terça-feira, 25 de outubro de 2016

HETEROSSEXUALIDADE É ESTUPRO

Quando eu tinha por volta de 11/12 anos comecei a ficar com meninos, geralmente mais velhos, de 15/16 anos, porque ouvi desde sempre que meninas amadurecem mais rápido e que ficar com meninos mais velhos era o que havia de mais legal. Quando ficava com eles, me lembro da tortura que era ter que ficar tirando as mãos deles de partes do meu corpo que eu não queria que fossem tocadas, mas me lembro que não adiantava, eles insistiam, quanto mais eu tirava, quanto mais eu dizia ou mostrava que não queria, mais eles insistiam, na maioria das vezes, até de forma gentil ou desajeitada, eles insistiam, eu dizia e mostrava meu não, mas não adiantava, eles continuavam, até que eu me resignava e desistia, porque já tinha ouvido várias vezes também que "meninos são assim mesmo" e que essas coisas acontecem porque eles nos desejam, porque estão apaixonados, porque nos amam, e porque nós e nosso corpo é irresistível. E eu queria ser desejada e amada. Então eu me resignava porque, enfim, aquilo era ser desejada e amada.

Por volta dos 17 anos tive a minha primeira relação sexual com penetração, com um homem 8 ou 9 anos mais velho. Estava namorando e estava apaixonada, decidi que era a hora. No meio do processo me arrependi, e disse que não, que não queria. Não adiantou, ele continuou forçando, prendeu meu corpo com força no dele pra eu não sair, me fez carinhos, me dizia pra eu relaxar, que era assim mesmo e que depois ficava bom, me dizia que me amava, colocava meu amor à prova, me dizia umas gentilezas e uns elogios e palavras bonitas e forçava, ignorava meu não e forçava. Até que eu me resignei. Lembrei, novamente, que os homens eram assim mesmo e que aquilo era ser desejada e amada. E que menina de 17 anos não quer se desejada e amada, não é mesmo? Voltei pra casa machucada, triste, confusa, me sentindo amada e desejada.

Aos 20 e poucos anos estava namorando um cara 15 anos mais velho. Eu entrando na faculdade, jovem e deslumbrada, ele um cara "inteligente", com uma boa profissão, estabilizado financeira e profissionalmente, um cara bem sucedido, um "bom partido", como diriam nossas mães. E eu apaixonada. Ele morava sozinho e, frequentemente, eu passava os fins de semana em sua casa. Num desses fins de semana eu fiquei gripada, com dores no corpo, mal estar, febre... e fui acordada em plena madrugada com ele nu, em cima de mim, forçando sexo. Eu disse que não queria, que tava me sentindo mal e tinha febre, ele continuou forçando, forçando, forçando, e com palavras doces me dizia o quanto me amava e o quanto me achava linda e maravilhosa e me desejava, e mais ainda quando eu estava daquele jeito, tão frágil e delicada. Eu não queria, mas, mais uma vez, me lembrei que os homens são assim mesmo, e que isso era o jeito deles de amar e desejar, e eu queria ser amada e desejada, eu não queria correr o risco de perdê-lo por ele não me achar boa o suficiente, amável o suficiente, desejável o suficiente, então me resignei e ele terminou o que queria. E eu me senti machucada, triste, confusa, amada e desejada.


Essas são apenas 3 histórias. Eu tenho outras. Eu tenho muitas outras.

Eu demorei quase 30 anos pra entender que isso era estupro.

Eu demorei quase 30 anos pra entender que a heterossexualidade é estupro.


Obra da artista plástica pernambucana Dani Acioli

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

LÉSBICAS: APRENDAM A VER A SI MESMAS

[Esse NÃO é um texto meu, é uma escritura muito linda e vigorosa da artista plástica lésbica J. Lo Borges, que considero importante estar aqui]

A primeira coisa que lésbicas têm que aprender é a ver: ver a si mesma e as outras; reconhecer suas iguais e todos os perigos da própria existência: a primeira coisa que lésbicas têm que aprender é a ver.

Somos invisíveis porque o patriarcado insiste em ver através de nós; porque repugnamos ao nos amar enquanto todo o mundo nos odeia. Se ser mulher é aceitar ódio com discurso de amor, ser lésbica é amar e ser amada enquanto o patriarcado estabelece todo um arsenal de mecanismos punitivos.

Desemprego, estupro corretivo, violência lesbofóbica, marginalização, falta de assistência médica, loucura, solidão, baixa estima.

Ser lésbica é dor pura, antes de se aprender a ver. Visão estabelecida, surgem tantos sorrisos quanto são possíveis. Sorriso e paranóia. As ruas não são seguras. Olhamos para todos os lados antes de cada passo para antecipar os ataques que estão por vir. Ou usamos o escudo da invisibilidade na ciranda normatizada e aceitamos as ameaças do assédio violador a cada passo dado.

Há a ilusão de aceite ao se abraçar a feminilidade. Mas ela garante a solidão da lésbica invisível e os perigos da assimilação heterossexual: o abandono da cultura e da ética separatista; a reprodução da misoginia masculinista e dos padrões de relacionamentos heterossexuais; a a auto tortura em rituais de “beleza” que plastificam e reduzem a existência da mulher à sua estética e à atenção masculina. Isto, também temos que aprender a ver e a sentir.

Espaços separatistas lesbofeministas criam a seguridade e a possibilidade de se escrever nossos próprios paradigmas de relacionamentos. Nós não precisamos do amor romântico e do ciúme doentio que controla e cerceia. Nossas relações são outras e nosso fundamento base é amizade e respeito. Alterar estas relações a partir do sequestro lésbico pela norma heterossexual é oferecer a todas as mulheres presas no estolcomo da heterossexualidade compulsória a possibilidade de ter a mesma relação abusiva que a masculinista, sem desfrutar dos privilégios sociais estabelecidos no contrato heterossexual.

A assimilação lésbica pela heterocultura faz parte do plano de aniquilação patriarcal da rebeldia lesbiana que é inconciliável com os paradigmas patriarcais. Por isso parece tão necessário nos manter vendadas e entusiastas da cultura e da atenção masculina.

Círculos de amizades masculinas, imitação da postura sexualmente agressiva por busca de aceitação e auto afirmação, consumo de música, literatura e arte masculina, socialização em ambientes mistos, aceite da violência masculinista como algo natural e não intencional, aceite da dicotomia butch/femme e reprodução de papéis sexuais em formato da noção inventada de gênero, diminuição da identificação pessoal com a categoria lésbica, aumento de empatia à classe dos homens, transição de gênero com o uso de hormônios masculinos e a reprodução de violências heterossexuais, incluindo o sexo violador, transição de gênero incluindo cirurgia de mutilação corporal, busca de relacionamentos heterossexuais com mulheres heterossexuais; aceite de relações heterossexuais com homens que se dizem mulheres, incluindo o estupro que o PIV constitui, o isolamento, a gravidez, os surtos de violência, a completa absorção do ideário colonizador do homem heterossexual reacionário, que a coloca em papel de sexo feminino com um papel de embrulho de masculinidade.

O abandono de si mesma para caber nos rótulos dos próprios agressores; o abandono de si mesma para sentar à mesa e apertar a mão dos colonizadores; o abandono de si mesma para acreditar estar ao topo enquanto se é esmagada pelos que realmente estão.

A primeira coisa que as lésbicas têm que aprender é a ver.

E ver o invisível nem sempre é uma missão possível. Pintemos todas nossos corpos e nossas comunidades em néon e façamos um futuro existente e resistente para nós e nossas iguais.

Que seja impossível não ver.



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A OPRESSÃO PATRIARCAL É SOBRE OS CORPOS DO SEXO FEMININO

Sobre a materialidade incisiva da violência patriarcal sobre os corpos das mulheres. E sobre corpos materiais de mulheres como resistência à ela.

É incrível como eu preciso desse corpo que resiste à objetificação masculina pra ser quem eu sou. Esse corpo que tem pelos, o corpo com gestos que não se infantilizam, a voz grave sem abrandamentos ou leves falsetes, a postura segura e forte, que não se crê presa, a cara limpa sem artifícios e alegorias desumanizantes, as vestes tranquilas e confortáveis que meu corpo merece. É incrível como eu me reconheço lésbica cada vez mais nesse corpo e como ele se transforma quanto mais eu me reconheço nele. E como eu gosto dele nesse processo, e como eu gosto de mim. E como me aceitar lésbica reconstrói fortemente e ao mesmo tempo a minha autoimagem e a minha autoestima.

Essa sou eu, esse é o meu corpo,


 
e, pela primeira vez na vida, eu gosto profundamente de quem eu sou. Me aceitar lésbica tem me curado.


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA E SOFRIMENTO PSÍQUICO DE MULHERES

Deixa contar uma coisa pra vocês: ser lésbica e viver sob heterossexualidade compulsória adoece. Causa ansiedade, pânico, depressão. Ser lésbica e ter uma situação econômica razoável, uma condição material confortável, uma família amorosa, amigos afetuosos e um namoro/casamento heterossexual bacana, enfim, uma vida "legal", ainda sim adoece, causa transtornos, depressão, sofrimento.

Transtornos psíquicos e doenças psicossomáticas podem ter uma causa: a repressão da sua lesbianidade.

Eu vivi isso por muitos anos, crises de ansiedade fortíssimas, depressão, pânico, bronquite, sem entender direito o que me afligia. Me compreender lésbica tem me curado.

Mergulhem nos próprios sentimentos, mergulhem nas memórias do passado, observem as reações do seu corpo, reflita, analise, sinta, se compreenda. Não tenha medo de se encontrar, não tenha medo de ser lésbica. Não é fácil, mas é lindo e muito potente e importante. <3

Não perca tempo. A gente só tem uma vida.

NOTAS SENTIMENTAIS ACERCA DE MULHERES EM RELACIONAMENTOS HETEROSSEXUAIS

Eu queria muito que as mulheres em relacionamentos heterossexuais ouvissem a si próprias, ouvissem o que falam sobre si, sobre seus homens, sobre seus relacionamentos heterossexuais, porque parece que elas falam, falam, falam, mas não se ouvem.

Ouçam suas próprias palavras, manas, ouçam cada uma delas, ouçam a forma como vocês narram, a forma como vocês selecionam e organizam as suas próprias palavras, as suas narrativas, porque elas são incrivelmente reveladoras.

<3

COMO TIVE A CERTEZA?



Muitas minas, principalmente as que tem ou já tiveram experiências bissexuais, têm me procurado depois de ler meus escritos aqui e no Face e frequentemente me questionam sobre como consegui concluir que era lésbica e romper definitivamente com a ideia de que poderia ser bissexual, já que eu já admiti ter me relacionado e, até mesmo, ter gostado e me apaixonado por homens.

Sim, eu gostava de me relacionar com homens, e há pouco tempo estive envolvida em uma discussão polêmica sobre isso no Face, justamente porque falei que gostei, que gostava de homens, que me apaixonei, desenvolvi afeto e até mesmo cheguei a sentir prazer sexual em relacionamentos heterossexuais, em relacionamentos com homens. E muitas mulheres me condenaram, me corrigiram, me disseram sobre os perigos de admitir que eu tinha gostado de homens e de sexo heterossexual e me disseram que eu deveria usar a expressão "acreditava que" antes de "gostava", de forma que ficasse clara a ideia de que eu não gostei realmente de homens o tempo que estive em heterossexualidade compulsória, mas que era uma crença falsa esse amor. Oras, se alguma de vocês disser à uma lésbica em heterossexualidade compulsória hoje que ela "acredita" que gosta do homem com quem se relaciona, ela vai, no mínimo, rir de você, ou se magoar e ofender muito por teus seus sentimentos deslegitimados. Assim como eu - que hoje não tenho sombra de dúvida sobre a minha lesbianidade - riria, na ocasião de estar me relacionando com eles, se alguém me dissesse que não gostava de verdade, mas que "achava" que gostava. Não, a gente não "acha", não "acredita" que gosta não, a gente gosta mesmo, a gente tem a plena certeza disso. A compreensão sobre como esse "gostar" é imposto e construído através da violência e da redução de nossa existência, do sequestro de nossos afetos e da nossa sexualidade é uma compreensão posterior, é uma compreensão que a gente só tem, só pode ter, quando passa a se aceitar como lésbica, a aceitar a própria sexualidade, tão violentamente negada por nós mesmas a ponto de nós desenvolvermos afeto e erotizarmos aqueles que vão nos manter nessa prisão. Então, não é tão simples a questão ao ponto de ser resolvida colocando-se uma expressão à frente de uma palavra, não é uma questão de sintaxe, ou de gramática, é uma questão muito mais profunda. Diga àquela mulher que te confidenciou que se apaixonou pela primeira vez na vida por uma menina, que teve seu primeiro beijo com uma menina, que sempre amou meninas, que nunca se sentiu confortável com o sexo masculino, mas que, agora, encontrou um homem especial e maravilhoso, uma exceção a todos os outros, que a faz feliz e que a ama, e que ela ama e deseja também, diga a essa mulher, por mais que você consiga enxergar claramente a condição lésbica dela e o processo violento de heterossexualização pelo qual ela está passando, diga a ela que você acha que ela não ama o cara, que, na verdade, ela apenas "acredita" que ama, e veja essa mulher se ofender, se magoar e se sentir totalmente deslegitimada pra falar dos próprios sentimentos. Não é mentira dela, não é uma crença, ela realmente pode amar esse homem, porque ela foi ensinada a fazê-lo porque dentro das possibilidades que ela tinha de ser heterossexual, pra sobreviver, pra ser aceita, pra ser amada, esse homem foi o melhor pra ela, foi aquele a quem ela foi capaz de dedicar algum amor, ainda que ela seja lésbica. Lésbicas em heterossexualidade compulsória também querem ser amadas, também querem doar amor, e encontram formas pra isso, dentro das possibilidades que lhes são oferecidas.

Agora, a pergunta que deve realmente ser feita é a seguinte: porque lésbicas [ou mulheres de uma forma geral] aprendem a amar seus opressores? - na verdade, especialmente em se tratando de lésbicas, seus ESTUPRADORES? Como elas - nós - aprendemos a fazer isso, se já desde a adolescência, a centralidade do nosso afeto e do nosso desejo sexual se desdobra sobre as mulheres, sobre o corpo e o sexo feminino?

Eu vivi 25 anos sob heterossexualidade compulsória, como sempre deixo claro aqui. Durante esse período, eu me apaixonei, amei e tive prazer sexual em relacionamentos héteros. E eu não pretendo esconder isso de ninguém por conta do risco de ter minha sexualidade lésbica negada ou deslegitimada por outras lésbicas, mas, ao contrário, eu quero falar sobre isso, pra que mais mulheres que estejam em lugares semelhantes ao meu, passando por processos parecidos com os meus, possam se reconhecer nas minhas histórias e possam tecer suas próprias compreensões sobre si mesmas e suas sexualidades, e compreender que, assim como eu, podem estar sendo vítimas de uma sociedade que ensina mulheres a amarem e erotizarem o macho, a violência, a dominação, o estupro, a negação da sexualidade lésbica, uma sociedade que impõe às mulheres, como sinônimo da própria mulheridade, a heterossexualidade.

Foi um processo muito longo até eu entender isso. Foram 25 anos desde que desejei pela primeira vez alguém, e ela era uma menina, aos 12 anos, até eu me assumir lésbica aos 38 anos. Foram 25 anos até eu compreender que o que senti por homens sempre foi muito diferente do que o que senti por mulheres. Que o que me foi ensinado a chamar de "amor" e "paixão" em relacionamentos heterossexuais é, na verdade, submissão, dependência emocional, autoestima destruída e manipulada por homens. foram 25 anos até eu entender que o afeto por mulheres - que nunca me foi permitido desenvolver plenamente, e por isso mesmo era mais fácil que eu fosse convencida de que "amor" e "desejo" eram o que eu sentia pelos homens - se dava de forma muito diferente. Foram 25 anos até eu entender a dinâmica daquilo o que eu sentia por homens e que fui ensinada a chamar de amor, paixão, desejo. Foram 25 anos até eu entender que aquilo que o patriarcado me ensinou a chamar de amor sempre foi a minha submissão a eles e a romanização da minha submissão, a romantização da minha destruição, da minha dependência emocional. Foram 25 anos até eu entender que podemos sim gostar da violência que se impõe contra nós quando somos adoecidas e enfraquecidas de tal forma em nossas existências, nossas autoimagens, nossas identidades, nossas autoestimas a ponto de achar que  essa violência é tudo a que temos direito numa sociedade em que homens são seres superiores, seres humanos e mulheres são inferiores, são objetos. Foram 25 anos até eu entender que estava adoecida de tal forma pela heterossexualidade que aprendi a chamar de amor/paixão/desejo a minha própria submissão. Foram 25 anos até eu entender que o amor poderia estar exatamente naquele lugar que eu tentei abandonar aos 12 anos e neguei por toda minha vida, até aqui. E, então, quando eu entendi isso, eu simplesmente perdi o interesse por homens e libertei o meu amor lésbico de toda culpa que eu carregava por senti-lo!

Como eu consegui isso?

Refletindo. Sofrendo. SOFRENDO MUITO. Em silêncio (um silêncio pelo qual gostaria que vocês não passassem, por isso quero falar sobre isso agora com vocês), sozinha, afundada em sentimentos e reflexões. Escarafunchando minhas memórias, meu corpo, meu desejo, minhas reações, meus medos, e pensando, pensando, pensando sobre essas coisas profundamente. Mas, sobretudo, pensando nisso com honestidade, sem medo, com muita coragem de enfrentar o que viesse, o que fosse, de enfrentar o fato de que eu podia ser lésbica, e que isso iria me trazer problemas, rejeição, medo, que eu teria que enfrentar minha família, amigos, sociedade, que, depois de 25 anos sendo socialmente reconhecida como heterossexual e circulando bem em alguns espaços sociais graças a isso, que eu teria muitas portas fechadas, muitas negativas, muitos problemas a enfrentar. Pensando com honestidade na possibilidade de eu verdadeiramente ser lésbica e em não rechaçá-la, mas enfrentar isso. E quando eu decidi ter essa honestidade comigo mesma, minha lesbianidade se libertou. Ela saltou do meu peito e do meu sexo tão violentamente que foi impossível pra mim tornar a negá-la, porque ela passou a ser quem eu sou. Quando eu resolvi enfrentar a lesbofobia dentro de mim, a lesbofobia internalizada dentro de mim e que me impedia de ser a lésbica que eu sou, a minha lesbianidade brotou imperiosa de dentro de mim, como o ramo verde que brota imperioso da fresta da rocha.

Eu consegui isso refletindo e sofrendo, debruçada em memórias, em sentimentos, em vergonhas, debruçada sobre meu próprio corpo de mulher, sobre meu sexo, sobre meus gestos, meus gostos, meus motivos, minhas razões, pensando sobre meus relacionamentos abusivos, sobre como eu me sentia quando ficava com homens, sobre como eu me comportava quando estava em relacionamentos heterossexuais, sobre o que representava a figura masculina pra mim, desde meu tio abusador, passando por meu pai e todos os namorados que tive, pensando sobre como sempre me senti diferente na presença e na interação com homens e com mulheres. Não foi um processo imediato, de um ou dois dias, nem de semanas... Foi um processo muito lento, de quase dois anos, desque - ainda sem pensar na possibilidade de ser lésbica, mas apenas querendo evitar repetir padrões de relacionamentos abusivos com homens - eu comecei a questionar o que me atraia na masculinidade, já que ela sempre me machucava tanto. Ou, antes disso, três anos antes disso, quando terminei um dos relacionamentos mais abusivos que vivi e decidi que iria permanecer sozinha até compreender por que fazia aquilo comigo, por que me colocava naquelas situações, como poderia amar homens se eles me magoavam, me adoeciam, me entristeciam, me machucavam e, muitas vezes, me destruiam profundamente.

Eu fui pensando, refletindo, examinando, eu mergulhei dentro de mim, profunda e dolorosamente, e eu enxerguei a minha lesbofobia, meus medos, toda misoginia introjetada em mim por uma sociedade que me impõe a heterosexualidade como única possibilidade de SER e que me diz que lésbicas são lixo - quem quer ser lixo, não é mesmo? Eu não queria. Eu mergulhei em mim tão profundamente e tão dolorosamente que, por vezes, achei que não fosse suportar - ansiedade, pânico, depressão, e o aperto no peito e a falta de ar são sintomas comuns a quem está se afogando em si mesma. Mas eu consegui subir à superfície de novo, eu voltei, eu peguei a moedinha de ouro jogada no fundo do poço e subi. E respirei aliviada. E quando respirei, eu já estava apaixonada por quem eu era, eu já estava apaixonada e orgulhosa por ser lésbica por ser quem eu era, por ter enfrentado tudo isso pra ser quem eu era; e já estava apaixonada pelas mulheres, porque eu sei que elas, cada uma delas, também mergulha em seus poços escuros e sufocantes, nos poços em que são confinadas, em que são jogadas pra se afogar, elas estão lá, mergulhadas, assim como eu, tentando encontrar a moedinha e subir à superfície e respirar (nadem até o fundo antes de tentar chegar à superfície!), e isso me apaixona nelas, muito antes de eu entender, isso já me apaixonava nelas, porque a gente nada e mergulha juntas, o tempo todo, de mãos dadas, atreladas umas às outras, embora muitas vezes nem percebamos isso, porque o poço é escuro.

Então, eu me afirmo lésbica agora porque, apesar de tudo, eu amo profundamente ser lésbica, porque ser lésbica é o que eu sou, é quem eu sou e eu não quero e não tenho mais como negar isso. Eu sou lésbica porque eu amo profundamente amar mulheres, eu não tenho nenhum interesse por homens, porque  meu afeto e desejo está centrado em mulheres. Eu sou lésbica porque amo mulheres.  <3

Se você acha que é lésbica, se tem essa dúvida, se desconfia disso, se esse pensamento já rondou sua cabeça, seus sentimentos, suas reflexões, não perca tempo, não se demore, mergulhe fundo e se encontre. A vida passa muito rápido, não perca seu tempo. Seja feliz amando mulheres e não tenha medo de enfrentar isso, porque apesar das dificuldades, você não tá sozinha, como eu não estou. Somos muitas. E nossas histórias se tocam, e nosso amor por mulheres nos une, em diversos espaços, atravessando a história. <3

Amar mulheres é lindo, é poderoso, é potente e é muito feliz. Não tenha medo. Se entregue. <3



domingo, 14 de agosto de 2016

PEQUENAS NOTAS SENTIMENTAIS ACERCA DA MINHA HETEROSSEXUALIDADE

Eu me relacionei com homens durante mais de 25 anos, e tive alguns namoros longos, de 3/4/5 anos. Eu nunca chamei nenhum namorado de "meu amor". NUNCA. Sei lá, simplesmente essas palavras não saiam.

Eu nunca gostei de andar de mãos dadas com eles na rua. Eu evitava e, quando eles conseguiam, eu esperava um tempo e me desvencilhava. Me dava uma sensação estranha estar presa pelas mãos daquela forma a um homem.