sem abrandamentos ou leves falsetes, a postura segura e forte, que não se crê presa, a cara limpa sem artifícios e alegorias desumanizantes, as vestes tranquilas e confortáveis que meu corpo merece. É incrível como eu me reconheço lésbica cada vez mais nesse corpo e como ele se transforma quanto mais eu me reconheço nele. E como eu gosto dele nesse processo, e como eu gosto de mim. E como me aceitar lésbica reconstrói fortemente e ao mesmo tempo a minha autoimagem e a minha autoestima.

Essa sou eu, esse é o meu corpo,


 
e, pela primeira vez na vida, eu gosto profundamente de quem eu sou. Me aceitar lésbica tem me curado.


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA E SOFRIMENTO PSÍQUICO DE MULHERES

Deixa contar uma coisa pra vocês: ser lésbica e viver sob heterossexualidade compulsória adoece. Causa ansiedade, pânico, depressão. Ser lésbica e ter uma situação econômica razoável, uma condição material confortável, uma família amorosa, amigos afetuosos e um namoro/casamento heterossexual bacana, enfim, uma vida "legal", ainda sim adoece, causa transtornos, depressão, sofrimento.

Transtornos psíquicos e doenças psicossomáticas podem ter uma causa: a repressão da sua lesbianidade.

Eu vivi isso por muitos anos, crises de ansiedade fortíssimas, depressão, pânico, bronquite, sem entender direito o que me afligia. Me compreender lésbica tem me curado.

Mergulhem nos próprios sentimentos, mergulhem nas memórias do passado, observem as reações do seu corpo, reflita, analise, sinta, se compreenda. Não tenha medo de se encontrar, não tenha medo de ser lésbica. Não é fácil, mas é lindo e muito potente e importante. <3

Não perca tempo. A gente só tem uma vida.

NOTAS SENTIMENTAIS ACERCA DE MULHERES EM RELACIONAMENTOS HETEROSSEXUAIS

Eu queria muito que as mulheres em relacionamentos heterossexuais ouvissem a si próprias, ouvissem o que falam sobre si, sobre seus homens, sobre seus relacionamentos heterossexuais, porque parece que elas falam, falam, falam, mas não se ouvem.

Ouçam suas próprias palavras, manas, ouçam cada uma delas, ouçam a forma como vocês narram, a forma como vocês selecionam e organizam as suas próprias palavras, as suas narrativas, porque elas são incrivelmente reveladoras.

<3

COMO TIVE A CERTEZA?



Muitas minas, principalmente as que tem ou já tiveram experiências bissexuais, têm me procurado depois de ler meus escritos aqui e no Face e frequentemente me questionam sobre como consegui concluir que era lésbica e romper definitivamente com a ideia de que poderia ser bissexual, já que eu já admiti ter me relacionado e, até mesmo, ter gostado e me apaixonado por homens.

Sim, eu gostava de me relacionar com homens, e há pouco tempo estive envolvida em uma discussão polêmica sobre isso no Face, justamente porque falei que gostei, que gostava de homens, que me apaixonei, desenvolvi afeto e até mesmo cheguei a sentir prazer sexual em relacionamentos heterossexuais, em relacionamentos com homens. E muitas mulheres me condenaram, me corrigiram, me disseram sobre os perigos de admitir que eu tinha gostado de homens e de sexo heterossexual e me disseram que eu deveria usar a expressão "acreditava que" antes de "gostava", de forma que ficasse clara a ideia de que eu não gostei realmente de homens o tempo que estive em heterossexualidade compulsória, mas que era uma crença falsa esse amor. Oras, se alguma de vocês disser à uma lésbica em heterossexualidade compulsória hoje que ela "acredita" que gosta do homem com quem se relaciona, ela vai, no mínimo, rir de você, ou se magoar e ofender muito por teus seus sentimentos deslegitimados. Assim como eu - que hoje não tenho sombra de dúvida sobre a minha lesbianidade - riria, na ocasião de estar me relacionando com eles, se alguém me dissesse que não gostava de verdade, mas que "achava" que gostava. Não, a gente não "acha", não "acredita" que gosta não, a gente gosta mesmo, a gente tem a plena certeza disso. A compreensão sobre como esse "gostar" é imposto e construído através da violência e da redução de nossa existência, do sequestro de nossos afetos e da nossa sexualidade é uma compreensão posterior, é uma compreensão que a gente só tem, só pode ter, quando passa a se aceitar como lésbica, a aceitar a própria sexualidade, tão violentamente negada por nós mesmas a ponto de nós desenvolvermos afeto e erotizarmos aqueles que vão nos manter nessa prisão. Então, não é tão simples a questão ao ponto de ser resolvida colocando-se uma expressão à frente de uma palavra, não é uma questão de sintaxe, ou de gramática, é uma questão muito mais profunda. Diga àquela mulher que te confidenciou que se apaixonou pela primeira vez na vida por uma menina, que teve seu primeiro beijo com uma menina, que sempre amou meninas, que nunca se sentiu confortável com o sexo masculino, mas que, agora, encontrou um homem especial e maravilhoso, uma exceção a todos os outros, que a faz feliz e que a ama, e que ela ama e deseja também, diga a essa mulher, por mais que você consiga enxergar claramente a condição lésbica dela e o processo violento de heterossexualização pelo qual ela está passando, diga a ela que você acha que ela não ama o cara, que, na verdade, ela apenas "acredita" que ama, e veja essa mulher se ofender, se magoar e se sentir totalmente deslegitimada pra falar dos próprios sentimentos. Não é mentira dela, não é uma crença, ela realmente pode amar esse homem, porque ela foi ensinada a fazê-lo porque dentro das possibilidades que ela tinha de ser heterossexual, pra sobreviver, pra ser aceita, pra ser amada, esse homem foi o melhor pra ela, foi aquele a quem ela foi capaz de dedicar algum amor, ainda que ela seja lésbica. Lésbicas em heterossexualidade compulsória também querem ser amadas, também querem doar amor, e encontram formas pra isso, dentro das possibilidades que lhes são oferecidas.

Agora, a pergunta que deve realmente ser feita é a seguinte: porque lésbicas [ou mulheres de uma forma geral] aprendem a amar seus opressores? - na verdade, especialmente em se tratando de lésbicas, seus ESTUPRADORES? Como elas - nós - aprendemos a fazer isso, se já desde a adolescência, a centralidade do nosso afeto e do nosso desejo sexual se desdobra sobre as mulheres, sobre o corpo e o sexo feminino?

Eu vivi 25 anos sob heterossexualidade compulsória, como sempre deixo claro aqui. Durante esse período, eu me apaixonei, amei e tive prazer sexual em relacionamentos héteros. E eu não pretendo esconder isso de ninguém por conta do risco de ter minha sexualidade lésbica negada ou deslegitimada por outras lésbicas, mas, ao contrário, eu quero falar sobre isso, pra que mais mulheres que estejam em lugares semelhantes ao meu, passando por processos parecidos com os meus, possam se reconhecer nas minhas histórias e possam tecer suas próprias compreensões sobre si mesmas e suas sexualidades, e compreender que, assim como eu, podem estar sendo vítimas de uma sociedade que ensina mulheres a amarem e erotizarem o macho, a violência, a dominação, o estupro, a negação da sexualidade lésbica, uma sociedade que impõe às mulheres, como sinônimo da própria mulheridade, a heterossexualidade.

Foi um processo muito longo até eu entender isso. Foram 25 anos desde que desejei pela primeira vez alguém, e ela era uma menina, aos 12 anos, até eu me assumir lésbica aos 38 anos. Foram 25 anos até eu compreender que o que senti por homens sempre foi muito diferente do que o que senti por mulheres. Que o que me foi ensinado a chamar de "amor" e "paixão" em relacionamentos heterossexuais é, na verdade, submissão, dependência emocional, autoestima destruída e manipulada por homens. foram 25 anos até eu entender que o afeto por mulheres - que nunca me foi permitido desenvolver plenamente, e por isso mesmo era mais fácil que eu fosse convencida de que "amor" e "desejo" eram o que eu sentia pelos homens - se dava de forma muito diferente. Foram 25 anos até eu entender a dinâmica daquilo o que eu sentia por homens e que fui ensinada a chamar de amor, paixão, desejo. Foram 25 anos até eu entender que aquilo que o patriarcado me ensinou a chamar de amor sempre foi a minha submissão a eles e a romanização da minha submissão, a romantização da minha destruição, da minha dependência emocional. Foram 25 anos até eu entender que podemos sim gostar da violência que se impõe contra nós quando somos adoecidas e enfraquecidas de tal forma em nossas existências, nossas autoimagens, nossas identidades, nossas autoestimas a ponto de achar que  essa violência é tudo a que temos direito numa sociedade em que homens são seres superiores, seres humanos e mulheres são inferiores, são objetos. Foram 25 anos até eu entender que estava adoecida de tal forma pela heterossexualidade que aprendi a chamar de amor/paixão/desejo a minha própria submissão. Foram 25 anos até eu entender que o amor poderia estar exatamente naquele lugar que eu tentei abandonar aos 12 anos e neguei por toda minha vida, até aqui. E, então, quando eu entendi isso, eu simplesmente perdi o interesse por homens e libertei o meu amor lésbico de toda culpa que eu carregava por senti-lo!

Como eu consegui isso?

Refletindo. Sofrendo. SOFRENDO MUITO. Em silêncio (um silêncio pelo qual gostaria que vocês não passassem, por isso quero falar sobre isso agora com vocês), sozinha, afundada em sentimentos e reflexões. Escarafunchando minhas memórias, meu corpo, meu desejo, minhas reações, meus medos, e pensando, pensando, pensando sobre essas coisas profundamente. Mas, sobretudo, pensando nisso com honestidade, sem medo, com muita coragem de enfrentar o que viesse, o que fosse, de enfrentar o fato de que eu podia ser lésbica, e que isso iria me trazer problemas, rejeição, medo, que eu teria que enfrentar minha família, amigos, sociedade, que, depois de 25 anos sendo socialmente reconhecida como heterossexual e circulando bem em alguns espaços sociais graças a isso, que eu teria muitas portas fechadas, muitas negativas, muitos problemas a enfrentar. Pensando com honestidade na possibilidade de eu verdadeiramente ser lésbica e em não rechaçá-la, mas enfrentar isso. E quando eu decidi ter essa honestidade comigo mesma, minha lesbianidade se libertou. Ela saltou do meu peito e do meu sexo tão violentamente que foi impossível pra mim tornar a negá-la, porque ela passou a ser quem eu sou. Quando eu resolvi enfrentar a lesbofobia dentro de mim, a lesbofobia internalizada dentro de mim e que me impedia de ser a lésbica que eu sou, a minha lesbianidade brotou imperiosa de dentro de mim, como o ramo verde que brota imperioso da fresta da rocha.

Eu consegui isso refletindo e sofrendo, debruçada em memórias, em sentimentos, em vergonhas, debruçada sobre meu próprio corpo de mulher, sobre meu sexo, sobre meus gestos, meus gostos, meus motivos, minhas razões, pensando sobre meus relacionamentos abusivos, sobre como eu me sentia quando ficava com homens, sobre como eu me comportava quando estava em relacionamentos heterossexuais, sobre o que representava a figura masculina pra mim, desde meu tio abusador, passando por meu pai e todos os namorados que tive, pensando sobre como sempre me senti diferente na presença e na interação com homens e com mulheres. Não foi um processo imediato, de um ou dois dias, nem de semanas... Foi um processo muito lento, de quase dois anos, desque - ainda sem pensar na possibilidade de ser lésbica, mas apenas querendo evitar repetir padrões de relacionamentos abusivos com homens - eu comecei a questionar o que me atraia na masculinidade, já que ela sempre me machucava tanto. Ou, antes disso, três anos antes disso, quando terminei um dos relacionamentos mais abusivos que vivi e decidi que iria permanecer sozinha até compreender por que fazia aquilo comigo, por que me colocava naquelas situações, como poderia amar homens se eles me magoavam, me adoeciam, me entristeciam, me machucavam e, muitas vezes, me destruiam profundamente.

Eu fui pensando, refletindo, examinando, eu mergulhei dentro de mim, profunda e dolorosamente, e eu enxerguei a minha lesbofobia, meus medos, toda misoginia introjetada em mim por uma sociedade que me impõe a heterosexualidade como única possibilidade de SER e que me diz que lésbicas são lixo - quem quer ser lixo, não é mesmo? Eu não queria. Eu mergulhei em mim tão profundamente e tão dolorosamente que, por vezes, achei que não fosse suportar - ansiedade, pânico, depressão, e o aperto no peito e a falta de ar são sintomas comuns a quem está se afogando em si mesma. Mas eu consegui subir à superfície de novo, eu voltei, eu peguei a moedinha de ouro jogada no fundo do poço e subi. E respirei aliviada. E quando respirei, eu já estava apaixonada por quem eu era, eu já estava apaixonada e orgulhosa por ser lésbica por ser quem eu era, por ter enfrentado tudo isso pra ser quem eu era; e já estava apaixonada pelas mulheres, porque eu sei que elas, cada uma delas, também mergulha em seus poços escuros e sufocantes, nos poços em que são confinadas, em que são jogadas pra se afogar, elas estão lá, mergulhadas, assim como eu, tentando encontrar a moedinha e subir à superfície e respirar (nadem até o fundo antes de tentar chegar à superfície!), e isso me apaixona nelas, muito antes de eu entender, isso já me apaixonava nelas, porque a gente nada e mergulha juntas, o tempo todo, de mãos dadas, atreladas umas às outras, embora muitas vezes nem percebamos isso, porque o poço é escuro.

Então, eu me afirmo lésbica agora porque, apesar de tudo, eu amo profundamente ser lésbica, porque ser lésbica é o que eu sou, é quem eu sou e eu não quero e não tenho mais como negar isso. Eu sou lésbica porque eu amo profundamente amar mulheres, eu não tenho nenhum interesse por homens, porque  meu afeto e desejo está centrado em mulheres. Eu sou lésbica porque amo mulheres.  <3

Se você acha que é lésbica, se tem essa dúvida, se desconfia disso, se esse pensamento já rondou sua cabeça, seus sentimentos, suas reflexões, não perca tempo, não se demore, mergulhe fundo e se encontre. A vida passa muito rápido, não perca seu tempo. Seja feliz amando mulheres e não tenha medo de enfrentar isso, porque apesar das dificuldades, você não tá sozinha, como eu não estou. Somos muitas. E nossas histórias se tocam, e nosso amor por mulheres nos une, em diversos espaços, atravessando a história. <3

Amar mulheres é lindo, é poderoso, é potente e é muito feliz. Não tenha medo. Se entregue. <3



domingo, 14 de agosto de 2016

PEQUENAS NOTAS SENTIMENTAIS ACERCA DA MINHA HETEROSSEXUALIDADE

Eu me relacionei com homens durante mais de 25 anos, e tive alguns namoros longos, de 3/4/5 anos. Eu nunca chamei nenhum namorado de "meu amor". NUNCA. Sei lá, simplesmente essas palavras não saiam.

Eu nunca gostei de andar de mãos dadas com eles na rua. Eu evitava e, quando eles conseguiam, eu esperava um tempo e me desvencilhava. Me dava uma sensação estranha estar presa pelas mãos daquela forma a um homem.

domingo, 7 de agosto de 2016

NEGANDO A PRÓPRIA SEXUALIDADE

Durante a minha infância e adolescência eu fui muito insubmissa ao gênero feminino: eu brincava com guris, me machucava, subia em árvores, aos 13/14 anos fui patinar no clube, a maioria dos patinadores era de rapazes, eu andava com eles, levava tombos, vivia roxa... usava roupas largas, sapatos brutos, usei os cabelos muito curtos ou raspados durante boa parte da adolescência, e  olhar as mulheres me causava um sentimento estranho, que eu não sabia nomear como desejo, embora algumas vezes tenha me perguntado "Será que sou sapatão?". Mas eu não queria ser sapatão, sapatão não era legal, muita gente já havia me avisado.

Eu nunca olhei para o corpo masculino com desejo. Nunca. Mas eu aprendi a me excitar com os estímulos sexuais de homens. Eu fui obrigada a aprender, pra ser aceita, pra ser amada, pra ser normal, pra ser mulher, pra sobreviver. Eu nunca olhei o corpo masculino com desejo e, por isso mesmo, eu aprendi que desejo era essa falta do desejo no olhar, e que o que eu sentia ao olhar as mulheres era outra coisa - abominável - qualquer. Aprendi que, para a mulher, o desejo é essa falta de desejo e que o que eu sentia ao olhar pra outras mulheres não era desejo, podia ser condenável até, caso persistisse, se se desdobrasse. Aprendi que a submissão é o desejo da mulher.

Pois bem, eu nunca olhei com desejo o corpo de um homem, mas por volta dos 12 anos eu já tinha dado meu primeiro beijo na boca (e senti um constrangimento imenso ao beijar pela primeira vez um homem), tive alguns ficantes e, então, às vésperas de completar 13 anos eu já tinha conseguido o meu "primeiro namorado".

Até os 16/17 anos eu tive apenas uns flertes e namoricos com meninos, mas eu realmente não tinha nenhum interesse real em me relacionar seriamente com eles, eu apenas ficava com um e com outro, aqui e ali, nas festinhas e passeios adolescentes. Não havia compromisso, no entanto, já existia nisso o aprendizado. E o aprendizado pra heterossexualidade se dá gradualmente: primeiro fui impedida de nomear meu desejo pelas mulheres, depois aprendi que minha falta de desejo por homens é que era desejo, e que eu tinha que  me submeter a ela porque era bom, porque era isso que faria de mim uma mulher plena, feliz e realizada. E então eu fui aprendendo também, enquanto flertava e ficava descompromissadamente com meninos, que havia coisas que eu precisava fazer pra que eles me desejassem e quisessem ter um compromisso comigo, porque ser desejada pelo sexo masculino também era uma coisa que faria de mim  uma mulher, uma boa mulher, e pra isso eu não podia mais me comportar e me vestir como eu fazia, porque quando se é criança ainda pode ser tolerado, mas quando se passa a cobiçar ser desejada por homens, não se pode mais: então, eu tinha que usar apetrechos pendurados nas orelhas, nos braços, no cabelo; eu tinha que mudar minhas roupas, minha aparência, meus hábitos, meu comportamento - "Você está horrorosa com a cabeça raspada assim!", "Você parece um menino com essa calça! Nenhum garoto vai querer ficar com você!", "Você é muito bruta, moças precisam ser delicadas! "Fecha as pernas!" "Faça as unhas", "Bota um brinco", "Passe um batonzinho nessa cara!", "Olha esses joelhos ralados, porque você não para com esse patins? Mulher com perna toda manchada é muito feio!". Eu tinha que crescer: deixar de ser uma criança "moleca" e me transformar em uma mulher, evoluir, progredir, amadurecer: existir pra servir aos homens. E fui aprendendo, da mesma forma, que ser mulher era o meu destino, e que ser mulher era ser limitada, reduzida, incapacitada, domesticada, aprisionada, enfeitada, delicada, fragilizada, artificializada, e que eu era uma mulher, e que, portanto, eu era isso, eu só podia ser isso, porque isso é ser uma mulher.

Não foi difícil começar a idolatrar os homens. Eles eram fantásticos. Podiam tudo que eu desejava: cabelos curtos, roupas confortáveis, podiam andar de patins!, podiam ir aonde quisessem, a hora que quisessem ("Você não vai porque é perigoso, você é uma menina/moça!). E nas músicas e filmes eles eram o máximo: andavam de moto, dirigiam caminhões, viajavam solitários, bebiam sozinhos em bancadas de bar, tomavam as mulheres que queriam como se elas fossem presas e eles caçadores corajosos e incríveis, também as largavam por novas conquistas a hora que quisessem. E ser mulher era aquilo em que eu estava me transformando: ter medo, não poder, não fazer, ser tola, débil, mas ser bonita e desejável para homens - em todo filme, em toda literatura, em toda música, ser mulher era isso. E nos filmes e músicas éramos sempre as presas, frágeis, dóceis, domesticadas e descartáveis. Quando não isso, as donas de casa, as serviçais cheias de filhos que viviam entre o fogão, a pia e a cama para agradar seus maridos. Então, já que eu não podia ser um homem, já que eu não havia nascido com essa sorte entre as pernas, só me restava adorá-los.

Foi igualmente fácil odiar as mulheres. Mulheres eram horríveis. E por muitas vezes eu sonhei ser um homem, eu desejei muitas vezes ter nascido homem. Mas eu não nasci. Eu nasci com uma vagina, e essa marca maldita no meio das minhas pernas era determinante, berrava a todos e fazia todos berrarem de volta pra mim, que eu era uma mulher. Então, meu ódio por mulheres se concretizou entranhado à minha idolatria por homens: ao passo em que me feminilizava, porque não tinha jeito, esse era o caminho natural pra ser aceita, amada, desejada, pra ser mulher, eu passava a desprezar tudo que era produzido por outras mulheres: músicas, filmes, literatura, artes,a própria representação do feminino, as próprias mulheres... nada dessas coisas me interessava, porque os homens é que eram incríveis. Mulheres eram chatas, desinteressantes e entediantes. Eu assistia os grandes filmes produzidos pelos grandes machos do cinema, eu conhecia suas teorias, suas literaturas, eu cantava de cor as suas músicas sobre liberdade, sobre masculinidade, sobre virilidade e sobre o enorme desprezo masculino às mulheres. Eu conhecia Woody Allen, Felini, Almodóvar, Dostoievski, Picasso, Delacroix, Marx, Foucault... eu achava que essas coisas produzidas por eles também diziam respeito à mim, que elas falavam sobre "o ser humano", esse "ser humano" dono de tudo, dono do mundo, esse "ser humano" maravilhoso - e eu acreditava que eu também fazia parte delas... eu cantava alto e forte nos shows de rock:

You need cooling
Baby, I'm not fooling
I'm gonna send, yeah
You back to schooling
Way down inside
Honey, you need it
I'm gonna give you my loveI'm gonna give you my love
Way, way down inside
I'm gonna give you my love
I'm gonna give you
Every inch of my love, gonna give you my love

[Você precisa se acalmar
Garota, eu não estou brincando
Eu vou mandar, sim
Você de volta à escola
Lá no fundo
Querida, você precisa disso
Eu vou te dar o meu amor
Eu vou te dar o meu amorLá no fundo
Eu vou te dar o meu amor
Eu vou te dar
Cada centímetro do meu amor, vou te dar o meu amor]


Eu lia, cantava, apreciava coisas que nunca disseram respeito a mim, à minha vida, à minha condição de mulher. Filmes, escrituras e canções que celebravam um  mundo do qual eu não fazia parte senão como presa, como escrava doméstica ou sexual, como alegoria ou enfeite, onde o que é representado era nada mais que a minha servidão ao homem, celebrada, normatizada, naturalizada. Mas eu também aprendi que gostar dessas coisas era importante. Além de ter sido convencida que elas falavam sobre mim, saber sobre elas me dava um status a mais: os homens me faziam crer que, ao exaltá-los dessa forma, ao exaltar e celebrar suas produções e celebrar seu imenso falocentrismo e desprezo pelas mulheres, eu estava num patamar acima de todas as outras, eu era uma mulher especial. E já que eu não podia ser um homem, achei ótimo ser uma mulher especial. E me especializei nisso. Me especializei profundamente: fui descobrindo que se eu celebrasse não apenas as músicas, filmes e produções de exaltação da virilidade e masculinidade dos homens, mas me tornasse, eu mesma um veículo dela, eu seria ainda mais especial. E ser especial, pra mim, era importante, porque eles me diziam que eu era quase como um deles. Então eu fui sendo ensinada que mais especial eu seria quanto mais eu permitisse a eles exercer suas masculinidades sobre meu corpo, quanto mais eu celebrasse não só seus filmes, livros, músicas, mas também o seu desejo e a sua sexualidade, de preferência sobre o meu próprio corpo. E me diziam que mais especial eu seria quanto mais eles me desejassem. Me diziam que me admirar eles já admiravam, afinal, eu conhecia e celebrava a música deles, os filmes deles, a literatura deles... mas era preciso mais: era preciso que eu celebrasse o sexo e o desejo deles não só sobre as mulheres de uma forma geral, mas sobre mim, sobre o  meu próprio sexo, sobre o meu corpo. Se eu fizesse isso, eu seria muito especial mesmo. Melhor que todas as outras mulheres, melhor que as suas namoradas chatas e caretas, melhor que as donas de casa "gordas, feias e acabadas", e, ainda: melhor do que as prostitutas que eles "apreciam" tanto a ponto de chegar a pagar por elas, porque além de foder loucamente como elas, eu ainda era inteligente e culta, eu conhecia a arte dos homens, a música dos homens, a virilidade dos homens contada e exaltada em toda produção artística ocidental. E, então, eu me tornei muito especial mesmo: eu tive meu corpo e minha sexualidade domesticada até que eles pudessem me colocar em sexo arriscado, em sexo violento, em situações de risco, de dor, de medo, e assim eu ia sendo estuprada, violada, agredida; assim eu fui machucada, eu fui destruída sexual e emocionalmente - e, segundo eles, assim eu ia sendo uma mulher incrível, muito especial, muito melhor do que todas as outras.

Durante esse processo, meu desejo por mulheres foi ficando escondido, soterrado. Foi sendo reprimido, sufocado, esmagado, aniquilado.  Eu não queria ser uma mulher fútil, frágil e burra. Eu não queria ser uma dona de casa gorda, feia e acabada. Mas, tampouco, eu queria ser uma sapatão, uma fancha, uma caminhoneira, uma Maria João, uma abominação. Eu queria ser especial, eu queria muito ser bonita e especial. Assim fui gradualmente me feminilizando ao mesmo passo em que se introjetavam  em mim, construindo minha personalidade, meus afetos, emoções e minhas sociabilidades, a misoginia, a lesbofobia, o falocentrismo, a idolatria por homens e produções masculinas e falocentradas. Esse não foi um processo de 1 ou 2 anos. Esse foi o processo de uma vida inteira. Lento. Pedagógico. Progressivo. Violento. Um processo que começou na infância, se intensificou com um abuso sexual infantil identificado aos 11 anos, um processo contra o qual eu ainda luto, aos 38 anos de idade, na tentativa de entender quem eu sou e o que me foi roubado, entender o sequestro de minhas emoções, da minha psiquê e da minha sexualidade pelo patriarcado, por homens, pela heterossexualidade, pelo regime político e ideológico da heterossexualidade.

Nesse processo, era mais que necessário que eu reprimisse meu desejo lésbico. Reprimir mesmo, com força, vigor, rejeitá-lo fortemente, negá-lo, aniquilá-lo. Mas a gente não rejeita e não nega o que não está lá, não é mesmo? E ele estava. No meu olhar pras mulheres, na minha vontade de ver o corpo delas, de entender que corpo era aquele que eu não devia acessar. "Curiosidade!" Era só curiosidade, eu repetia, outros me repetiam. E como eu havia me tornado uma mulher muito livre e desencanada - uma mulher muito especial, mais especial que todas as outras! - eu podia me dar o direito de ser "bissexual" de vez em quando. Eu podia me dar o direito de ser bissexual principalmente quando isso agradava a algum homem que estivesse comigo. E eu fui bissexual algumas vezes. Eu era descolada, livre, eu podia ter sexo com mulheres, mas eu precisava repetir firmemente pra mim, toda vez, muitas vezes, durante muitos anos, durante duas décadas, que eu até gostava de sexo com mulheres, mas que eu preferia homens, que eu adorava homens, que eu amava paus, e que sexo com mulheres até poderia ser legal, mas sempre estaria "faltando alguma coisa" (me desculpem, mulheres, por essas coisas horríveis que fiz, e me desculpem por contá-las, mas eu preciso narrá-las, eu não tenho orgulho nenhum das coisas que fiz, mas eu preciso narrar pra que outras mulheres se vejam em minhas histórias, se reconheçam nelas e parem de fazer essas coisas também), que eu até podia fazer sexo com mulheres - como fiz algumas vezes - mas que eu me apaixonava de verdade era por homens, porque eles eram incríveis, fortes, vigorosos, corajosos, e as mulheres eram desinteressantes, fracas, débeis, chatas, grudentas e às vezes até insuportáveis. Eu até podia fazer sexo com elas, mas eu não podia me apaixonar por elas, eu só me apaixonava por homens porque eles eram muito melhores que elas, mas, sobretudo, porque homens tinham pau! E eu amava pau - repetia, repetia, repetia. E as mulheres tinham aquelas coisas incompletas e banais no meio das pernas - aquela "coisa" que eu fui a vida toda ensinada a odiar, junto ao ódio por cada aspecto da condição feminina imposta pelo patriarcado às pessoas do sexo feminino pra transformá-las em "mulher".

E assim foi. E foi por muito tempo. E eu tive muitos namorados. E muitos "peguetes". Namoros longos e muitas "aventuras" sexuais, sempre me submetendo - porque eu aprendi que desejo tinha a ver não com o que eu sentia ao olhar as mulheres, mas com a submissão a que a falta de desejo pelos homens, somada à obrigação introjetada da heterossexualidade, me empurrava. Sempre repetindo incansavelmente pra mim mesma, pras amigas, pros homens com quem saía, pras pessoas com quem falava mais abertamente sobre sexo, que eu era "bissexual" às vezes, que era uma mulher livre e por isso fazia sexo com outras mulheres, mas nunca me apaixonaria por elas, porque eu amava muito os homens, eu amava muito, eu adora, eu venerava o pau. E que eu era uma mulher muito especial, muito melhor do que as outras, que eles sempre me diziam isso!

Algumas vezes eu gostei muito de estar com essas mulheres com quem fiz sexo. Uma vez, em especial, uma delas era minha amiga. Uma melhor amiga. Uma mulher com quem eu queria estar todo o tempo, com quem eu adorava sair, de quem eu sentia saudades, com quem eu queria dividir tudo: meus momentos, minhas alegrias, tristezas, minhas coisas, meu afeto - como deve ser com uma melhor amiga, pensava. E ela estava o tempo todo comigo, e sempre que podia a gente fazia tudo juntas, tudo, festas, cinema, conversas, bares, confissões, alegrias, problemas, estavamos sempre jnutas. Eu deixava de sair com meu namorado às vezes e ela com o dela, ou a gente se encontrava nos períodos livres, à tarde, depois da faculdade... e a gente saia juntas, porque a gente era melhores amigas e, como melhores amigas, a gente se amava - como se amam as melhores amigas, eu pensava. Um dia ela quis fazer sexo comigo, ela nunca tinha feito isso com mulheres, tinha curiosidade, me confidenciou. E eu, que era uma mulher muito livre e especial, topei. E a gente transou numa festa, no banheiro da casa do amigo do namorado dela, com ele na sala bebendo e celebrando rituais de virilidade com os caras. Eu gostei. Eu gostei muito. Mas ela me disse que não gostou, que nunca mais faria de novo. Eu gostei muito, mas lembrei de novo que eu já tinha certeza que pra  mim sempre era só sexo, só "liberdade sexual", porque o que eu amava e adorava mesmo eram homens e paus. Seguimos a amizade. Com alguns episódios mais de bebedeiras e beijos e amassos escondidos em cantos de festinhas com amigas. Normal. Ela tinha certeza que não havia gostado de sexo lésbico, só estava "meio bêbada", e eu tinha certeza que até gostava de sexo lésbico, mas gostava mesmo, gostava muito, gostava imensamente de homens e de pau. Fomos amigas por alguns anos. Um dia ela arrumou um namorado muito ciumento. O cara me odiou. No início ele tentava disfarçar e ser simpático, mas o namoro vingou e ele não fez questão de esconder que me odiava por muito tempo mais. E, então, eu e minha melhor amiga de anos começamos a nos estranhar. E brigamos. E nunca mais nos falamos.

E eu segui minha vida. Terminei um namoro extremamente abusivo, sai da casa dos meus pais, dividi apartamento, fui morar sozinha, continuei sendo uma mulher muito especial para os homens: eles me adoravam, eu era inteligente, culta e sexualmente livre: eu fazia coisas loucas, inimagináveis, coisas incríveis no sexo. Coisas que quase nunca envolviam meu próprio prazer, muito menos orgasmos - meus, claro, porque eles tinham vários, já que eu era uma mulher incrivelmente poderosa, eu deixava os homens loucos no sexo. Então, eu segui sendo uma mulher muito especial, muito superior às outras, uma mulher que adorava o falo, o homem, o sexo heterossexual, e que, também inteligente, culta e livre como são as mulheres especiais - as que são melhores que as outras - também podia se permitir fazer sexo com outras mulheres, ser uma "bicuriosa", principalmente se isso aumentasse meu poder sobre os homens, se isso agradasse a eles sobremaneira. Fui sendo essa mulher livre, desencanada, bicuriosa, idólatra de homens, do pau, uma mulher heterossexual por algum tempo ainda.

Até que aos 35 anos eu conheci A.
E me apaixonei por A.
E dessa vez eu não consegui negar.

E deu-se a revolução em minha vida.

E a menina que eu neguei durante tantos anos, renasceu em mim, transformando em escombros a minha heterossexualidade.

<3




[A. seguiu sua vida, não ficamos juntas muito tempo. E eu ainda segui crendo que poderia voltar a ser quem eu era com a partida dela. Mas fui descobrindo que eu nunca havia sido quem eu achava que era. O que A. havia feito em mim não cessou de me transformar depois que ela foi embora. ]

sexta-feira, 29 de julho de 2016

SOY [quase] UNA BUTCH

Quanto mais eu me [re]aproprio do meu corpo, dos meus afetos, da minha vida, quanto mais me assenhorio de mim, menos as prisões me parecem confortáveis ou adoráveis, menos eu caibo nelas e menos elas me cabem, mais vigorosamente eu rejeito as feminilidades.

Não há adjetivo capaz de dizer essa sensação. <3





PASSADO, PRESENTE E QUEM SOU EU?

É um sentimento muito estranho ter vivido tanto tempo sob a heterossexualidade compulsória e romper com ela somente depois de 25 anos. Existe um passado que me confunde, porque não se parece comigo, mas eu sei que é o meu); um presente inconsistente, porque todas as minhas referências foram rompidas; e um futuro completamente aberto - justamente porque meu passado e presente não se costuram, a pessoa que eu fui parece ter muito pouca conexão com quem eu sou agora.

As vezes me causa um horror tão grande pensar no passado que eu gostaria de ser outra pessoa verdadeiramente. Ter outro corpo, outras memórias, ter outro nome. Aí eu penso que, em certa medida, outra pessoa eu já sou. Mas não tenho muitas referências dessa pessoa que me tornei.

É um processo de dissociação muito louco. E eu tô tentando ser muito cuidadosa comigo pra não me culpar e me maltratar mais do que eu já faço, do que eu aprendi a vida toda a fazer - porque independente de quem eu fui e de quem me tornei, a misoginia introjetada em mim é uma memória da qual eu nunca me esqueço.

(Reflexões matutinas de uma lésbica em andamento)

ENFRENTANDO OS MEDOS

Às vezes eu sinto que pra ser livre eu não posso ter uma buceta, seios, as curvas de mulher que tenho, eu estranho meu corpo. Não é uma sensação nova, eu já a conheço. Mas há momentos em que ela têm surgido com muita força agora. A diferença é que em vez de retroceder e me esconder nas feminilidades de gestos, trejeitos, aparência e comportamentos em que me jogaram e me induziram a crer que era onde meu corpo cabia, eu a enfrento.

Ser livre é uma longa jornada.




terça-feira, 26 de julho de 2016

ORPHAN BLACK E UMA REFLEXÃO PESSOAL SOBRE ESTEREÓTIPOS DE GÊNERO E A HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA



Esses dias estava assistindo Orphan Black (uma série do Netflix), na 4ª temporada, uma cena em que Sarah Manning, a personagem principal, muito na merda, cheia de problemas, bronca da vida e chateada, vai prum bar descolado encher o pote de álcool pra desanuviar.

A cena mostra ela se embebedando, dum jeito muito sensual, conforme aquelas representações que a arte do patriarcado sempre faz das mulheres como doidonas em situações vulneráveis sendo sexies. Ela começa, então, a flertar com um cara e com uma mina que tão numa mesa ao lado, tudo numa estética muito sensual - a música, a dança, os enquadramentos, tudo fetichizando a situação - até que eles se aproximam uns dos outros, trocam meia dúzia de palavras e e vão pra pista dançar e se pegar, tudo, é claro, envolvido na estética sensual, construído pra alimentar o fetiche da doidona sexy libertária.

Da pista de dança os três vão pro banheiro do bar, lá se trancam e, enquanto Sarah se pega com a mina, o cara coloca a cocaína em cima do balcão, pra depois, eles começarem a se pegar os três e a cheirarem a coca - o fetiche da doideira e da liberdade sexual como sinônimo de erotismo segue dando a tônica da cena. E, então, os três estão na pegação e a sequência termina com uma cena do homem se preparando pra foder a Sarah.

Imediatamente essa sequência despertou um troço em mim, uma excitação, daqueles "clics" que a gente sente na mente e no corpo quando vemos algo que nos afeta. Mas foi muito, muito, rápido, eu senti a excitação e logo racionalizei: esse é o tipo de cenário no qual meu erotismo foi direcionado/orientado a ser despertado durante toda minha vida heterossexual. Eu não somente me excitava com cenas como essa e com essa estética em filmes e tals, como é exatamente o tipo de situação em que eu certamente poderia me colocar pra me sentir sexy e poderosa. A antiga sensação, alimentada por anos de socialização, e por uma memória ainda recente (há muito pouco tempo eu me compreendi e aceitei lésbica) "apitou" em mim. Eu fui por muito tempo a "louca" sexy do rolê, dançando doidona, "poderosa" seduzindo ozome; eu era a "sem preconceitos", a "mente aberta" e "libertária" que fazia de tudo e que usava todo meu "poder" e "liberdade", bebendo todas, usando drogas, transando caras, minas, enfim, quem eu quisesse, onde eu quisesse, pra me sentir poderosa, pra impressionar os homens, porque eu era sim uma mulher livre e poderosa - ideia muito bem introjetada em mim também pela reafirmação dos próprios homens com quem me envolvia e por várias teorias e ideais sobre a "liberdade sexual" das mulheres (pra isso que essas teorias servem). Bem, foi essa a memória corporal que a cena imediatamente reacendeu em mim, porque eu posso dizer que fantasiei situações como essa e já vivi algumas bem parecidas também. E que me sentia mesmo sempre muito "poderosa" ao corresponder ao estereótipo que eu sabia que agradava aos homens e que fazia com que eles me destinassem algum afeto ou desejo - migalhas fundamentais pra alguém com a autoestima destruída como a minha, ou como de praticamente todas as mulheres
.
Mas, vamos analisar com mais apuro essa situação que a sequência de Orphan Black feticihiza: uma mulher sozinha num bar, bêbada e drogada, dançando louca e "seduzindo" homens - mais precisamente, no caso da cena, um casal - sendo retratada como sexy através de toda uma estética cinematográfica feita pra erotizar a personagem e a cena. Bem, essa é a fantasia heterossexual que nos vendem, que nos ensinam, que nos introjetam a partir de diversas estratégias de socialização, de filmes, de literaturas, de propagandas e todo tipo de mensagens, a fantasia de que mulheres heterossexuais são importantes e poderosas. E, como toda fantasia, ela é coberta de adereços e alegorias pra escamotear a verdade, a única coisa que não foi mostrada, sequer cogitada (e nunca é, em representações artísticas como essa), na cena: uma mulher bêbada e drogada sozinha num bar "seduzindo" homens NÃO tem poder algum. Nem sobre ele, nem sobre si, nem sobre ninguém, nem sobre nada. Uma mulher bêbada e drogada sozinha num bar cheio de homens está COMPLETAMENTE VULNERÁVEL e, diferentemente do que a estética, a literatura, a música, o cinema e a arte patriarcal nos faz crer, estar vulnerável não é nem sexy e nem poderoso, mas é PERIGOSO PARA AS MULHERES (da mesma forma que é perigoso alimentar o fetiche sobre essa situação). Estar vulnerável é estar em perigo, é perder a autonomia, é colocar em risco a integridade, a própria vida, é estar reduzida não somente a esse estereótipo, mas a toda submissão, subjugo e violência dos homens (a quem mais interessaria fetichizar e erotizar a vulnerabilidade de mulheres e a ressignificá-la como erótica, como "liberdade" ou como 'liberdade sexual"?).

Foi uma questão de segundos mesmo até eu racionalizar e entender/lembrar que o que eu gostava, ou acreditava gostar - e que minha memória corporal quase me fez crer gostar de novo - não era de homens, não era das relações heterossexuais, mas do falso poder que a sociedade patriarcal nos faz crer (através desse e de diversos outros estereótipos) que a gente possui sendo uma mulher heterossexual e cumprindo nosso papel heterossexual: estar subjugada a um ou a vários homens e crer que existe algum poder nisso.

A heterossexualidade não tem nada a ver com amor, com desejo, com afeto, a heterossexualidade é uma farsa romântica que esconde um regime político-ideológico vigoroso que convence e condiciona mulheres a acreditarem que podem amar quem as submete, que ensina mulheres a idealizar, romantizar e erotizar a própria submissão e os rituais dessa submissão.

Foi um duplo processo me compreender lésbica, reconhecer e nomear o desejo que sempre senti por mulheres, e compreender o que é a heterossexualidade compulsória e como ela agiu sobre mim.

Por isso eu digo a vocês, mulheres: o patriarcado é poderoso. Ele age sobre nossos corpos, nossas mentes, sobre o que há de mais profundo e íntimo em nós: nossos afetos, desejos e as formas como os significamos, como damos sentidos a eles. Portanto, fiquem atentas aos seus próprios sentimentos, às suas memórias, aos seus processos interiores, ao seu copo, como ele reage, como se comporta diante de lembranças e situações. Escarafunchem-nos em reflexões e encontrem dentro de vocês as respostas sobre as dúvidas que têm à respeito da própria sexualidade. Não abafem as perguntas por medo das respostas que podem encontrar. Não percam tempo. Amar mulheres é lindo, é precioso. Por favor, não percam tempo!

<3

OBS. - Só pra constar: esse texto me deixou na iminência de uma crise de ansiedade. Ele não nasceu facilmente, eu pari, assim como estou parindo a mim mesma. Às vezes é tenso e dolorido, mas dar à luz e nascer também é potente e maravilhoso.




SOBRE ADOLESCÊNCIA, REMINISCÊNCIAS, PROCESSOS MNEMÔNICOS E HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA

Quando eu tinha mais ou menos uns 13 anos (ou pouco mais, não lembro exatamente), eu tinha uma amiga, uma melhor amiga, que se chamava Ana Paula também, mais ou menos da minha idade. Era daquelas amizades em que se faz tudo junta, dorme uma na casa da outra, sai junta, vai pra escola junta, mata aula junta... Eu adorava estar com ela, sentia saudades, ligava todo dia, queria contar tudo pra ela, dividir tudo com ela. A Ana Paula tinha perdido a mãe, e por conta disso o pai tinha ido dividir o quarto com os filhos homens e deixou o quarto com a cama do casal pra ela, a única menina; e sempre que eu dormia lá, eu dormia na cama com ela. Foi a primeira vez que me lembro de ter desejado tocar num corpo - sim, eu já tinha ficado com meninos, até dado uns amassos, mas mais porque outras meninas viviam dizendo que era bom e porque eu tinha "curiosidade" do que exatamente porque eu olhasse pro corpo de um menino/rapaz e sentisse algum desejo. Mas a Ana eu queria tocar, uma vontade irresistível. Me lembro de, na cama, chegar bem perto da nuca dela e cheirar, me lembro de ter vontade de colar meu corpo no dela, me lembro de, durante os banhos de piscina, não conseguir tirar os olhos do corpo dela e me sentir constrangida por isso.

Eu sempre fui uma adolescente bastante insubmissa ao gênero, não era "vaidosa", não usava maquiagem, nem bijuterias, não pintava as unhas, adorava os cabelos curtos, roupas largas e um visual meio largadão, às vezes meio agressivo. Desde nova gostava de brincar na rua, de fazer as coisas que os meninos faziam, e sempre ficava admirada da liberdade e do poder que eles tinham. Perdi as contas de quantas vezes fui condenada por isso. De quantas tentativas de correção, de quantas vezes me senti rejeitada, senti que não iria ser amada. Perdi as contas de quantas vezes fui chamada de feia, de quantas vezes ouvi minha própria mãe (é claro que eu não culpo ela) me dizer que queria me trocar pela filha da fulana, que parece uma "bonequinha" e que não sabia o que tinha acontecido comigo, que não sabia como eu era filha dela.

E eu me perguntei muitas vezes - mas muitas mesmo - se eu era "sapatão". Eu também perdi a conta de quantas vezes eu me fiz essa pergunta internamente.

Mas se ser insubmissa ao gênero me punia e me assustava tanto, imagina ser sapatão? É claro que eu não era, eu não queria ser. E buscava naquelas revistinhas adolescentes sobre variedades e comportamento (Capricho, Querida e afins), a resposta que eu queria: "Olhar com desejo e curiosidade o corpo de outra menina não significa necessariamente ser lésbica, é só uma fase, é só curiosidade, você ainda não tem idade pra se decidir"; e nas páginas seguintes todo o aprendizado para a doutrinação da idolatria aos homens, ao falo, à heterossexualidade - as revistas cumpriram seu trabalho: colocaram em suspenso qualquer certeza que eu pudesse ter sobre minha lesbianidade e me ofereceram em troca outra verdade: de que se a lesbianidade é uma dúvida, a certeza precisa estar na heterossexualidade. As revistas, a TV, os anúncios publicitários, a minha educação social e familiar. Assim, eu fui tendo certeza que a "curiosidade" pelas mulheres,por seus corpos e suas existências era parte de uma "fase", era apenas uma confusão adolescente e que ser adulta e madura era justamente me livrar, romper, resolver essa confusão e "me decidir".

"Decidir". Era justamente essa a palavra usada em qualquer debate adolescente sobre a questão, "você é só uma adolescente, não precisa "se decidir" agora". Só não falavam pra gente que, num mundo patriarcal, todo pautado na heterossexualidade, "decidir" - usado nesses debates como sinônimo de crescimento e amadurecimento, já que a condição de "indecisão" era uma condição ligada à adolescência, significava ser heterossexual - pois virar uma mulher adulta significava exatamente se converter a uma mulher heterossexual. E isso podia ser visto nas páginas seguintes das revistinhas (e da vida): depois sobre a matéria das dúvidas sobre a sexualidade, seguiam-se as matérias sobre maquiagens, os testes pra saber se o meninO da escola gostava de você, as dicas pra agradar os rapazes, as páginas e mais páginas destinadas a idolatria de celebridades masculinas.

Ainda durante esse período, algumas outras meninas povoaram meu imaginário, a Selma, que era "zoada" de sapatão por toda escola, a Flávia, menina enorme de alta e forte, muito pouco feminilizada, que ganhava dos meninos no volei, a Sabrina, garota maluquinha e briguenta... um monte delas, e eu me fascinava, queria estar com elas - "mas isso passa, isso é inveja, admiração, curiosidade, você não precisa decidir agora, você é muito nova, isso passa" , me diziam as vozes ecoantes, de revistinhas, de programas de TV, de adultos "sábios", de conversas com meninas da minha idade.

Bem, a Ana Paula passou, a Selma passou, Flávia, Sabrina, Sandra, Cristiane, todas passaram. Eu cresci. E todas minhas amigas (e revistas, e programas de TV e tudo e todos em todos os lugares) me diziam que o legal era ficar com homem, que maravilhoso era ser desejada por um homem, que a coisa mais grandiosa que pode acontecer na vida de uma mulher era ser mulher de um homem. E eu não queria ficar pra trás. Eu não queria não ser desejada. Eu não queria não ser uma boa mulher pra minha família e pra sociedade. Pronto, eu já estava convencida por mim mesma que a "fase" da dúvida tinha passado, que eu cresci e amadureci, que eu era adulta, e que, portanto, eu só podia ser uma mulher heterossexual - a "confusão" da adolescência tinha ficado pra trás. E eu continuava tentando ser aceita e amada.

Eu poderia começar a elencar a série de merdas que começaram a descer ladeira a baixo a partir daí. A começar pela destruição completa da minha autoestima com a sensação de obrigatoriedade em adequar minha aparência, gestos e comportamentos a um ideal de feminilidade, até todos os relacionamentos abusivos, transtornos alimentares, abuso de álcool e uso de drogas e um número infindável de práticas comportamentais e sexuais de risco.

Mas não é o foco agora, nesse momento, nesse texto (eu ainda vou falar com mais detalhes sobre isso). Na verdade, esse texto é só pra contar pra vocês sobre uma coisa linda que me aconteceu, agora, há pouco tempo, ano passado.

(Mentira, não é só pra isso, é também pra dividir minha vivência com vocês e ajudar a vocês a pensarem nas suas. <3 )

Nos últimos 2 anos eu comecei a tomar contato com o debate sobre heterossexualidade compulsória (por motivos diversos e imbricados, sobre os quais, aos poucos, eu também vou narrando), e ele se derramou sobre mim. Eu até tentava evitá-lo ("nem toda heterossexualidade é compulsória", "nem todas as mulheres" e tals). Eu tentava evitá-lo, mas ele parecia uma porra duma sirene, apitando em todo lugar que eu estava, que eu pensava, que eu lia. Então, essa questão começou a me invadir, e eu comecei a questionar levemente como seria se, supostamente, eu estivesse vivendo em heterossexualidade compulsória. Comecei a levar as questões que se colocavam com esse debate - assim, muito hipoteticamente, a título de teorização, eu dizia - para minha própria vida.

Como num processo quase "natural" (entre aspas pra indicar que tô falando de um desdobramento inevitável do debate sobre a heterossexualidade, porque eu não acredito em "natureza humana"), eu comecei, inclusive, a me lembrar dessas coisas que contei aí pra vocês (poizé, eu não lembrava delas, quer dizer, lembrava em partes, lembrava da Ana Paula, lembrava que tinha sentido uma "curiosidade" por ela, mas não lembrava desta forma, com esses significados tão profundos). Esse processo de lembranças mais profundas é muito recente, pois somente quando, por ocasião das reflexões sobre heterossexualidade, eu comecei a pinçar algumas dessas histórias/memórias do meu "baú" cheio de tantas e tantas memórias e histórias da infância e me debruçar mais atentamente sobre algumas delas de forma mais demorada, elas começaram a deixar de ser apenas mais uma dentre tantas memórias de infância e foram pedindo pra serem observadas com mais cuidado por mim. E, então, eu comecei a cuidar delas, a cuidar das minhas memórias, e, cada vez mais, elas foram pulando do baú em direção a mim, pedindo pra serem observadas, pra serem cuidadas, pra serem novamente revistas pela ótica das coisas feministas que eu andava estudando. Assim, então, que eu falo pra vocês que só há pouco tempo eu comecei a me lembrar de muitas, mas muitas coisas mesmo, detalhes que eu tinha - convenientemente? - me esquecido completamente sobre a minha infância e adolescência. E eu estava casada. Num relacionamento heterossexual. E essas coisas começaram a me perturbar e machucar muito, porque, novamente, me surgiu com força a pergunta da juventude: "Será que eu sou sapatão?". E desta vez a reposta não se oferecia em revistas de comportamentos e outros veículos de propaganda de idolatria sobre o macho, mas ela estava dentro de mim, na memória daquela jovem que fez essa pergunta pela primeira vez.

Eu tive medo. Muito medo. Ataques de pânico, depressão, crise de ansiedade. É muito difícil se fazer essa pergunta aos 38 anos, depois de ter carregado a vida inteira a certeza introjetada da heterossexualidade (porque apesar de ainda ter ficado com algumas mulheres na idade adulta, eu, no máximo, me permitia ser reconhecida circunstancialmente por uma "bissexualidade curiosa", porque eu tinha certeza que lésbica não era, mas sim uma mulher heterossexual "livre de preconceitos" - também vou contar mais sobre isso). Eu estava vivendo um terror psicológico de medo e confusão, porque eu não conseguia fazer a pergunta parar de gritar dentro de mim.

E, então, um dia, depois de uma série de crises de pânico e ansiedade, eu tive um sonho. Um sonho muito lúcido.

Sonhei que eu era carcereira de uma prisão, uma prisão gigante. Eu estava nessa prisão quando, de repente, alguém (que eu não me lembro se era conhecido ou não) chegou pra mim e me disse que a Ana Paula (lembram dela, da minha infância?) estava presa nessa cadeia, numa cela que ficava numa ala no pavilhão extremo oposto onde eu estava. Meu coração saltou. E eu tinha um molho imenso de chaves nas mãos. E, então, eu comecei a atravessar a prisão em direção ao outro lado, e ela era enorme: atravessei pátios, corredores, alas, até que avistei a uma cela, não sei como, eu tive certeza na hora que era aquela. Fui me aproximando e tinha uma mulher de costas lá dentro. Eu abri cuidadosamente a cela com uma das chaves - a chave certa dentre as tantas, eu não tive dúvidas - e me aproximei da mulher, que se virou pra mim. Eu olhei nos olhos dela, abracei e sussurrei no ouvido dela: "Ana Paula, eu nunca me esqueci de você. Eu te amo". E acordei. (Esse sonho aconteceu e eu choro quando eu lembro dele).

É muito difícil eu lembrar dos meus sonhos. Nessa manhã eu acordei e lembrava vivamente dele, com todos os detalhes. Eu acordei muito feliz e tranquila, com uma sensação de enlevo imensa, fiz um café, cantarolava e me alegrava com o cheiro do café e da manhã, coisas simples que há muito tempo as crises de ansiedade e pânico me impediam de perceber e desfrutar.

É claro que eu ainda demorei um pouco pra entender que aquela mulher na cela não era a Ana Paula, ela era EU - carcereira e prisioneira da minha própria sexualidade - Mas nesse dia, eu tive a certeza sobre a resposta a minha pergunta, uma certeza que veio do fundo do meu coração.

Eu ainda demorei um tempo também até terminar o casamento, até elaborar sobre o seu fim, até decidir terminar definitivamente e vir de volta pro Rio; eu ainda sofri com algumas crises (como ainda sofro hoje), mas a certeza que eu tinha permaneceu comigo durante todo esse processo. Como permanece até agora. E é uma certeza que não se abala, porque ela não vem de nenhum discurso ou explicação de fora, ela vem de dentro de mim, da atenção, do cuidado e honestidade com que eu decidi olhar pra dentro de mim, pra [re]construir minha existência liberta e meu amor-próprio, pra nunca mais ter medo ou vergonha de quem eu sou.

Mulheres, mais uma vez eu vou falar pra vocês: o patriarcado é poderoso. Ele age sobre nossos corpos, nossas mentes, sobre o que há de mais profundo e íntimo em nós: nossos afetos, desejos e as formas como os significamos, como damos sentidos a eles. Portanto, fiquem atentas aos seus próprios sentimentos, às suas memórias, aos seus processos interiores, ao seu copo, como ele reage, como se comporta diante de lembranças e situações. Escarafunchem-nos em reflexões e encontrem dentro de vocês as respostas sobre as dúvidas que têm à respeito da própria sexualidade. Não abafem as perguntas por medo das respostas que podem encontrar. Não percam tempo. Amar mulheres é lindo, é precioso. Por favor, não percam tempo! <3

[Estou com o coração incendiado por esse texto]









VAMOS CONTAR A NOSSA HISTÓRIA

Nunca amei homens. Estive submetida a relacionamentos abusivos e violentos por toda a minha vida e fui compulsoriamente socializada pra acreditar que submissão, objetificação, hipersexualização, paternalização, infantilização, dependência emocional, silenciamento, incompreensão, angústia e sofrimento eram amor.

E fui mantida violentamente nessa crença pra que pudesse ser apartada radicalmente da óbvia [e talvez aterrorizante para uma pequena menina] constatação que devo ter tido através da experiência afetiva mais fundamental da minha existência: aos 12 anos, meu primeiro amor e a primeira vez que erotizei um corpo, ela era uma menina - e que algumas outras depois dela se seguiram.

É ao mesmo tempo doloroso e feliz compreender que tive meus afetos, minha existência, minha vida, sequestradas por homens, e por tanto tempo; é doloroso carregar esse lapso de existência em mim e só agora poder me reencontrar com a menina que fui aos 12 anos. Mas estou feliz - há mulheres que nunca irão conseguir, e eu lamento imensamente por elas.

Vivi a violência da heterossexualidade compulsória por 25 anos, mas acabou. Sou livre. <3

E vou contar a minha história, a história das mulheres lésbicas, a história que roubaram de mim e a história que, milenarmente, os homens tentam violentamente aniquilar. Vou contar a história da minha socialização, do meu apagamento, da heterossexualidade compulsória, dos estupros corretivos, das violências de adequação e correção, do medo, da rejeição e de toda violência lesbofóbica que o patriarcado impôs sobre mim pra me matar, pra matar o que sou.

Meu silêncio chegou ao fim. E a minha vida tá começando agora.

SOBRE HETEROSSEXUALIDADE E CONFORMAÇÃO DOS AFETOS DAS MULHERES

Não é biológico o que impede mulheres de amarem e desejarem outras mulheres, é social.

O que faz mulheres não serem capazes sentirem desejo por outras mulheres? O que faz com que, mesmo algumas mulheres das mais feministas, que afirmam ter compreendido a heterossexualidade compulsória, a violência dos homens e a desigualdade e a opressão dos relacionamentos heterossexuais e que afirmam com veemência amar e admirar imensamente outras mulheres e desprezar os homens sejam capazes de, na realidade, desprezar afetivamente e eroticamente aquelas que dizem amar e admirar e amar e admirar afetiva e eroticamente aqueles que dizem desprezar? O que faz com que mulheres que dizem amar e admirar suas semelhantes não consigam sequer considerar se apaixonar por elas e desejá-las?

Pra mim isso tem uma explicação: ainda é a repulsa, o desprezo ou o nojo pelo sexo feminino que forja, orienta e conduz a instituição e a manifestação dos afetos e do desejo dessas mulheres. E a explicação pra isso é só uma: isso se chama misoginia e lesbofobia.

Misoginia e lesbofobia vigorosamente internalizadas na estruturação dos afetos das mulheres.

Um dos pilares mais fundamentais da heterossexualidade compulsória é a socialização das mulheres pro falocentrismo e pra misoginia e pra lesbofobia. A socialização pro falocentrismo e pra misoginia e pra lesbofobia são complementares, operam de maneira interligada e conformam os afetos e a sexualidade das mulheres de forma limitadora e violenta: no mesmo processo em que são socializadas pra adorar falos e sujeitos falocentrados - apresentados, já desde a figura paterna e até mesmo a divina - para as mulheres como fortes, vigorosos, superiores, necessários, erotizáveis, desejáveis, as mulheres são socializadas pra odiarem e desprezarem o sexo feminino, primeiramente o próprio e, como imbricamento inevitável, o de todas as outras fêmeas humanas. Essa relação complementar entre a socialização para a misoginia e para o falocentrismo leva mulheres a internalizarem, na construção de suas sujeitas, o processo violento de heterossexualização de seus afetos e personalidades: a autocompreensão naturalizada de nós mesmas como aquilo que o nosso sexo - instituído e nos apresentado como falta, como a fraqueza, como ausência - é; ou seja, o sexo feminino não é outra coisa senão aquilo mesmo que nós somos, o que nos constitui como mulheres - a falta, a ausência - e do que apenas o sexo masculino pode nos redimir. Portanto, na construção heterossexual patriarcal, não há outra forma de mulheres obterem a positividade e a completude atribuída ao sexo masculino senão através do reconhecimento do sexo masculino sobre nós e sobre nossa condição. Assim, o desejo e a erotização do sexo masculino é, em primeira instância, a busca pelo reconhecimento de nossa humanidade. Assim, o desejo e a erotização do sexo masculino pelo sexo feminino se constrói a partir dessa falta que nos é imposta como nossa condição natural e do que representa a erotização do masculino pra gente: a completude humana que nos é negada.

(Não é o que nos confirmam todos os discursos de amor romântico heterossexual sobre mulheres procurando príncipes, tampas de panelas, metades de laranjas e tals?)

Dessa forma, a partir dessa socialização, a lesbofobia se torna também uma concretização inevitável, pois ela é introjetada a partir da socialização misógina que nos ensina a odiar e desprezar nosso sexo e tudo que diz respeito a ele, nos tornando, então, incapazes de conceber o sexo feminino como erotizável, porque tudo que aprendemos sobre ele é que ele é inferior, nojento, desprezível, repulsivo, indesejável - a não seja tornado objeto do desejo do sujeito masculino que é quando o sexo feminino encontraria, então, a sua plena realização e o sentido primeiro de sua existência. Ou seja: a erotização do sexo feminino, além de desprezível e indesejada, deve ser também negativada, visto que o sexo masculino - através de sua completude e supremacia - é o único capaz de redimir as mulheres de sua condição de falta - é isso que introjetamos quando recebemos a socialização pro falocentrismo e pra misoginia.

É fato que a heterossexualidade compulsória se manifesta por uma variedade imensa de fenômenos, rituais e comportamentos impostos às mulheres (a rivalidade feminina e os próprios rituais de feminilização de mulheres são parte da manutenção do regime heterossexual), e que romper com essas situações é importante no processo de ruptura com a heterossexualidade compulsória. No entanto, eu continuo acreditando que romper com a heterossexualidade compulsória no seu sentido mais profundo é, fundamentalmente, ser capaz de ressignificar seus afetos de tal forma a superar essa misoginia e essa lesbofobia introjetada nas mulheres e por nós naturalizada sob a forma de "orientação sexual" e sermos capazes de - verdadeiramente e não apenas em discurso - amar e admirar mulheres, o nosso corpo, o nosso sexo, as nossas existências maravilhosas a tal ponto que seja natural e irresistível se apaixonar e desejar sexualmente mulheres, ou seja, erotizá-las.

Vou expor aqui uma ponderação sobre minha vivência pessoal que desembocou na reflexão acima: sabe o que, por anos, e mesmo quando eu já era feminista, me impediu de amar mulheres e desejá-las plenamente? Não foi outra coisa senão falocentrismo, misoginia e lesbofobia internalizadas. Quando eu identifiquei - num esforço deliberado, esmiuçante, perturbador e muitas vezes doloroso (e eu escolhi não parar e nem "deixar pra lá" quando doía) de reflexões, autorreflexões e autocríticas profundos - o falocentrismo, a misoginia e a lesbofobia que me atravessavam fortemente na minha constituição de sujeita, eu pude buscar os caminhos e as compreensões necessárias pra me perceber capaz de amar, admirar e celebrar a mim mesma e a meu sexo, de forma plena e sem a necessidade do reconhecimento masculino, e isso me levou, inevitavelmente, a compreender a minha capacidade de amar, admirar, celebrar e desejar o sexo feminino, as mulheres, nossos corpos, o nosso sexo, a nossa anatomia, a nossa intimidade, a nossa companhia. Não existe nada mais feminista, mais revolucionário, mais transformador e mais delicioso do que dividir a intimidade com outra mulher. É muito revolucionário.

MEMÓRIAS DE ABUSOS INFANTIS E HETEROSSEXUALIDADE


Eu passei a vida toda achando que era normal sentir vontade de morrer, de se matar, viver com uma angústia dolorosa e um sentimento enorme de inadequação, incompreensão, constrangimento e desconforto dentro da gente desque a gente se entende por gente, mas não é né?

Antes eu achava que era porque eu era adolescente (e em todo lugar se diz que adolescentes são estranhos e incompreensíveis rebeldes e revoltados mesmos - isso é uma balela, feita pra silenciar abusos e violências cometidas pelos homens da família), depois eu achei que era assim mesmo porque era assim mesmo (porque a vida de adulto é uma merda mesmo, com trabalho, cansaço e contas pra pagar); mas agora eu entendo todos esses sentimentos e todo o processo de boicote e autodestruição que empreendi contra mim mesma, contra meu corpo, contra minha vida - que tem a ver com transtornos alimentares, consumo de drogas, abuso de álcool, estar em situações de risco e sexo arriscado, em relacionamentos abusivos, não conseguir concluir quase nenhum de meus projetos, ter uma vida profissional de merda e mais um monte de coisas - não são normais, são frutos de uma autoestima, de um emocional e uma sexualidade destruídas por um abuso sexual infantil que eu fui obrigada a silenciar e me fazer crer que tinha superado. São frutos de uma autoestima, um emocional e uma sexualidade destruídas de diversas formas e impelida à heterossexualidade [compulsória] pra conseguir aceitação e o afeto das pessoas porque quando eu ainda era uma criança me fizeram entender que se eu quisesse ser amada eu precisava ser sexualizada e ter o meu corpo disponível aos homens. Eu ainda era uma criança e eu fui ensinada a isso e, então, eu me sexualizava o tempo inteiro e oferecia meu sexo aos homens, exatamente como fui ensinada quando ainda era uma criança. E ninguém nunca me disse que isso não era verdade, que isso não era certo, que isso era abuso, mais abuso, abuso seguido de abuso. Ao contrário, eu sempre tive esses estímulos todos reforçados e sempre fiz muito sucesso. E isso é o que me doía mais, porque eu nunca gostei de homens, do sexo deles.


Ainda não é fácil pra mim. Mas pela primeira vez na minha vida desde muito tempo eu não me sinto impelida a servir sexualmente a homens e nem sinto vontade de estar o tempo todo bêbada ou drogada. Há tempos não me coloco em situações de risco e cada vez mais venho me relacionando com meu corpo e com a minha saúde com carinho e cuidado. Também estou me reconciliando com a minha sexualidade.

Hoje eu entendo que podia estar morta. Que, na verdade, era pra eu estar morta. Hoje eu entendo o que é ser uma sobrevivente.

Eu sou uma sobrevivente de abusos sexuais infantis. Eu vivo e esta é minha maior resistência contra o patriarcado. Eu ainda estou viva e pretendo permanecer.

Entender tudo isso é um recomeço. Minha vida tá começando agora, porque agora eu compreendo o sentido mais profundo de amor-próprio na vida de uma mulher sobrevivente.

Eu recomeço.