Aos 38 anos me compreendi lésbica. Desde a primeira manifestação do meu desejo por mulheres, aos 13/14 anos, até a plena compreensão de minha lesbianidade, um fosso enorme de violências, correções, adequações, condicionamentos, rejeições e agressões patriarcais me distanciaram do que eu sou - uma lésbica. Esse blog conta minhas histórias pra que outras mulheres possam se reconhecer nelas e saber que não estão sozinhas e nem loucas e que é importante a gente conversar sobre isso.
sexta-feira, 26 de agosto de 2016
COMO TIVE A CERTEZA?
Muitas minas, principalmente as que tem ou já tiveram experiências bissexuais, têm me procurado depois de ler meus escritos aqui e no Face e frequentemente me questionam sobre como consegui concluir que era lésbica e romper definitivamente com a ideia de que poderia ser bissexual, já que eu já admiti ter me relacionado e, até mesmo, ter gostado e me apaixonado por homens.
Sim, eu gostava de me relacionar com homens, e há pouco tempo estive envolvida em uma discussão polêmica sobre isso no Face, justamente porque falei que gostei, que gostava de homens, que me apaixonei, desenvolvi afeto e até mesmo cheguei a sentir prazer sexual em relacionamentos heterossexuais, em relacionamentos com homens. E muitas mulheres me condenaram, me corrigiram, me disseram sobre os perigos de admitir que eu tinha gostado de homens e de sexo heterossexual e me disseram que eu deveria usar a expressão "acreditava que" antes de "gostava", de forma que ficasse clara a ideia de que eu não gostei realmente de homens o tempo que estive em heterossexualidade compulsória, mas que era uma crença falsa esse amor. Oras, se alguma de vocês disser à uma lésbica em heterossexualidade compulsória hoje que ela "acredita" que gosta do homem com quem se relaciona, ela vai, no mínimo, rir de você, ou se magoar e ofender muito por teus seus sentimentos deslegitimados. Assim como eu - que hoje não tenho sombra de dúvida sobre a minha lesbianidade - riria, na ocasião de estar me relacionando com eles, se alguém me dissesse que não gostava de verdade, mas que "achava" que gostava. Não, a gente não "acha", não "acredita" que gosta não, a gente gosta mesmo, a gente tem a plena certeza disso. A compreensão sobre como esse "gostar" é imposto e construído através da violência e da redução de nossa existência, do sequestro de nossos afetos e da nossa sexualidade é uma compreensão posterior, é uma compreensão que a gente só tem, só pode ter, quando passa a se aceitar como lésbica, a aceitar a própria sexualidade, tão violentamente negada por nós mesmas a ponto de nós desenvolvermos afeto e erotizarmos aqueles que vão nos manter nessa prisão. Então, não é tão simples a questão ao ponto de ser resolvida colocando-se uma expressão à frente de uma palavra, não é uma questão de sintaxe, ou de gramática, é uma questão muito mais profunda. Diga àquela mulher que te confidenciou que se apaixonou pela primeira vez na vida por uma menina, que teve seu primeiro beijo com uma menina, que sempre amou meninas, que nunca se sentiu confortável com o sexo masculino, mas que, agora, encontrou um homem especial e maravilhoso, uma exceção a todos os outros, que a faz feliz e que a ama, e que ela ama e deseja também, diga a essa mulher, por mais que você consiga enxergar claramente a condição lésbica dela e o processo violento de heterossexualização pelo qual ela está passando, diga a ela que você acha que ela não ama o cara, que, na verdade, ela apenas "acredita" que ama, e veja essa mulher se ofender, se magoar e se sentir totalmente deslegitimada pra falar dos próprios sentimentos. Não é mentira dela, não é uma crença, ela realmente pode amar esse homem, porque ela foi ensinada a fazê-lo porque dentro das possibilidades que ela tinha de ser heterossexual, pra sobreviver, pra ser aceita, pra ser amada, esse homem foi o melhor pra ela, foi aquele a quem ela foi capaz de dedicar algum amor, ainda que ela seja lésbica. Lésbicas em heterossexualidade compulsória também querem ser amadas, também querem doar amor, e encontram formas pra isso, dentro das possibilidades que lhes são oferecidas.
Agora, a pergunta que deve realmente ser feita é a seguinte: porque lésbicas [ou mulheres de uma forma geral] aprendem a amar seus opressores? - na verdade, especialmente em se tratando de lésbicas, seus ESTUPRADORES? Como elas - nós - aprendemos a fazer isso, se já desde a adolescência, a centralidade do nosso afeto e do nosso desejo sexual se desdobra sobre as mulheres, sobre o corpo e o sexo feminino?
Eu vivi 25 anos sob heterossexualidade compulsória, como sempre deixo claro aqui. Durante esse período, eu me apaixonei, amei e tive prazer sexual em relacionamentos héteros. E eu não pretendo esconder isso de ninguém por conta do risco de ter minha sexualidade lésbica negada ou deslegitimada por outras lésbicas, mas, ao contrário, eu quero falar sobre isso, pra que mais mulheres que estejam em lugares semelhantes ao meu, passando por processos parecidos com os meus, possam se reconhecer nas minhas histórias e possam tecer suas próprias compreensões sobre si mesmas e suas sexualidades, e compreender que, assim como eu, podem estar sendo vítimas de uma sociedade que ensina mulheres a amarem e erotizarem o macho, a violência, a dominação, o estupro, a negação da sexualidade lésbica, uma sociedade que impõe às mulheres, como sinônimo da própria mulheridade, a heterossexualidade.
Foi um processo muito longo até eu entender isso. Foram 25 anos desde que desejei pela primeira vez alguém, e ela era uma menina, aos 12 anos, até eu me assumir lésbica aos 38 anos. Foram 25 anos até eu compreender que o que senti por homens sempre foi muito diferente do que o que senti por mulheres. Que o que me foi ensinado a chamar de "amor" e "paixão" em relacionamentos heterossexuais é, na verdade, submissão, dependência emocional, autoestima destruída e manipulada por homens. foram 25 anos até eu entender que o afeto por mulheres - que nunca me foi permitido desenvolver plenamente, e por isso mesmo era mais fácil que eu fosse convencida de que "amor" e "desejo" eram o que eu sentia pelos homens - se dava de forma muito diferente. Foram 25 anos até eu entender a dinâmica daquilo o que eu sentia por homens e que fui ensinada a chamar de amor, paixão, desejo. Foram 25 anos até eu entender que aquilo que o patriarcado me ensinou a chamar de amor sempre foi a minha submissão a eles e a romanização da minha submissão, a romantização da minha destruição, da minha dependência emocional. Foram 25 anos até eu entender que podemos sim gostar da violência que se impõe contra nós quando somos adoecidas e enfraquecidas de tal forma em nossas existências, nossas autoimagens, nossas identidades, nossas autoestimas a ponto de achar que essa violência é tudo a que temos direito numa sociedade em que homens são seres superiores, seres humanos e mulheres são inferiores, são objetos. Foram 25 anos até eu entender que estava adoecida de tal forma pela heterossexualidade que aprendi a chamar de amor/paixão/desejo a minha própria submissão. Foram 25 anos até eu entender que o amor poderia estar exatamente naquele lugar que eu tentei abandonar aos 12 anos e neguei por toda minha vida, até aqui. E, então, quando eu entendi isso, eu simplesmente perdi o interesse por homens e libertei o meu amor lésbico de toda culpa que eu carregava por senti-lo!
Como eu consegui isso?
Refletindo. Sofrendo. SOFRENDO MUITO. Em silêncio (um silêncio pelo qual gostaria que vocês não passassem, por isso quero falar sobre isso agora com vocês), sozinha, afundada em sentimentos e reflexões. Escarafunchando minhas memórias, meu corpo, meu desejo, minhas reações, meus medos, e pensando, pensando, pensando sobre essas coisas profundamente. Mas, sobretudo, pensando nisso com honestidade, sem medo, com muita coragem de enfrentar o que viesse, o que fosse, de enfrentar o fato de que eu podia ser lésbica, e que isso iria me trazer problemas, rejeição, medo, que eu teria que enfrentar minha família, amigos, sociedade, que, depois de 25 anos sendo socialmente reconhecida como heterossexual e circulando bem em alguns espaços sociais graças a isso, que eu teria muitas portas fechadas, muitas negativas, muitos problemas a enfrentar. Pensando com honestidade na possibilidade de eu verdadeiramente ser lésbica e em não rechaçá-la, mas enfrentar isso. E quando eu decidi ter essa honestidade comigo mesma, minha lesbianidade se libertou. Ela saltou do meu peito e do meu sexo tão violentamente que foi impossível pra mim tornar a negá-la, porque ela passou a ser quem eu sou. Quando eu resolvi enfrentar a lesbofobia dentro de mim, a lesbofobia internalizada dentro de mim e que me impedia de ser a lésbica que eu sou, a minha lesbianidade brotou imperiosa de dentro de mim, como o ramo verde que brota imperioso da fresta da rocha.
Eu consegui isso refletindo e sofrendo, debruçada em memórias, em sentimentos, em vergonhas, debruçada sobre meu próprio corpo de mulher, sobre meu sexo, sobre meus gestos, meus gostos, meus motivos, minhas razões, pensando sobre meus relacionamentos abusivos, sobre como eu me sentia quando ficava com homens, sobre como eu me comportava quando estava em relacionamentos heterossexuais, sobre o que representava a figura masculina pra mim, desde meu tio abusador, passando por meu pai e todos os namorados que tive, pensando sobre como sempre me senti diferente na presença e na interação com homens e com mulheres. Não foi um processo imediato, de um ou dois dias, nem de semanas... Foi um processo muito lento, de quase dois anos, desque - ainda sem pensar na possibilidade de ser lésbica, mas apenas querendo evitar repetir padrões de relacionamentos abusivos com homens - eu comecei a questionar o que me atraia na masculinidade, já que ela sempre me machucava tanto. Ou, antes disso, três anos antes disso, quando terminei um dos relacionamentos mais abusivos que vivi e decidi que iria permanecer sozinha até compreender por que fazia aquilo comigo, por que me colocava naquelas situações, como poderia amar homens se eles me magoavam, me adoeciam, me entristeciam, me machucavam e, muitas vezes, me destruiam profundamente.
Eu fui pensando, refletindo, examinando, eu mergulhei dentro de mim, profunda e dolorosamente, e eu enxerguei a minha lesbofobia, meus medos, toda misoginia introjetada em mim por uma sociedade que me impõe a heterosexualidade como única possibilidade de SER e que me diz que lésbicas são lixo - quem quer ser lixo, não é mesmo? Eu não queria. Eu mergulhei em mim tão profundamente e tão dolorosamente que, por vezes, achei que não fosse suportar - ansiedade, pânico, depressão, e o aperto no peito e a falta de ar são sintomas comuns a quem está se afogando em si mesma. Mas eu consegui subir à superfície de novo, eu voltei, eu peguei a moedinha de ouro jogada no fundo do poço e subi. E respirei aliviada. E quando respirei, eu já estava apaixonada por quem eu era, eu já estava apaixonada e orgulhosa por ser lésbica por ser quem eu era, por ter enfrentado tudo isso pra ser quem eu era; e já estava apaixonada pelas mulheres, porque eu sei que elas, cada uma delas, também mergulha em seus poços escuros e sufocantes, nos poços em que são confinadas, em que são jogadas pra se afogar, elas estão lá, mergulhadas, assim como eu, tentando encontrar a moedinha e subir à superfície e respirar (nadem até o fundo antes de tentar chegar à superfície!), e isso me apaixona nelas, muito antes de eu entender, isso já me apaixonava nelas, porque a gente nada e mergulha juntas, o tempo todo, de mãos dadas, atreladas umas às outras, embora muitas vezes nem percebamos isso, porque o poço é escuro.
Então, eu me afirmo lésbica agora porque, apesar de tudo, eu amo profundamente ser lésbica, porque ser lésbica é o que eu sou, é quem eu sou e eu não quero e não tenho mais como negar isso. Eu sou lésbica porque eu amo profundamente amar mulheres, eu não tenho nenhum interesse por homens, porque meu afeto e desejo está centrado em mulheres. Eu sou lésbica porque amo mulheres. <3
Se você acha que é lésbica, se tem essa dúvida, se desconfia disso, se esse pensamento já rondou sua cabeça, seus sentimentos, suas reflexões, não perca tempo, não se demore, mergulhe fundo e se encontre. A vida passa muito rápido, não perca seu tempo. Seja feliz amando mulheres e não tenha medo de enfrentar isso, porque apesar das dificuldades, você não tá sozinha, como eu não estou. Somos muitas. E nossas histórias se tocam, e nosso amor por mulheres nos une, em diversos espaços, atravessando a história. <3
Amar mulheres é lindo, é poderoso, é potente e é muito feliz. Não tenha medo. Se entregue. <3
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Olá, Ana! Belo texto. Gostaria de te agradecer pelo mesmo. Muito mesmo. Abraço
ResponderExcluirLua
Oi Ana maravilhoso seu texto sua corajosa ♡
ResponderExcluirObrigada a vocês pelo retorno! O reconhecimento de vcs é muito importante pra mim! <3
ResponderExcluirGratidão por existir
ResponderExcluirE por escrever lindamente esse blog
Maravilhosa
Ah, que mulher mais maravilhosa. Cê escreve tão bem e tem tanto a escrever.
ResponderExcluirPalavras importantes demais. Só tenho a agradecer.
Obrigada por existir, resistir e insistir em ser quem é.
<3