quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A OPRESSÃO PATRIARCAL É SOBRE OS CORPOS DO SEXO FEMININO

Sobre a materialidade incisiva da violência patriarcal sobre os corpos das mulheres. E sobre corpos materiais de mulheres como resistência à ela.

É incrível como eu preciso desse corpo que resiste à objetificação masculina pra ser quem eu sou. Esse corpo que tem pelos, o corpo com gestos que não se infantilizam, a voz grave sem abrandamentos ou leves falsetes, a postura segura e forte, que não se crê presa, a cara limpa sem artifícios e alegorias desumanizantes, as vestes tranquilas e confortáveis que meu corpo merece. É incrível como eu me reconheço lésbica cada vez mais nesse corpo e como ele se transforma quanto mais eu me reconheço nele. E como eu gosto dele nesse processo, e como eu gosto de mim. E como me aceitar lésbica reconstrói fortemente e ao mesmo tempo a minha autoimagem e a minha autoestima.

Essa sou eu, esse é o meu corpo,


 
e, pela primeira vez na vida, eu gosto profundamente de quem eu sou. Me aceitar lésbica tem me curado.


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA E SOFRIMENTO PSÍQUICO DE MULHERES

Deixa contar uma coisa pra vocês: ser lésbica e viver sob heterossexualidade compulsória adoece. Causa ansiedade, pânico, depressão. Ser lésbica e ter uma situação econômica razoável, uma condição material confortável, uma família amorosa, amigos afetuosos e um namoro/casamento heterossexual bacana, enfim, uma vida "legal", ainda sim adoece, causa transtornos, depressão, sofrimento.

Transtornos psíquicos e doenças psicossomáticas podem ter uma causa: a repressão da sua lesbianidade.

Eu vivi isso por muitos anos, crises de ansiedade fortíssimas, depressão, pânico, bronquite, sem entender direito o que me afligia. Me compreender lésbica tem me curado.

Mergulhem nos próprios sentimentos, mergulhem nas memórias do passado, observem as reações do seu corpo, reflita, analise, sinta, se compreenda. Não tenha medo de se encontrar, não tenha medo de ser lésbica. Não é fácil, mas é lindo e muito potente e importante. <3

Não perca tempo. A gente só tem uma vida.

NOTAS SENTIMENTAIS ACERCA DE MULHERES EM RELACIONAMENTOS HETEROSSEXUAIS

Eu queria muito que as mulheres em relacionamentos heterossexuais ouvissem a si próprias, ouvissem o que falam sobre si, sobre seus homens, sobre seus relacionamentos heterossexuais, porque parece que elas falam, falam, falam, mas não se ouvem.

Ouçam suas próprias palavras, manas, ouçam cada uma delas, ouçam a forma como vocês narram, a forma como vocês selecionam e organizam as suas próprias palavras, as suas narrativas, porque elas são incrivelmente reveladoras.

<3

COMO TIVE A CERTEZA?



Muitas minas, principalmente as que tem ou já tiveram experiências bissexuais, têm me procurado depois de ler meus escritos aqui e no Face e frequentemente me questionam sobre como consegui concluir que era lésbica e romper definitivamente com a ideia de que poderia ser bissexual, já que eu já admiti ter me relacionado e, até mesmo, ter gostado e me apaixonado por homens.

Sim, eu gostava de me relacionar com homens, e há pouco tempo estive envolvida em uma discussão polêmica sobre isso no Face, justamente porque falei que gostei, que gostava de homens, que me apaixonei, desenvolvi afeto e até mesmo cheguei a sentir prazer sexual em relacionamentos heterossexuais, em relacionamentos com homens. E muitas mulheres me condenaram, me corrigiram, me disseram sobre os perigos de admitir que eu tinha gostado de homens e de sexo heterossexual e me disseram que eu deveria usar a expressão "acreditava que" antes de "gostava", de forma que ficasse clara a ideia de que eu não gostei realmente de homens o tempo que estive em heterossexualidade compulsória, mas que era uma crença falsa esse amor. Oras, se alguma de vocês disser à uma lésbica em heterossexualidade compulsória hoje que ela "acredita" que gosta do homem com quem se relaciona, ela vai, no mínimo, rir de você, ou se magoar e ofender muito por teus seus sentimentos deslegitimados. Assim como eu - que hoje não tenho sombra de dúvida sobre a minha lesbianidade - riria, na ocasião de estar me relacionando com eles, se alguém me dissesse que não gostava de verdade, mas que "achava" que gostava. Não, a gente não "acha", não "acredita" que gosta não, a gente gosta mesmo, a gente tem a plena certeza disso. A compreensão sobre como esse "gostar" é imposto e construído através da violência e da redução de nossa existência, do sequestro de nossos afetos e da nossa sexualidade é uma compreensão posterior, é uma compreensão que a gente só tem, só pode ter, quando passa a se aceitar como lésbica, a aceitar a própria sexualidade, tão violentamente negada por nós mesmas a ponto de nós desenvolvermos afeto e erotizarmos aqueles que vão nos manter nessa prisão. Então, não é tão simples a questão ao ponto de ser resolvida colocando-se uma expressão à frente de uma palavra, não é uma questão de sintaxe, ou de gramática, é uma questão muito mais profunda. Diga àquela mulher que te confidenciou que se apaixonou pela primeira vez na vida por uma menina, que teve seu primeiro beijo com uma menina, que sempre amou meninas, que nunca se sentiu confortável com o sexo masculino, mas que, agora, encontrou um homem especial e maravilhoso, uma exceção a todos os outros, que a faz feliz e que a ama, e que ela ama e deseja também, diga a essa mulher, por mais que você consiga enxergar claramente a condição lésbica dela e o processo violento de heterossexualização pelo qual ela está passando, diga a ela que você acha que ela não ama o cara, que, na verdade, ela apenas "acredita" que ama, e veja essa mulher se ofender, se magoar e se sentir totalmente deslegitimada pra falar dos próprios sentimentos. Não é mentira dela, não é uma crença, ela realmente pode amar esse homem, porque ela foi ensinada a fazê-lo porque dentro das possibilidades que ela tinha de ser heterossexual, pra sobreviver, pra ser aceita, pra ser amada, esse homem foi o melhor pra ela, foi aquele a quem ela foi capaz de dedicar algum amor, ainda que ela seja lésbica. Lésbicas em heterossexualidade compulsória também querem ser amadas, também querem doar amor, e encontram formas pra isso, dentro das possibilidades que lhes são oferecidas.

Agora, a pergunta que deve realmente ser feita é a seguinte: porque lésbicas [ou mulheres de uma forma geral] aprendem a amar seus opressores? - na verdade, especialmente em se tratando de lésbicas, seus ESTUPRADORES? Como elas - nós - aprendemos a fazer isso, se já desde a adolescência, a centralidade do nosso afeto e do nosso desejo sexual se desdobra sobre as mulheres, sobre o corpo e o sexo feminino?

Eu vivi 25 anos sob heterossexualidade compulsória, como sempre deixo claro aqui. Durante esse período, eu me apaixonei, amei e tive prazer sexual em relacionamentos héteros. E eu não pretendo esconder isso de ninguém por conta do risco de ter minha sexualidade lésbica negada ou deslegitimada por outras lésbicas, mas, ao contrário, eu quero falar sobre isso, pra que mais mulheres que estejam em lugares semelhantes ao meu, passando por processos parecidos com os meus, possam se reconhecer nas minhas histórias e possam tecer suas próprias compreensões sobre si mesmas e suas sexualidades, e compreender que, assim como eu, podem estar sendo vítimas de uma sociedade que ensina mulheres a amarem e erotizarem o macho, a violência, a dominação, o estupro, a negação da sexualidade lésbica, uma sociedade que impõe às mulheres, como sinônimo da própria mulheridade, a heterossexualidade.

Foi um processo muito longo até eu entender isso. Foram 25 anos desde que desejei pela primeira vez alguém, e ela era uma menina, aos 12 anos, até eu me assumir lésbica aos 38 anos. Foram 25 anos até eu compreender que o que senti por homens sempre foi muito diferente do que o que senti por mulheres. Que o que me foi ensinado a chamar de "amor" e "paixão" em relacionamentos heterossexuais é, na verdade, submissão, dependência emocional, autoestima destruída e manipulada por homens. foram 25 anos até eu entender que o afeto por mulheres - que nunca me foi permitido desenvolver plenamente, e por isso mesmo era mais fácil que eu fosse convencida de que "amor" e "desejo" eram o que eu sentia pelos homens - se dava de forma muito diferente. Foram 25 anos até eu entender a dinâmica daquilo o que eu sentia por homens e que fui ensinada a chamar de amor, paixão, desejo. Foram 25 anos até eu entender que aquilo que o patriarcado me ensinou a chamar de amor sempre foi a minha submissão a eles e a romanização da minha submissão, a romantização da minha destruição, da minha dependência emocional. Foram 25 anos até eu entender que podemos sim gostar da violência que se impõe contra nós quando somos adoecidas e enfraquecidas de tal forma em nossas existências, nossas autoimagens, nossas identidades, nossas autoestimas a ponto de achar que  essa violência é tudo a que temos direito numa sociedade em que homens são seres superiores, seres humanos e mulheres são inferiores, são objetos. Foram 25 anos até eu entender que estava adoecida de tal forma pela heterossexualidade que aprendi a chamar de amor/paixão/desejo a minha própria submissão. Foram 25 anos até eu entender que o amor poderia estar exatamente naquele lugar que eu tentei abandonar aos 12 anos e neguei por toda minha vida, até aqui. E, então, quando eu entendi isso, eu simplesmente perdi o interesse por homens e libertei o meu amor lésbico de toda culpa que eu carregava por senti-lo!

Como eu consegui isso?

Refletindo. Sofrendo. SOFRENDO MUITO. Em silêncio (um silêncio pelo qual gostaria que vocês não passassem, por isso quero falar sobre isso agora com vocês), sozinha, afundada em sentimentos e reflexões. Escarafunchando minhas memórias, meu corpo, meu desejo, minhas reações, meus medos, e pensando, pensando, pensando sobre essas coisas profundamente. Mas, sobretudo, pensando nisso com honestidade, sem medo, com muita coragem de enfrentar o que viesse, o que fosse, de enfrentar o fato de que eu podia ser lésbica, e que isso iria me trazer problemas, rejeição, medo, que eu teria que enfrentar minha família, amigos, sociedade, que, depois de 25 anos sendo socialmente reconhecida como heterossexual e circulando bem em alguns espaços sociais graças a isso, que eu teria muitas portas fechadas, muitas negativas, muitos problemas a enfrentar. Pensando com honestidade na possibilidade de eu verdadeiramente ser lésbica e em não rechaçá-la, mas enfrentar isso. E quando eu decidi ter essa honestidade comigo mesma, minha lesbianidade se libertou. Ela saltou do meu peito e do meu sexo tão violentamente que foi impossível pra mim tornar a negá-la, porque ela passou a ser quem eu sou. Quando eu resolvi enfrentar a lesbofobia dentro de mim, a lesbofobia internalizada dentro de mim e que me impedia de ser a lésbica que eu sou, a minha lesbianidade brotou imperiosa de dentro de mim, como o ramo verde que brota imperioso da fresta da rocha.

Eu consegui isso refletindo e sofrendo, debruçada em memórias, em sentimentos, em vergonhas, debruçada sobre meu próprio corpo de mulher, sobre meu sexo, sobre meus gestos, meus gostos, meus motivos, minhas razões, pensando sobre meus relacionamentos abusivos, sobre como eu me sentia quando ficava com homens, sobre como eu me comportava quando estava em relacionamentos heterossexuais, sobre o que representava a figura masculina pra mim, desde meu tio abusador, passando por meu pai e todos os namorados que tive, pensando sobre como sempre me senti diferente na presença e na interação com homens e com mulheres. Não foi um processo imediato, de um ou dois dias, nem de semanas... Foi um processo muito lento, de quase dois anos, desque - ainda sem pensar na possibilidade de ser lésbica, mas apenas querendo evitar repetir padrões de relacionamentos abusivos com homens - eu comecei a questionar o que me atraia na masculinidade, já que ela sempre me machucava tanto. Ou, antes disso, três anos antes disso, quando terminei um dos relacionamentos mais abusivos que vivi e decidi que iria permanecer sozinha até compreender por que fazia aquilo comigo, por que me colocava naquelas situações, como poderia amar homens se eles me magoavam, me adoeciam, me entristeciam, me machucavam e, muitas vezes, me destruiam profundamente.

Eu fui pensando, refletindo, examinando, eu mergulhei dentro de mim, profunda e dolorosamente, e eu enxerguei a minha lesbofobia, meus medos, toda misoginia introjetada em mim por uma sociedade que me impõe a heterosexualidade como única possibilidade de SER e que me diz que lésbicas são lixo - quem quer ser lixo, não é mesmo? Eu não queria. Eu mergulhei em mim tão profundamente e tão dolorosamente que, por vezes, achei que não fosse suportar - ansiedade, pânico, depressão, e o aperto no peito e a falta de ar são sintomas comuns a quem está se afogando em si mesma. Mas eu consegui subir à superfície de novo, eu voltei, eu peguei a moedinha de ouro jogada no fundo do poço e subi. E respirei aliviada. E quando respirei, eu já estava apaixonada por quem eu era, eu já estava apaixonada e orgulhosa por ser lésbica por ser quem eu era, por ter enfrentado tudo isso pra ser quem eu era; e já estava apaixonada pelas mulheres, porque eu sei que elas, cada uma delas, também mergulha em seus poços escuros e sufocantes, nos poços em que são confinadas, em que são jogadas pra se afogar, elas estão lá, mergulhadas, assim como eu, tentando encontrar a moedinha e subir à superfície e respirar (nadem até o fundo antes de tentar chegar à superfície!), e isso me apaixona nelas, muito antes de eu entender, isso já me apaixonava nelas, porque a gente nada e mergulha juntas, o tempo todo, de mãos dadas, atreladas umas às outras, embora muitas vezes nem percebamos isso, porque o poço é escuro.

Então, eu me afirmo lésbica agora porque, apesar de tudo, eu amo profundamente ser lésbica, porque ser lésbica é o que eu sou, é quem eu sou e eu não quero e não tenho mais como negar isso. Eu sou lésbica porque eu amo profundamente amar mulheres, eu não tenho nenhum interesse por homens, porque  meu afeto e desejo está centrado em mulheres. Eu sou lésbica porque amo mulheres.  <3

Se você acha que é lésbica, se tem essa dúvida, se desconfia disso, se esse pensamento já rondou sua cabeça, seus sentimentos, suas reflexões, não perca tempo, não se demore, mergulhe fundo e se encontre. A vida passa muito rápido, não perca seu tempo. Seja feliz amando mulheres e não tenha medo de enfrentar isso, porque apesar das dificuldades, você não tá sozinha, como eu não estou. Somos muitas. E nossas histórias se tocam, e nosso amor por mulheres nos une, em diversos espaços, atravessando a história. <3

Amar mulheres é lindo, é poderoso, é potente e é muito feliz. Não tenha medo. Se entregue. <3



domingo, 14 de agosto de 2016

PEQUENAS NOTAS SENTIMENTAIS ACERCA DA MINHA HETEROSSEXUALIDADE

Eu me relacionei com homens durante mais de 25 anos, e tive alguns namoros longos, de 3/4/5 anos. Eu nunca chamei nenhum namorado de "meu amor". NUNCA. Sei lá, simplesmente essas palavras não saiam.

Eu nunca gostei de andar de mãos dadas com eles na rua. Eu evitava e, quando eles conseguiam, eu esperava um tempo e me desvencilhava. Me dava uma sensação estranha estar presa pelas mãos daquela forma a um homem.

domingo, 7 de agosto de 2016

NEGANDO A PRÓPRIA SEXUALIDADE

Durante a minha infância e adolescência eu fui muito insubmissa ao gênero feminino: eu brincava com guris, me machucava, subia em árvores, aos 13/14 anos fui patinar no clube, a maioria dos patinadores era de rapazes, eu andava com eles, levava tombos, vivia roxa... usava roupas largas, sapatos brutos, usei os cabelos muito curtos ou raspados durante boa parte da adolescência, e  olhar as mulheres me causava um sentimento estranho, que eu não sabia nomear como desejo, embora algumas vezes tenha me perguntado "Será que sou sapatão?". Mas eu não queria ser sapatão, sapatão não era legal, muita gente já havia me avisado.

Eu nunca olhei para o corpo masculino com desejo. Nunca. Mas eu aprendi a me excitar com os estímulos sexuais de homens. Eu fui obrigada a aprender, pra ser aceita, pra ser amada, pra ser normal, pra ser mulher, pra sobreviver. Eu nunca olhei o corpo masculino com desejo e, por isso mesmo, eu aprendi que desejo era essa falta do desejo no olhar, e que o que eu sentia ao olhar as mulheres era outra coisa - abominável - qualquer. Aprendi que, para a mulher, o desejo é essa falta de desejo e que o que eu sentia ao olhar pra outras mulheres não era desejo, podia ser condenável até, caso persistisse, se se desdobrasse. Aprendi que a submissão é o desejo da mulher.

Pois bem, eu nunca olhei com desejo o corpo de um homem, mas por volta dos 12 anos eu já tinha dado meu primeiro beijo na boca (e senti um constrangimento imenso ao beijar pela primeira vez um homem), tive alguns ficantes e, então, às vésperas de completar 13 anos eu já tinha conseguido o meu "primeiro namorado".

Até os 16/17 anos eu tive apenas uns flertes e namoricos com meninos, mas eu realmente não tinha nenhum interesse real em me relacionar seriamente com eles, eu apenas ficava com um e com outro, aqui e ali, nas festinhas e passeios adolescentes. Não havia compromisso, no entanto, já existia nisso o aprendizado. E o aprendizado pra heterossexualidade se dá gradualmente: primeiro fui impedida de nomear meu desejo pelas mulheres, depois aprendi que minha falta de desejo por homens é que era desejo, e que eu tinha que  me submeter a ela porque era bom, porque era isso que faria de mim uma mulher plena, feliz e realizada. E então eu fui aprendendo também, enquanto flertava e ficava descompromissadamente com meninos, que havia coisas que eu precisava fazer pra que eles me desejassem e quisessem ter um compromisso comigo, porque ser desejada pelo sexo masculino também era uma coisa que faria de mim  uma mulher, uma boa mulher, e pra isso eu não podia mais me comportar e me vestir como eu fazia, porque quando se é criança ainda pode ser tolerado, mas quando se passa a cobiçar ser desejada por homens, não se pode mais: então, eu tinha que usar apetrechos pendurados nas orelhas, nos braços, no cabelo; eu tinha que mudar minhas roupas, minha aparência, meus hábitos, meu comportamento - "Você está horrorosa com a cabeça raspada assim!", "Você parece um menino com essa calça! Nenhum garoto vai querer ficar com você!", "Você é muito bruta, moças precisam ser delicadas! "Fecha as pernas!" "Faça as unhas", "Bota um brinco", "Passe um batonzinho nessa cara!", "Olha esses joelhos ralados, porque você não para com esse patins? Mulher com perna toda manchada é muito feio!". Eu tinha que crescer: deixar de ser uma criança "moleca" e me transformar em uma mulher, evoluir, progredir, amadurecer: existir pra servir aos homens. E fui aprendendo, da mesma forma, que ser mulher era o meu destino, e que ser mulher era ser limitada, reduzida, incapacitada, domesticada, aprisionada, enfeitada, delicada, fragilizada, artificializada, e que eu era uma mulher, e que, portanto, eu era isso, eu só podia ser isso, porque isso é ser uma mulher.

Não foi difícil começar a idolatrar os homens. Eles eram fantásticos. Podiam tudo que eu desejava: cabelos curtos, roupas confortáveis, podiam andar de patins!, podiam ir aonde quisessem, a hora que quisessem ("Você não vai porque é perigoso, você é uma menina/moça!). E nas músicas e filmes eles eram o máximo: andavam de moto, dirigiam caminhões, viajavam solitários, bebiam sozinhos em bancadas de bar, tomavam as mulheres que queriam como se elas fossem presas e eles caçadores corajosos e incríveis, também as largavam por novas conquistas a hora que quisessem. E ser mulher era aquilo em que eu estava me transformando: ter medo, não poder, não fazer, ser tola, débil, mas ser bonita e desejável para homens - em todo filme, em toda literatura, em toda música, ser mulher era isso. E nos filmes e músicas éramos sempre as presas, frágeis, dóceis, domesticadas e descartáveis. Quando não isso, as donas de casa, as serviçais cheias de filhos que viviam entre o fogão, a pia e a cama para agradar seus maridos. Então, já que eu não podia ser um homem, já que eu não havia nascido com essa sorte entre as pernas, só me restava adorá-los.

Foi igualmente fácil odiar as mulheres. Mulheres eram horríveis. E por muitas vezes eu sonhei ser um homem, eu desejei muitas vezes ter nascido homem. Mas eu não nasci. Eu nasci com uma vagina, e essa marca maldita no meio das minhas pernas era determinante, berrava a todos e fazia todos berrarem de volta pra mim, que eu era uma mulher. Então, meu ódio por mulheres se concretizou entranhado à minha idolatria por homens: ao passo em que me feminilizava, porque não tinha jeito, esse era o caminho natural pra ser aceita, amada, desejada, pra ser mulher, eu passava a desprezar tudo que era produzido por outras mulheres: músicas, filmes, literatura, artes,a própria representação do feminino, as próprias mulheres... nada dessas coisas me interessava, porque os homens é que eram incríveis. Mulheres eram chatas, desinteressantes e entediantes. Eu assistia os grandes filmes produzidos pelos grandes machos do cinema, eu conhecia suas teorias, suas literaturas, eu cantava de cor as suas músicas sobre liberdade, sobre masculinidade, sobre virilidade e sobre o enorme desprezo masculino às mulheres. Eu conhecia Woody Allen, Felini, Almodóvar, Dostoievski, Picasso, Delacroix, Marx, Foucault... eu achava que essas coisas produzidas por eles também diziam respeito à mim, que elas falavam sobre "o ser humano", esse "ser humano" dono de tudo, dono do mundo, esse "ser humano" maravilhoso - e eu acreditava que eu também fazia parte delas... eu cantava alto e forte nos shows de rock:

You need cooling
Baby, I'm not fooling
I'm gonna send, yeah
You back to schooling
Way down inside
Honey, you need it
I'm gonna give you my loveI'm gonna give you my love
Way, way down inside
I'm gonna give you my love
I'm gonna give you
Every inch of my love, gonna give you my love

[Você precisa se acalmar
Garota, eu não estou brincando
Eu vou mandar, sim
Você de volta à escola
Lá no fundo
Querida, você precisa disso
Eu vou te dar o meu amor
Eu vou te dar o meu amorLá no fundo
Eu vou te dar o meu amor
Eu vou te dar
Cada centímetro do meu amor, vou te dar o meu amor]


Eu lia, cantava, apreciava coisas que nunca disseram respeito a mim, à minha vida, à minha condição de mulher. Filmes, escrituras e canções que celebravam um  mundo do qual eu não fazia parte senão como presa, como escrava doméstica ou sexual, como alegoria ou enfeite, onde o que é representado era nada mais que a minha servidão ao homem, celebrada, normatizada, naturalizada. Mas eu também aprendi que gostar dessas coisas era importante. Além de ter sido convencida que elas falavam sobre mim, saber sobre elas me dava um status a mais: os homens me faziam crer que, ao exaltá-los dessa forma, ao exaltar e celebrar suas produções e celebrar seu imenso falocentrismo e desprezo pelas mulheres, eu estava num patamar acima de todas as outras, eu era uma mulher especial. E já que eu não podia ser um homem, achei ótimo ser uma mulher especial. E me especializei nisso. Me especializei profundamente: fui descobrindo que se eu celebrasse não apenas as músicas, filmes e produções de exaltação da virilidade e masculinidade dos homens, mas me tornasse, eu mesma um veículo dela, eu seria ainda mais especial. E ser especial, pra mim, era importante, porque eles me diziam que eu era quase como um deles. Então eu fui sendo ensinada que mais especial eu seria quanto mais eu permitisse a eles exercer suas masculinidades sobre meu corpo, quanto mais eu celebrasse não só seus filmes, livros, músicas, mas também o seu desejo e a sua sexualidade, de preferência sobre o meu próprio corpo. E me diziam que mais especial eu seria quanto mais eles me desejassem. Me diziam que me admirar eles já admiravam, afinal, eu conhecia e celebrava a música deles, os filmes deles, a literatura deles... mas era preciso mais: era preciso que eu celebrasse o sexo e o desejo deles não só sobre as mulheres de uma forma geral, mas sobre mim, sobre o  meu próprio sexo, sobre o meu corpo. Se eu fizesse isso, eu seria muito especial mesmo. Melhor que todas as outras mulheres, melhor que as suas namoradas chatas e caretas, melhor que as donas de casa "gordas, feias e acabadas", e, ainda: melhor do que as prostitutas que eles "apreciam" tanto a ponto de chegar a pagar por elas, porque além de foder loucamente como elas, eu ainda era inteligente e culta, eu conhecia a arte dos homens, a música dos homens, a virilidade dos homens contada e exaltada em toda produção artística ocidental. E, então, eu me tornei muito especial mesmo: eu tive meu corpo e minha sexualidade domesticada até que eles pudessem me colocar em sexo arriscado, em sexo violento, em situações de risco, de dor, de medo, e assim eu ia sendo estuprada, violada, agredida; assim eu fui machucada, eu fui destruída sexual e emocionalmente - e, segundo eles, assim eu ia sendo uma mulher incrível, muito especial, muito melhor do que todas as outras.

Durante esse processo, meu desejo por mulheres foi ficando escondido, soterrado. Foi sendo reprimido, sufocado, esmagado, aniquilado.  Eu não queria ser uma mulher fútil, frágil e burra. Eu não queria ser uma dona de casa gorda, feia e acabada. Mas, tampouco, eu queria ser uma sapatão, uma fancha, uma caminhoneira, uma Maria João, uma abominação. Eu queria ser especial, eu queria muito ser bonita e especial. Assim fui gradualmente me feminilizando ao mesmo passo em que se introjetavam  em mim, construindo minha personalidade, meus afetos, emoções e minhas sociabilidades, a misoginia, a lesbofobia, o falocentrismo, a idolatria por homens e produções masculinas e falocentradas. Esse não foi um processo de 1 ou 2 anos. Esse foi o processo de uma vida inteira. Lento. Pedagógico. Progressivo. Violento. Um processo que começou na infância, se intensificou com um abuso sexual infantil identificado aos 11 anos, um processo contra o qual eu ainda luto, aos 38 anos de idade, na tentativa de entender quem eu sou e o que me foi roubado, entender o sequestro de minhas emoções, da minha psiquê e da minha sexualidade pelo patriarcado, por homens, pela heterossexualidade, pelo regime político e ideológico da heterossexualidade.

Nesse processo, era mais que necessário que eu reprimisse meu desejo lésbico. Reprimir mesmo, com força, vigor, rejeitá-lo fortemente, negá-lo, aniquilá-lo. Mas a gente não rejeita e não nega o que não está lá, não é mesmo? E ele estava. No meu olhar pras mulheres, na minha vontade de ver o corpo delas, de entender que corpo era aquele que eu não devia acessar. "Curiosidade!" Era só curiosidade, eu repetia, outros me repetiam. E como eu havia me tornado uma mulher muito livre e desencanada - uma mulher muito especial, mais especial que todas as outras! - eu podia me dar o direito de ser "bissexual" de vez em quando. Eu podia me dar o direito de ser bissexual principalmente quando isso agradava a algum homem que estivesse comigo. E eu fui bissexual algumas vezes. Eu era descolada, livre, eu podia ter sexo com mulheres, mas eu precisava repetir firmemente pra mim, toda vez, muitas vezes, durante muitos anos, durante duas décadas, que eu até gostava de sexo com mulheres, mas que eu preferia homens, que eu adorava homens, que eu amava paus, e que sexo com mulheres até poderia ser legal, mas sempre estaria "faltando alguma coisa" (me desculpem, mulheres, por essas coisas horríveis que fiz, e me desculpem por contá-las, mas eu preciso narrá-las, eu não tenho orgulho nenhum das coisas que fiz, mas eu preciso narrar pra que outras mulheres se vejam em minhas histórias, se reconheçam nelas e parem de fazer essas coisas também), que eu até podia fazer sexo com mulheres - como fiz algumas vezes - mas que eu me apaixonava de verdade era por homens, porque eles eram incríveis, fortes, vigorosos, corajosos, e as mulheres eram desinteressantes, fracas, débeis, chatas, grudentas e às vezes até insuportáveis. Eu até podia fazer sexo com elas, mas eu não podia me apaixonar por elas, eu só me apaixonava por homens porque eles eram muito melhores que elas, mas, sobretudo, porque homens tinham pau! E eu amava pau - repetia, repetia, repetia. E as mulheres tinham aquelas coisas incompletas e banais no meio das pernas - aquela "coisa" que eu fui a vida toda ensinada a odiar, junto ao ódio por cada aspecto da condição feminina imposta pelo patriarcado às pessoas do sexo feminino pra transformá-las em "mulher".

E assim foi. E foi por muito tempo. E eu tive muitos namorados. E muitos "peguetes". Namoros longos e muitas "aventuras" sexuais, sempre me submetendo - porque eu aprendi que desejo tinha a ver não com o que eu sentia ao olhar as mulheres, mas com a submissão a que a falta de desejo pelos homens, somada à obrigação introjetada da heterossexualidade, me empurrava. Sempre repetindo incansavelmente pra mim mesma, pras amigas, pros homens com quem saía, pras pessoas com quem falava mais abertamente sobre sexo, que eu era "bissexual" às vezes, que era uma mulher livre e por isso fazia sexo com outras mulheres, mas nunca me apaixonaria por elas, porque eu amava muito os homens, eu amava muito, eu adora, eu venerava o pau. E que eu era uma mulher muito especial, muito melhor do que as outras, que eles sempre me diziam isso!

Algumas vezes eu gostei muito de estar com essas mulheres com quem fiz sexo. Uma vez, em especial, uma delas era minha amiga. Uma melhor amiga. Uma mulher com quem eu queria estar todo o tempo, com quem eu adorava sair, de quem eu sentia saudades, com quem eu queria dividir tudo: meus momentos, minhas alegrias, tristezas, minhas coisas, meu afeto - como deve ser com uma melhor amiga, pensava. E ela estava o tempo todo comigo, e sempre que podia a gente fazia tudo juntas, tudo, festas, cinema, conversas, bares, confissões, alegrias, problemas, estavamos sempre jnutas. Eu deixava de sair com meu namorado às vezes e ela com o dela, ou a gente se encontrava nos períodos livres, à tarde, depois da faculdade... e a gente saia juntas, porque a gente era melhores amigas e, como melhores amigas, a gente se amava - como se amam as melhores amigas, eu pensava. Um dia ela quis fazer sexo comigo, ela nunca tinha feito isso com mulheres, tinha curiosidade, me confidenciou. E eu, que era uma mulher muito livre e especial, topei. E a gente transou numa festa, no banheiro da casa do amigo do namorado dela, com ele na sala bebendo e celebrando rituais de virilidade com os caras. Eu gostei. Eu gostei muito. Mas ela me disse que não gostou, que nunca mais faria de novo. Eu gostei muito, mas lembrei de novo que eu já tinha certeza que pra  mim sempre era só sexo, só "liberdade sexual", porque o que eu amava e adorava mesmo eram homens e paus. Seguimos a amizade. Com alguns episódios mais de bebedeiras e beijos e amassos escondidos em cantos de festinhas com amigas. Normal. Ela tinha certeza que não havia gostado de sexo lésbico, só estava "meio bêbada", e eu tinha certeza que até gostava de sexo lésbico, mas gostava mesmo, gostava muito, gostava imensamente de homens e de pau. Fomos amigas por alguns anos. Um dia ela arrumou um namorado muito ciumento. O cara me odiou. No início ele tentava disfarçar e ser simpático, mas o namoro vingou e ele não fez questão de esconder que me odiava por muito tempo mais. E, então, eu e minha melhor amiga de anos começamos a nos estranhar. E brigamos. E nunca mais nos falamos.

E eu segui minha vida. Terminei um namoro extremamente abusivo, sai da casa dos meus pais, dividi apartamento, fui morar sozinha, continuei sendo uma mulher muito especial para os homens: eles me adoravam, eu era inteligente, culta e sexualmente livre: eu fazia coisas loucas, inimagináveis, coisas incríveis no sexo. Coisas que quase nunca envolviam meu próprio prazer, muito menos orgasmos - meus, claro, porque eles tinham vários, já que eu era uma mulher incrivelmente poderosa, eu deixava os homens loucos no sexo. Então, eu segui sendo uma mulher muito especial, muito superior às outras, uma mulher que adorava o falo, o homem, o sexo heterossexual, e que, também inteligente, culta e livre como são as mulheres especiais - as que são melhores que as outras - também podia se permitir fazer sexo com outras mulheres, ser uma "bicuriosa", principalmente se isso aumentasse meu poder sobre os homens, se isso agradasse a eles sobremaneira. Fui sendo essa mulher livre, desencanada, bicuriosa, idólatra de homens, do pau, uma mulher heterossexual por algum tempo ainda.

Até que aos 35 anos eu conheci A.
E me apaixonei por A.
E dessa vez eu não consegui negar.

E deu-se a revolução em minha vida.

E a menina que eu neguei durante tantos anos, renasceu em mim, transformando em escombros a minha heterossexualidade.

<3




[A. seguiu sua vida, não ficamos juntas muito tempo. E eu ainda segui crendo que poderia voltar a ser quem eu era com a partida dela. Mas fui descobrindo que eu nunca havia sido quem eu achava que era. O que A. havia feito em mim não cessou de me transformar depois que ela foi embora. ]